terça-feira, 29 de setembro de 2026

“CAIXA-PRETA”: pagamentos para sites não possuem critérios técnicos transparentes

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caixa preta da prefeitura de manaus

Entre os dias 14 de fevereiro e 1º de abril de 2025, a Prefeitura de Manaus pagou R$ 377.918,65 (valores brutos) ao site Banzeiro News, um portal de notícias online cuja presença digital levanta sérias dúvidas sobre o retorno efetivo do investimento feito com dinheiro público.

Com média de apenas 1.100 visitas por mês, tempo médio de permanência de 44 segundos por visitante e uma taxa de rejeição de 38,89%, o Banzeiro News apresenta métricas tímidas para justificar um gasto tão expressivo.

O levantamento foi feito pelo RealTime1 com informações coletadas no Portal da Transparência e revela, pela primeira vez, o que é considerada a “caixa-preta” dos recursos públicos da Secretaria Municipal de Comunicação e a destinação das verbas para blogs, sites e portais.

O que está em discussão são os critérios adotados para a contratação dos serviços prestados pelos veículos de comunicação.

Presença digital quase irrelevante

O desempenho nas redes sociais do portal, reforça o descompasso. Ao longo do período analisado:

– Instagram: 125 publicações geraram apenas 474 curtidas e 11 comentários.

– Facebook: 123 posts renderam 271 reações, 1 comentário e 88 compartilhamentos.

– YouTube: Nenhum conteúdo foi publicado.

A soma de interações nos dois principais canais foi de apenas 845 ações, o que representa uma média de 3,6 interações por publicação — incluindo curtidas, comentários e compartilhamentos.

Além disso, a soma total de seguidores nas três plataformas é de 2.369 pessoas. Considerando os R$ 377 mil repassados, o custo por seguidor chega a R$ 159,07 — um valor que chega a ser 30 vezes mais alto que o praticado em campanhas de marketing com influenciadores de médio porte.

Os dados foram analisados utilizando o Semrush, plataforma americana de pesquisa de palavras-chave, análise competitiva, auditorias de site, rastreamento de backlinks e insights abrangentes de visibilidade on-line.

Tráfego orgânico não compensa ausência de estratégia

O Banzeiro News se apoia fortemente em tráfego orgânico via SEO, com 8.400 palavras-chave indexadas e presença em buscas por termos como “roubo”, “SINE Manaus” e “notícias sobre furto”.

Contudo, a maioria das palavras-chave está mal posicionada no Google (entre as posições 51 a 100), o que limita a efetividade da busca como canal de entrada.

Sem campanhas de tráfego pago expressivas ou estratégias de retenção, o número de visitantes permanece abaixo da média para um veículo com financiamento público.

Além disso, o conteúdo mais buscado gira em torno de temas sensacionalistas ou funcionais, como vagas de emprego e IPTU. Isso revela um foco editorial pouco qualificado e uma estratégia limitada à atração pontual, sem fidelização de audiência.

Diferença gritante em relação ao segundo colocado

Outro dado que chama atenção é a disparidade no valor recebido pelo Banzeiro News em comparação com outros portais.

O segundo site mais bem pago no mesmo período, o Portal CM7, recebeu R$ 160.631,80 — menos da metade do valor destinado ao Banzeiro News.

A diferença entre os dois portais ultrapassa R$ 217 mil, o que reforça a necessidade de questionamentos sobre os critérios utilizados para a distribuição desses recursos.

A desproporção se agrava ainda mais quando se observa o desempenho digital de ambos os portais.

O CM7 soma 521.459 seguidores nas redes sociais (sendo 233.054 no Facebook, 224.005 no Instagram e 64.400 no YouTube), enquanto o Banzeiro News soma apenas 2.369 seguidores. Em termos de interações, o CM7 contabiliza:

– Instagram: mais de 640 mil curtidas e 45 mil comentários em 1.800 publicações;

– Facebook: 328 mil reações, *55 mil comentários e 22 mil compartilhamentos em 2.400 posts;

– YouTube: 54 mil “gostei” e 1.800 comentários em 681 vídeos publicados.

No que diz respeito ao tráfego do site, o CM7 registrou 452,7 mil visitas em março. Além disso, tem uma média de permanência de 07:59 minutos por usuário, métricas significativamente superiores às do Banzeiro News, que tem apenas 44 segundos de permanência.

Os dados também foram coletados utilizando o Semrush.

Diante desses dados, a desigualdade na alocação dos recursos públicos não encontra justificativa técnica ou proporcional.

Falta de critérios ou uso político da comunicação?

O caso do Banzeiro News expõe um problema recorrente em administrações públicas: o uso da verba de comunicação institucional sem critérios transparentes de audiência, alcance ou impacto real.

Sem justificativa técnica clara, os repasses levantam suspeitas sobre possíveis favorecimentos políticos ou relações pessoais entre os responsáveis pelo site e a gestão municipal.

Embora o Banzeiro News demonstre competência em SEO — com cerca de 8.400 palavras-chave indexadas e forte presença em buscas por temas como segurança e serviços públicos —, a maioria desses termos está entre as posições 51 a 100 nos resultados do Google, o que limita fortemente a conversão em visitas reais. Apenas uma fração das palavras-chave traz tráfego qualificado.

Apesar de abordar temas de interesse local, como vagas no Sine, festivais culturais e obras públicas, o portal sofre com baixa fidelização de audiência, falta de engajamento direto nas redes e tráfego orgânico instável. O conteúdo, ainda que relevante, não é distribuído com eficácia nem explora plenamente os recursos narrativos e editoriais das plataformas digitais.

Dessa forma, ao contrastarmos o alto valor recebido com os modestos indicadores de performance digital, torna-se evidente um descompasso entre investimento público e impacto comunicacional efetivo. O custo elevado por seguidor, a baixa taxa de conversão das publicações, o declínio do tráfego e a ausência de estratégias de impulsionamento e diversificação de conteúdo expõem uma lacuna grave entre o financiamento e os resultados entregues à população.

Este cenário aponta para a necessidade urgente de auditoria e reavaliação dos critérios de alocação de verbas públicas a portais de comunicação, garantindo que os recursos estejam de fato promovendo alcance, engajamento e pluralidade de informação qualificada.

NOTA DA REDAÇÃO:

A matéria publicada nesta sexta-feira (11/04) com o título “Caixa Preta”: Prefeitura gasta dinheiro público pagando sites com pouca audiência e baixa presença digital foi retirada do ar por 22 horas e volta ser publicada na íntegra, para confirmar se os valores pagos ao Banzeiro News não teriam sido somados aos valores pagos a uma empresa homônima (Banzeiro), de marketing digital.

Nosso levantamento está correto e foi feito baseado em dados disponíveis, apesar de difícil acesso, no Portal da Transparência do município de Manaus.

Não publicamos fakenews e não fazemos chantagem.

O levantamento realizado pelo Real Time1 mostra que os pagamentos realizados para sites em Manaus pela Prefeitura de Manaus, por meio da Secretaria Municipal de Comunicação, carecem de critérios técnicos transparentes.

Portanto, republicamos a matéria com o título: “CAIXA-PRETA”: pagamentos realizados para sites não possuem critérios técnicos transparentes para reforçar e deixar claro o objetivo da publicação.

Veículos de comunicação profissionais, como qualquer outra empresa legalmente constituída, podem comercializar seus serviços.

Mas em se tratando de recursos públicos são necessários critérios claros para que sejam contratados os serviços que melhor atendem aos interesses públicos. Afinal, quem paga por eles são os contribuintes.

Para que não pairem dúvidas do trabalho criterioso adotado pelo RealTime1, aproveitamos para publicar, abaixo, o levantamento detalhado dos valores pagos para o Banzeiro News, com os respectivos prints de liquidação entre os dias 14 de fevereiro e 1º de abril de 2025. Detalhamento feito com todos os processos cujos pagamentos foram liquidados no período.

Confira a lista dos valores pagos a 164 blogs e sites, no período entre 14 de fevereiro e 1º de abril de 2025:

Nota da redação 2: Quadro com relação de blogs e sites foi atualizado às 17h30 de 14/04/2025 em função dos seguintes ajustes:

  • Portal do Marcos Santos e Portal Marcos Santos foram agrupados (No Portal da Transparência apareciam com nomes diferentes, mas mesmo CNPJ);
  • Portal Norte Cristão foi agrupado com o Site Norte Cristão (No Portal da Transparência apareciam com nomes diferentes, mas mesmo CNPJ);
  • Portal Gazeta do Amazonas foi separado do Portal Gazeta da Amazônia.

Continuamos checando e rechecando os dados que, por serem fragmentados (vide casos de sites que aparecem com nomes grafados de forma diferente mas que possuem o mesmo CNPJ) podem eventualmente gerar alguma inconsistência.

Estamos agora tendo que pesquisar o CPNJ de todos os blogs e sites que aparecem no Portal da Transparência para que a lista que publicamos seja 100% exata. Caso sejam encontrados outros achados, nossa planilha será atualizada.

Mais simples seria se essas informações estivessem disponíveis de forma acessível, como determina a legislação.

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