O vice-prefeito de Manaus, Renato Júnior (Avante), protagonizou nesta semana uma cena que escancara não apenas o desprezo pelo dever de transparência, mas também a naturalização do uso de verbas públicas para autopromoção.
Durante a inauguração de uma quadra esportiva na última segunda-feira, ao ser questionado pela jornalista Cíntia Blink sobre por que a Prefeitura destinou cerca de R$ 155 milhões para comunicação em 2025 e apenas R$ 3 milhões para casas de acolhimento, ele preferiu ironizar.
Em vez de responder objetivamente sobre prioridades de governo, limitou-se a dizer que, na gestão municipal, comunicação é prioridade e que jornalista tem que sustentar sua família, insinuando que pagar a imprensa justificaria os valores.
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A postura do vice-prefeito não é um episódio isolado. Tem sido recorrente a tentativa de tratar com humor um tema que é sério: o uso de recursos públicos para comunicação institucional.
Comunicação pública não é favor, tampouco instrumento para comprar silêncio ou aplausos. Ela existe para informar a população, não para blindar governantes.
Uma coisa é divulgar ações de interesse público — outra, bem diferente, é transformar a publicidade oficial em ferramenta de autoproteção política.
Transparência, prioridades e uso da verba pública
Ao tratar o uso de verbas públicas para autopromoção como algo normal, o vice-prefeito afronta a inteligência coletiva e banaliza o dever de transparência.
O dinheiro que deveria servir à cidade — à saúde, à educação, à assistência social, à infraestrutura — é usado para alimentar a vaidade do poder e sustentar uma máquina de propaganda que transforma gestão em espetáculo.
O que se viu no vídeo publicado pela jornalista em suas redes sociais não foi apenas uma resposta infeliz. Foi um retrato de gestão: pouca transparência, muito marketing e nenhuma disposição para reconhecer prioridades distorcidas.
O episódio não expõe apenas um deslize verbal, mas uma forma de governar — muita publicidade, pouca transparência e ausência de autocrítica.
Essa retórica, travestida de justificativa técnica, revela a lógica de quem confunde comunicação pública com marketing pessoal. E, ao fazê-lo, repete práticas de governos que usavam a publicidade oficial para mascarar ineficiência e construir mitos.
Entre comunicar e comprar silêncio
Uma coisa é remunerar com responsabilidade jornalistas concursados ou profissionais que atuam em órgãos públicos de forma transparente.
Outra — bem diferente — é repassar quase R$ 100 mil por mês a determinados sites e blogs para comprar opinião, blindar críticas ou construir elogios sob encomenda.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser sobre comunicação e passa a ser sobre financiamento de silêncio e fidelidade.
Ministério Público questiona prioridades da Prefeitura
A pergunta feita pela jornalista Cintia Blink teve como base a recomendação feita pelo Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM), por meio da promotora de Justiça Ynna Breves Maia Veloso, após identificar uma disparidade na alocação de recursos públicos prevista na Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2025.
Segundo a promotora, a Secretaria Municipal de Comunicação (Semcom) recebeu uma dotação orçamentária de R$ 155.836.000,00, enquanto a Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc) — responsável por políticas de acolhimento, abrigos e proteção social — recebeu R$ 118.708.000,00.
Ou seja, a pasta de comunicação dispõe de cerca de R$ 37 milhões a mais que toda a estrutura de assistência social do município.
Na recomendação, o Ministério Público afirma que essa diferença “levanta questionamentos sobre a ordem de prioridades da gestão municipal diante das demandas sociais urgentes”, sobretudo considerando a situação de pessoas em vulnerabilidade que dependem de políticas públicas de acolhimento, proteção e assistência.
A promotora também lembra que a publicidade pública, conforme a Constituição Federal, deve ter caráter educativo, informativo ou de orientação social — não pode ser utilizada como instrumento de promoção pessoal de agentes públicos ou de favorecimento político e midiático.
A recomendação reforça um debate já presente na sociedade e que vem sendo cobrado inclusive pelo RealTime1: a falta de transparência na destinação das verbas de publicidade e a inversão de prioridades entre comunicação oficial e políticas sociais básicas.
Confira a recomendação do Ministério Público:
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