O médico infectologista e pesquisador da Fiocruz Amazônia, Marcus Lacerda, pretende tomar medidas cabíveis contra a exposição sofrida por ele na CPI da Covid no Senado.
Isto porque desde o início das oitivas na Comissão Parlamentar de Inquérito que investigam as ações do Governo Federal na pandemia há pouco mais de um mês, um estudo pioneiro – liderado por Lacerda em Manaus – que comprovou a ineficácia da cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com coronavírus tem sido rechaçado por aliados do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que depõem na CPI.
O ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, foi o primeiro a criticar a pesquisa de Lacerda na Comissão, no dia 19 de maio. Em seguida, a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde da pasta, Mayra Pinheiro, a ‘Capitã Cloroquina’, também dirigiu ataques ao estudo do pesquisador amazonense em depoimento à CPI da Covid. E por último, a médica oncologista e imunologista Nise Yamaguchi em depoimento, nesta terça-feira (1°), procurou descredibilizar a pesquisa de Marcus Lacerda e sua equipe sobre os efeitos das altas dosagens de cloroquina em pacientes graves acometidos pelo vírus Sars-CoV-2.
“Eu não estou conseguindo atender a imprensa porque estou com meus advogados e estamos muito abalados com tudo isso. Eu ainda não sei o que vou fazer. É uma exposição muito grande e estamos em um processo de discussão dentro da nossa equipe. Não dá para afirmar nada agora”, disse Lacerda, com exclusividade ao RealTime1.
O infectologista disse preferir, no momento, não confirmar se pretende processar, ou não, os depoentes da CPI que citaram de forma negativa o estudo da Fiocruz Amazônia.
Duros ataques x fortes defesas
Nise Yamaguchi citou diversas vezes ao longo do dia o fato do estudo de Marcus Lacerda ter terminado com mortes de pacientes e a influência que ele teve na proibição do uso da cloroquina pela Food and Drugs Administration, a agência de vigilância sanitária dos Estados Unidos.
A médica, ontem, pareceu ter encontrado um parceiro para descredibilizar a pesquisa realizada por Lacerda em Manaus. Aproveitando-se das falas da depoente, o senador governista Luiz Carlos Heinze (PP-RS) voltou a criticar o estudo.
“Esse estudo de Manaus, que usou altas doses em pacientes hospitalizados, foi usado por pesquisadores internacionais para combater o uso deste medicamento, que em outros estudos apresenta evidências de eficácia”, atacou a médica.
Heinze, como faz nos dias da sessão da CPI, mais uma vez classificou o estudo como “criminoso” e voltou a insistir que ele é alvo da Justiça Federal no Amazonas. Alguns senadores, como Alessandro Vieira (Cidadania-SE), interviram pró-Lacerda.
“A senhora sabe muito bem que este estudo já foi revisado pelos pares, pelos conselhos de ética médica e Ministério Público Federal. Não foi encontrado nenhum problema na pesquisa”, disse Vieira, evitando dizer que Nise mentia para os senadores.
O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD), também defendeu o trabalho dos profissionais envolvidos com o estudo. “Ninguém vai falar mal dos profissionais do Instituto de Medicina Tropical de Manaus e da Fiocruz. Eu os conheço, respeito e sei da qualidade dos trabalhos realizados por eles”.
Pesquisa internacionalmente reconhecida
Os resultados da pesquisa comandada pelo pesquisador e infectologista foram publicados em um artigo na revista Jama (Journal of the American Medical Association), da Associação Médica American, em abril do ano passado, e teve reconhecimento nos EUA pelo NIH [National Institutes of Health, em tradução, Institutos Nacionais de Saúde].
Texto: Diogo Rocha e Gerson Severo Dantas
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