terça-feira, 22 de setembro de 2026
REPAVIMENTAÇÃO

Comércio e indústria vão enviar carta a Lula pedindo obra na BR-319

Setores alinham discurso de que recuperação da rodovia não é apenas uma questão econômica, mas social.
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Reunião foi realizada na sede da Fecomércio-AM, em Manaus (Foto: Luciano Falbo)

Os representantes do comércio amazonense vão enviar uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pedindo ao governo federal que priorize os trabalhos de recuperação do pavimento da rodovia BR-319, que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO) – confira a carta na íntegra.

A obra foi incluída no pacote de obras do Amazonas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A parte mais problemática é o chamado “trecho do meio”, com cerca de 400 quilômetros, que está pendente de licenciamento ambiental.

O temor dos ambientalistas e dos órgãos ambientais é que a pavimentação estimule a ocupação irregular ao longo da via, levando à derrubada da floresta na região, num efeito conhecido como “espinha de peixe”.

Em agosto, o presidente anunciou a criação de um grupo de trabalho para avaliar a viabilidade socioambiental da obra de forma célere, contudo o colegiado ainda não foi criado.

Em reunião na tarde desta segunda-feira (30), na sede da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Amazonas (Fecomércio-AM), o presidente da entidade, Aderson Frota, propôs a representantes políticos e dos setores produtivos a unificação do discurso de que a obra da BR-319 não é só uma questão econômica.

Usando como mote a estiagem extrema deste ano, Frota sugeriu que a rodovia tem que ser tratada como uma solução para socorrer a população em situações como essa, com ajuda humanitária, por exemplo.

A ideia de Frota, ao enviar a carta diretamente a Lula, é evitar ruídos. “A palavra final é dele”, ressaltou, na abertura do encontro, que reuniu representantes da Federação das Indústrias do Amazonas (Fieam), da Associação Comercial do Amazonas (ACA) e políticos, como os vereadores Peixoto e Lissandro Breval.

Em entrevista, Aderson Frota disse que o foco da carta ao presidente é falar dos efeitos da estiagem no Amazonas.

“Veja bem, nós não estamos só defendendo uma tese puramente econômica. Claro, o abastecimento da cidade, do interior do Estado é fundamental. E, nesse momento da estiagem, em que a população está privada de água potável, está privada de alimentos – porque morreram os peixes, que é o alimento básico do homem do interior. Então, nós estamos reiterando a necessidade de nós termos uma rodovia funcionando, integrando o Amazonas ao resto do país, para que nós possamos realmente reduzir a dependência, reduzir os problemas, reduzir os efeitos drásticos que realmente fazem a população do interior sofrer de forma muito séria”, disse.

“Então, nós não estamos aqui, entidades de classe, defendendo bandeiras econômicas. Nós estamos preocupados com os efeitos que está atingindo a população do interior. Essa população que hoje não tem água para beber, não tem peixe para comer, que está privada de muitas coisas, por quê? Porque veja bem, não é só o problema de estiagem. É o problema também dos transportes que podem abastecer essas populações. Os rios estão baixos, nós não temos estradas, nós não temos ferrovias, a nossa rodovia está até hoje, depois de 50 anos ainda, precisando de uma conclusão. E tudo isso afeta a população que está sofrendo um momento muito difícil”, acrescentou.

Questionado pelo RealTime1 sobre o fato do grupo de trabalho anunciado por Lula ainda não ter sido criado, Frota disse que o setor prefere não adentrar em “meandros políticos”. “Nós estamos indo diretamente ao presidente da República”, observou, em referência à carta.

“O presidente da República, nós estamos levando exatamente, dentro de uma linguagem que ele percebe, que ele entende do sofrimento que a população está vivenciando. É essa realidade que nós temos que levar ao presidente da República. ‘Ô, presidente, essa rodovia, a reconstrução dessa rodovia, que foi construída há mais de meio século, ela necessita ser reconstruída para integrar o Amazonas, o interior do Estado e também o Estado de Roraima, ao resto do Brasil’”, disse.

“Porque com dois modais, que é o rodo-fluvial, que é exatamente a cabotagem, nós estamos tendo, pelo problema da estiagem, nós estamos inviabilizados. Então, como abastecer a população? Como atender as necessidades da população? Como tirar a população dessa onda de sofrimento drástico? Então, a BR-39 se configura como uma das principais soluções para que a gente possa trazer uma realidade menos dolorosa do que a que nós estamos passando nesse momento”, concluiu Frota.

Alinhado ao discurso de Aderson Frota, o vice-presidente da Federação das Indústrias do Amazonas (Fieam), Nelson Azevedo, repetiu que não se pode somente olhar a questão econômica, com o comprometimento do Polo Industrial da Zona Franca de Manaus. “Você tem que levar em consideração o que acontece com o nosso pessoal do interior”, disse. “É todo mundo esquecer qualquer coloração partidária, se envolver e defender”, acrescentou.

Perguntado pelo RealTime1 se a indústria reconhece as preocupações ambientais que envolvem a liberação das obras na rodovia, ele disse que sim e que manter bons indicadores ambientais fortalece o setor.

“Em todas as empresas do Distrito Industrial, eu estou falando isso porque eu tenho fábrica, a preocupação é muito grande com o meio ambiente. Ah, se nossa população tivesse a preocupação que a indústria tem. Nós sabemos que é muito importante que se mantenha, que haja essa preservação. Nós temos 97% da nossa floresta em pé, no Amazonas, e é logicamente que isso é muito representativo para nós, é muito bom e nos dá condição de fortalecer cada vez mais nossas indústrias”, disse.

Nelson Azevedo defendeu que, após a rodovia ser recuperada, caberá à União, o Estado e os municípios atuarem para evitar que haja degradação ao longo da estrada.

‘Case’ do oxigênio na pandemia

Ambos os representantes dos setores comercial e industrial citaram a crise do oxigênio durante a pandemia de Covid-19, em 2021, quando houve falta do gás e a rodovia, mesmo em situação precária, foi usada para trazer o insumo hospitalar ao Amazonas.

Comércio sem estoque, e indústria sem escoamento

O presidente da Associação Comercial do Amazonas (ACA), Jorge Lima, afirmou que o comércio é o setor que mais sofreu com a estiagem na região. “A indústria, ela se protege, ela compra em grande escala e o comércio não tem esse poder de ter em grande escala”, destacou.

Já para as indústrias, o maior problema hoje, segundo Nelson Azevedo, não é falta de matéria prima, mas escoamento da produção. “Principalmente nessa época natalina, de festividades, que é a época em que mais se vende”, concluiu.

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