quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O discreto charme da oposição nas democracias ocidentais

Ao Portal RealTime1, o cientista político Gilson Gil analisa a rejeição dos derrotados no voto em compreenderem o futuro papel que terão na democracia, o papel de oposição.
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Em artigo exclusivo ao Portal RealTime1, o cientista político Gilson Gil analisa a recusa, daqueles que perderam no voto, em entender o papel do oposicionismo nas democracias. Confira:

A democracia é feita de situação e de oposição. Nem todos cabem no bonde situacionista. Por mais que as alianças e frentes sejam amplas, sempre há diferenças irreconciliáveis.

Esses adversários acabam formando aquilo que se convencionou, no Ocidente democrático, chamar de oposição.

Como se faz o oposicionismo? Através de denúncias fundamentadas, estardalhaço na imprensa, movimentos sociais, passeatas, processos na justiça, discursos no Legislativo e críticas em todos os espaços disponíveis, entre outros recursos legais possíveis.

É algo extremamente benéfico às democracias. Atualmente, ainda podemos listar os grupos no WhatsApp e toda essa mídia alternativa das redes sociais como formas contemporâneas de se fiscalizar e denunciar a situação.

Contudo, há oposição e oposição. Vemos, hoje, no Brasil, uma certa recusa daqueles que perderam no voto a entender o papel do oposicionismo nas democracias. Rejeitam, assim, o papel de oposição, isto é, de serem fiscais dos governantes, de denunciarem os erros dos eleitos e atuarem na coordenação dos dissidentes, resistindo às ações que considerarem equivocadas.

Pedir intervenção militar ou implorar por um golpe não é próprio das oposições democráticas. O jogo parlamentar e midiático, incluindo as redes sociais, das oposições é marcado por uma fiscalização do orçamento, dos contratos executados, da distribuição dos cargos e da condução dos projetos oficiais, por exemplo. Acreditar que há golpes “redentores” é apelar a instâncias não-políticas, supostamente infalíveis e supramundanas.

Há uma certa tradição cultural brasileira, com seus altos e baixos, originada ainda na República Velha, mais especificamente com Floriano Peixoto e os jacobinistas, que apela a uma certa superioridade moral e intelectual do Exército.

Isso reaparece nossa história frequentemente (1930, 1937, 1945, 1954, 1955, 1961, 1964 e 1968, para citar algumas datas marcantes). Desde os anos 80, muito pelo insucesso do governo Figueiredo e pelas esperanças na Nova República, essa linha de pensamento ficou abafada e as forças armadas perderam prestígio.

Em 2013, 2014 e 2016 reapareceu o saudosismo pela ditadura/regime militar, cuja votação de 465 mil votos de Bolsonaro para deputado federal (RJ) pode ser um exemplo. Esse processo culminou em 2018, quando, além da eleição de Bolsonaro, vários generais e capitães foram eleitos.

Durante o governo Bolsonaro, só na esfera federal, mais de 6 mil militares ocuparam cargos de confiança. Houve, sem dúvida, uma reabilitação, para vários setores da sociedade, dessa imagem das forças armadas, incluindo esse resgate dessa visualização delas como “salvadoras”.

Que os protestos contra A ou B sejam legítimos é difícil duvidar. Realizar passeatas ou motociatas faz parte da democracia. Abrir processos contra decisões dos eleitos também é do jogo, assim como criticar projetos e fiscalizar movimentações financeiras suspeitas.

Contudo, invocar imagens de mais de cem anos atrás de uma certa “santidade” redentora de algumas instituições, solicitando que elas operem golpes, não é parte das democracias ocidentais.

Golpes e CPIs sabemos onde iniciam, mas nunca aonde terminarão. Finalizemos com o exemplo de Juscelino Kubitschek, que apoiou o golpe de 1964, depois ajudou na “eleição” de Castelo Branco (com a promessa de que seria o candidato do regime militar em 1965) e que acabou sendo um dos primeiros indiciados pelos inquéritos militares.

Chateado, JK indagou a um amigo comum dele e de Castelo qual a razão de ele ser alvo de um IPM. A resposta foi: “O Castelo não podia deixar você solto por aí” (Carlos Chagas. A ditadura militar e os golpes dentro do golpe).

Por Gilson Gil – Cientista Político

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