sexta-feira, 2 de outubro de 2026

"A teoria da janelinha de Romário e a 'frente ampla' do futuro governo Lula"

O cientista político Gilson Gil lembra que Lula conquistou apoio na campanha com a tese de que governaria com uma 'Frente Ampla', mas a tese está sendo derretida a cada dia.
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Em artigo para o Portal RealTime1, o cientista político Gilson Gil lembra que a campanha de Lula para presidência utilizou a tese de que o terceiro governo do petista seria “amplo e não seria do PT, mas do povo brasileiro”.

No entanto os nomes de ministros, anunciados até aqui, revelam apenas que a ideia da ‘Frente Ampla’ está sendo derretida a cada dia. Confira:

Em 1966, vendo o endurecimento do regime militar iniciado em 1964, Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek e João Goulart, cada um com distintos posicionamentos, realizaram uma aliança política.

Reivindicavam a volta das liberdades individuais e o retorno da democracia. Lacerda, antigo defensor do golpe de 1964, foi o idealizador dessa Frente.

Foi ele que, através das Cartas de Lisboa e Montevideu (cidades onde JK e Jango moravam exilados), liderou esse movimento. Em 1968, Costa e Silva proibiu tais movimentos e, logo depois, com o AI-5, definitivamente acabou com iniciativas desse tipo.

Retomei tais detalhes históricos, cerca de 55 anos depois, para apontar como o termo foi retomado em 2022.

Primeiramente, de forma mais vaga, em um movimento “Frente Ampla pela Democracia”, liderado por juristas, estudantes e advogados. O manifesto buscou agregar interesses em torno de si.

Empresários, depois, organizados em torno da FIESP, publicaram um manifesto também, defendendo a democracia e dizendo que participariam de atos semelhantes, “em defesa do estado de Direito”.

Rapidamente, Lula, o PT e seus apoiadores, endossaram a iniciativa e disseram que a apoiariam. Foram além disso, dizendo que seu governo seria “amplo”, pois “não seria do PT, mas do povo brasileiro”.

Assim, cresceu essa tese da Frente Ampla, que, após a vitória de Lula, foi amplamente difundida pela imprensa, em especial a grande mídia tradicional.

Contudo, voltemos a Romário. Em 2004, barrado no Fluminense pelo técnico Alexandre Gama, Romário fez de tudo para derrubá-lo. E justificou sua atitude dizendo que o treinador mal “havia chegado no ônibus e já queria sentar na janelinha”.

Interessante metáfora, que pode iluminar alguns dos dilemas da suposta Frente Ampla que teria vencido as eleições.

O dilema Tebet esclarece tais problemas. A divulgação dos nomes do ministério mostra claramente que é um governo do PT, com a ajuda de alguns tradicionais aliados.

Tebet, Alckmin e outros que venham a aparecer ganharão cargos, mas de segunda relevância. O núcleo duro (economia, social e gestão) é do PT e isso nem está entrando em discussão. A tese da Frente Ampla está sendo derretida a cada dia.

Os cargos palacianos estão com o PT, assim como os maiores orçamentos (área social, Educação e Fazenda, por exemplo). E incluo nesse bolo a Justiça, cujo titular anunciado – Flávio Dino – é um histórico quadro do PCdoB, tradicional satélite petista, que, por razões eleitorais acabou no PSB, legenda que costuma abrigar aqueles com problemas localizados (vide Geraldo Alkmin).

Partidos que querem aderir ao governo eleito (PSD, MDB e União Brasil, só para citar alguns), como fazem há anos, estão amargando no limbo dos “sem-cargo”.

Em suma, o PT pode muito bem responder que Tebet, assim como vários outros, que estão na “fila do ônibus”, seguindo a linguagem romariana, precisam de mais tempo de casa. Estariam muito novinhos para quererem ficar logo “na janelinha”.

É difícil fazer frentes amplas reais. Tivemos uma aliança eleitoral de conjuntura. Interesses convergiram contra Bolsonaro, nos mais diversos níveis, e isso acabou levando a uma vitória nas urnas. E ponto final. Nada mais do que isso.

Agora, as negociações são outras. Ledo engano de quem achou que uma “Frente Ampla” teria vencido. Pela segunda vez (a primeira em 1966), nossa Frente foi derrotada. Desta vez, sem nem sequer ter iniciado os serviços. É preciso ter em mente que é um governo do PT (com suas linhas auxiliares habituais).

Este ponto é fundamental para se entender o que virá por aí, seja em ações oficiais, seja nas negociações parlamentares. A “teoria da janelinha” é poderosa e viva. É bom estarmos de olho nela, para compreendermos um pouco mais da política atual brasileira.

Por Gilson Gil – Cientista Político

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