A médica oncologista Nise Yamaguchi negou sua participação em um “gabinete paralelo” de aconselhamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), mas confirmou que esteve em diversas reuniões com o presidente, autoridades do Governo e técnicos do Ministério da Saúde defendendo o uso da cloroquina e ivermectina no tratamento precoce da Covid-19 e relativizando o uso de vacinas, o que irritou bastante os dirigentes da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado na manhã de hoje (1º).
O presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD), ameaçou interromper o depoimento de Nise, prestado na condição de convidada, para aprovar uma reconvocação para que ela passasse a depor como testemunha, quando não poderia mentir aos senadores.
Tanto Omar quanto o relator Renan Calheiros (MDB-AL) pediram respostas diretas aos questionamentos, principalmente quando confrontada com vídeos onde ela aparecia defendendo o tratamento precoce e anunciando medidas que o Governo Federal adotou posteriormente.
Fala mansa
Com o estilo mais prolixo e ‘dando voltas’ para responder aos questionamentos do relato, ela irritou também o governista Jorginho Mello (PSC-SC), que pediu que ela fosse direta nas respostas. “A senhora precisa parar de arrodear o toco e responder diretamente”, disse Jorginho Mello.
Quando Renan mostrou um vídeo no qual Nise defendia o tratamento precoce e dizia que não era necessário vacinar aleatoriamente a população e obrigar que todos se vacinassem, a resposta foi diversionista e isso gerou a irritação de Omar Aziz. “A senhora com essa fala mansa convence muita gente, mas eu quero alertar aqui, aos que nos ouvem, que não acreditem nela. Precisamos vacinar todo o nosso povo com duas doses, doutora”, rebateu Omar.
Mas com a mesma fala mansa, ela seguiu dizendo que tratamento precoce e vacinas não são excludentes, apesar de no vídeo a posição dela ser bem clara pela preferência do tratamento precoce.
A sós com o presidente
Nise Yamaguchi também se contradisse várias vezes quando não especificou o número de encontros com autoridades em Brasília. Ela foi confrontada, por exemplo, sobre um encontro com Bolsonaro no qual ela seria convidada para ser ministra em substituição a Nelson Teich. Inicialmente ela havia negado que tenha tido encontros a sós com o presidente, mas uma agência de checagem mostrou o contrário e passou os dados para Renan.
Guerra de versões
Um dos pontos muito explorado pelo relator durante seus questionamentos foi sobre a mudança que pretendiam fazer na bula da cloroquina para permitir seu uso no tratamento da Covid, fato relatado pelo ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e pelo presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra Torres, à CPI.
Ambos relataram a ocorrência de uma reunião na qual foi apresentada uma minuta de decreto modificando a bula da cloroquina, mas Nise Yamaguchi negou que a minuta em questão tratava dessa questão. Ela afirmou que o documento falava sobre dosagens, aplicações e questões de segurança. “Nunca houve isso de mudar bula por decreto”, disse Nise.
Quando questionada se Mandetta e Barra Torres mentiram à CPI, Nise novamente escapou com sua fala mansa e entregou o que ela disse ser uma cópia da minuta com o assunto que foi discutido à época. O documento criou outra questão levantada por Omar, uma vez que Nise negou ter sido a responsável pela elaboração dele.
“No depoimento do Barra Torres ele deixa claro que após descartar essa mudança, o (então ministro da Casa Civil) Braga Neto pegou o documento e o destruiu. Se ela tem o documento agora, é porque foi ela que elaborou”, afirmou Omar.
Nise Yamaguchi, que se considerou uma consultora eventual do governo, disse que teve acesso à minuta, mas não sabe quem a produziu.
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