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sábado, 27 de novembro de 2021

Luta antiga e futuro incerto: corte no orçamento afeta diretamente a Amazônia

Pesquisadores acreditam que o corte de verbas para C&T acabará sendo direcionado para o agronegócio, que, segundo eles, vem sendo a causa do desmatamento na Amazônia.

15 de outubro de 2021

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Pesquisadores alertam sobre o avanço da expansão agrícola na Amazônia (Foto: Takumã Kuikuro/Fotos Públicas)

Profissionais renomados de Ciência e Tecnologia (C&T) realizaram, na tarde desta sexta-feira (15), uma mesa redonda, em formato virtual, pelo Dia Nacional de Luta Pela Ciência, para debater sobre o anúncio do governo Bolsonaro (sem partido) de cortar R$ 600 milhões de verbas para o setor de C&T.

A classe avalia que o corte acabará com a perspectiva de vida de muita gente, principalmente pessoas de baixa renda e que precisam de bolsas de estudo para continuar com a formação acadêmica.

O encontro contou com a participação de pesquisadores ligados a instituições como a Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Instituto Nacional de Pesquisas na Amazônia (Inpa), Museu da Amazônia (Musa), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade de São Paulo (USP) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

O sofrimento não é de hoje

O físico Ennio Candotti, ex-presidente da SBPC e atual coordenador geral do Musa, avalia que não é de hoje que a classe de pesquisadores enfrenta cortes de verbas para C&T. Segundo ele, os anos passam e nada é feito para reverter alguns quadros na Amazônia.

“Há muitos anos nós sofremos cortes no financiamento e não é a primeira vez que batalhamos para reconstruir o orçamento de ciência e tecnologia. Eu sinto falta nos dias de hoje de um certo rigor na explicitação de como estamos vendo o momento da ciência e como esses recursos impactam no nosso futuro”, destaca o físico.

Candotti deu como exemplo uma citação do antropólogo Roque Laraia no ano de 1961, que, durante uma viagem à Marabá, no Pará, se deparou com uma aldeia indígena com vários contaminados por uma gripe, na época desconhecida e sem tratamento. Segundo ele, a doença dizimava aldeias por onde passava.

“Hoje, 60 anos depois, temos a pandemia de Covid-19 e o genocídio das comunidades indígenas, como aconteceu lá atrás e nada foi feito até agora para mudar essa situação. Nós, como comunidade científica, temos a responsabilidade de assumir que essas coisas têm solução”, defende o coordenador do Musa.

Ele avalia que não é possível que hoje em dia comunidades de médicos realizem experiências em seres humanos.

“Isso é responsabilidade da comunidade científica. Esses experimentos realizados por médicos é um crime. Se o presidente do Conselho de Medicina é a favor, que ele então se condene com todas as letras e não silencie diante de acusações graves”, dispara o físico.

“Não são recursos para astronautas, são recursos para se combater a pandemia e a gripe, que desde 1961 matam nossa comunidade indígena”, apela o profissional.

Cabeças pensantes não interessam ao governo

“Enquanto nós lutamos para que pessoas de baixa renda tenham acesso à faculdade, ao ensino superior e público, para a sua sobrevivência, o governo federal corta as verbas porque o dinheiro está sendo encaminhado para o agronegócio”, denunciou a professora Rosa Ester Sorrini, da USP.

Segundo ela, ao governo Bolsonaro não interessa cabeças pensantes. “Quanto pior a educação, melhor para esse governo. Se você coloca pessoas com bom nível, elas vão discutir. Se as pessoas têm um nível menor, elas não discutem e obedecem – e obedecer o pastor são as pessoas que elegeram Bolsonaro”, desabafa a professora.

Para Sorrini, o governo está preocupado em cortar verbas de outros setores para usar no agronegócio. “Vão repassar essas verbas para o setor ruralista, para apoiar projetos do agronegócio. O desejo desse governo é produzir para exportar, mas isso é uma coisa gravíssima quando não se tem estoque, pois o preço da comercialização do produto aqui praticamente triplica”, ressalta a pesquisadora.

Desmatamento para a expansão agrícola

A professora alerta para um crime silencioso que vem acontecendo na Amazônia. “Uma pesquisa feita por uma estudante de uma turma em que leciono aponta uma denúncia grave sobre a compra de terras na expansão da fronteira agrícola dos estados de Minas Gerais e Mato Grosso até o Pará”, revela a professora.

A expansão agrícola avança sobre a Amazônia e coloca em risco à floresta amazônica, única região do país em que ainda há grande quantidade de água no solo. Em outras regiões do Brasil, revelam os pesquisadores, não há mais quase água no solo, o que dificulta o agronegócio brasileiro. Isso justifica a expansão agrícola sobre a floresta no norte do país.

Por fim, a pesquisadores voltou a falar sobre o corte e lamentar a atitude do atual presidente. “Estamos tendo perda de grandes cérebros. Os pesquisadores estão indo para países do exterior, que estão destinando verbas para o desenvolvimento de seus projetos e experimentos”, enfatiza.

A possibilidade de salvar vidas

Para Nelson Noronha, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura na Amazônia, da UFAM, o corte ameaças milhares de bolsas de estudo de C&T.

“Hoje, dos mestrandos e doutorandos, nós não temos 30 bolsas de estudo. Uma bolsa no mestrado significa a possibilidade de salvar vidas, que, por exemplo, vão desenvolver atividades para a prevenção de doenças e e segurança alimentar para prevenir a fome”, alertou o pesquisador.

Noronha avalia que não consegue entender as indiferenças na sociedade, como, por exemplo, a comoção sobre a morte de uma pessoa famosa com a morte das vítimas de Covid-19.

“Eu não entendo como as pessoas podem se comover com a morte de um famoso ou artista e não se comover com a morte de mais de 600 mil pessoas. Precisamos chorar e compreender o que está acontecendo. É preciso procurar separar e denunciar essas práticas tão horrorosas”, repudiou o profissional.

Biopassado x biofuturo

Noemia Kazue Ishikawa, coordenadora do curso de pós-graduação em Ecologia, do INPA, avaliou que hoje se exige muito da ciência sobre o futuro, mas pouco se interessam pelo passado.

“Hoje, se exige muito da ciência, bioprodutos, biofuturos, bioecônomia, essas palavras da moda. Mas se a gente não saber do biopassado do mundo não tem como estudar o biofuturo. O nosso curso, no Inpa, faz esse trabalho de pesquisa básica. Hoje, com esse corte, eu sinto como se tivéssemos a torneira, mas ao mesmo tempo estejam fechando a água e impedindo que ela saia pela torneira. Quando a gente quer a vacina para a Covid-19, um bioproduto, melhorar a economia do país, a gente quer água. Não podemos ficar só com a torneira sem água”, exemplifica a coordenadora da pós-graduação em Ecologia.

Texto: Isac Sharlon

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