O professor e sociólogo Francinézio Amaral disse, em entrevista ao RealTime1 nesta terça-feira (23), que a proposta do vereador Raiff Mattos (Democracia Cristã), de instituir o “Dia do Conservadorismo” no calendário oficial do município de Manaus, é um exemplo nítido de ameaça aos valores democráticos e à pluralidade de pensamentos na sociedade.
O Projeto de Lei (PL) nº 628/2021 apresentado por Raiff, no dia 19 de novembro deste ano, na Câmara Municipal de Manaus (CMM), institui no calendário oficial da cidade o dia 10 de março como o “Dia do Conservadorismo”.
Raiff Matos defende que “o conservadorismo é uma cultura, ou seja, um conjunto de crenças e valores que servem de gabarito na hora de pensar, agir e decidir”. Por isso, quer a aprovação do PL para estimular nas crianças e adolescentes princípios e valores que foram passados por seus pais e familiares.
Ainda segundo o parlamentar, “o conservadorismo defende a manutenção das instituições sociais tradicionais, tais como: a família, a comunidade local e a religião, além dos usos, costumes, tradições e convenções”.
Há conceito padrão para o conservadorismo?
Contrário à proposta, Francinézio Amaral ressalta que o conservadorismo “nunca teve um conceito padrão, evidenciando sua complexidade”.
“Antes de tudo, é preciso dizer que o conservadorismo é uma filosofia social que ganha forma organizativa a partir do século 18 e, de lá pra cá, já sofreu diversas variações. Até porque o conservadorismo é contrário aos comportamentos universalistas e, por isso, também é avesso à democracia, mesmo que busque ao máximo, velar essa postura,” ele diz.
O conservadorismo no Brasil
O professor explica que no Brasil o comportamento conservador pode ser entendido como uma mistura de várias questões que têm em comum a manutenção, a qualquer custo, dos privilégios e dos poderes econômicos e políticos das elites que dominam a sociedade.
“Como o país nunca priorizou um sistema educacional que permita aos indivíduos ampliar os conhecimentos a partir do senso crítico, fica fácil para que se façam confusões sobre os significados do conservadorismo”, ressalta o sociólogo.
O conservadorismo e os direitos sociais
Francinézio avalia que muitos políticos se aproveitam dessas confusões sobre o conceito de conservadorismo para destacar questões que possam facilitar o convencimento do eleitorado, como, por exemplo, a defesa da família.
No entanto, conforme o especialista, os políticos buscam esconder, a todo custo, que o conservadorismo não aceita que todos os indivíduos tenham direitos sociais de forma equilibrada, ou que o acesso ao poder político seja reservado apenas para as pessoas das classes dominantes.
Parte da população se deixa levar
O professor explica que a confusão dos conceitos estimulada por personagens políticos, como Jair Bolsonaro (sem partido), faz com que uma parte da população seja levada a crer que um comportamento baseado apenas no conservadorismo seja algo bom, o que, segundo Francinézio, é um grande erro.
“É preciso entender que todas as instâncias sociais possuem certo grau de conservadorismo em suas estruturas e isso não é, necessariamente, algo ruim. O que se torna um problema é a deturpação das ideias com a intenção de se promover politicamente ou sobrepor os interesses de uma instituição social, a religião, por exemplo, acima das demais instituições. Isso sim é nefasto para o equilíbrio de uma sociedade”, ressalta Amaral.
Proposta do vereador não é uma surpresa, avalia sociólogo
Francinézio diz que a proposta de Raiff não o surpreeende. “As propostas dele estão sempre aquém do mínimo esperado de um representante do legislativo, remunerado pelos cofres públicos”, critica o professor.
“Mais uma vez, ele apresenta um projeto totalmente desconectado com a realidade da sociedade manauense e que mostra que ele defende apenas os interesses privados de seu grupo religioso, a chamada ‘bancada evangélica’. O projeto, além de superficial, em nada acrescenta de positivo para a sociedade e é mais uma tentativa disfarçada de impor questões do famigerado projeto ‘escola sem partido’ que, na verdade, sempre foi uma tentativa de silenciar e censurar o trabalho de professoras e professores das redes públicas de ensino”, frisou.
Francinézio afirma ainda que tudo que o PL nº 628/2021 indica já é garantido pela Lei nº 9394/1996, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. “O PL precisa ser combatido com veemência por todos e todas que acreditam e defendem a democracia”, conclui o educador.
Texto: Isac Sharlon
Leia Mais: