quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Captação de recursos é um 'gargalo' para negros e mulheres na política

Pautas indenitárias alcançaram mais destaques nas últimas eleições, mas ainda não conseguiu transformar em realidade com representatividade de negros, indígenas e mulheres,
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negros
(Foto: Divulgação)

A legislação que cria cotas para mulheres e pessoas pretas nas disputas eleitorais ainda é insuficiente para viabilizar mandatos que representem a maior parcela da população. A afirmação é de Ruan Wendell, presidente da União de Negros e Negras Pela Igualdade do Estado do Amazonas, ao se referir à candidatura feminina e de pessoas.

Até 2030 os votos dados a concorrentes negros ou do sexo feminino deverão ser contados em dobro. A distribuição interna dos recursos Fundo Eleitoral deverá ser de 30% para candidaturas de negros e a candidaturas femininas.

Em 2020, embora pretos e pardos tenham somado 50% do total de candidatos, eles receberam cerca de 40% da verba dos fundos eleitoral e partidário. Os autodeclarados brancos reuniam 60% do dinheiro, apesar de representarem 48% dos candidatos.

Ainda há barreiras

Para Wendell, mesmo com a mudança nas regras, ainda existe muito empecilho barrando candidaturas que poderiam representar a parte da população que ainda não é bem representada nos poderes políticos.

“Chega em época de campanha eleitoral, a gente vê que existe muito impedimento sobre a pauta de raça e gênero e há umas questões burocráticas de vontade política. Os partidos precisam ver que eles têm que investir em campanhas como estas, de pessoas pretas, do movimento LGBTQI+, de mulheres e movimento de moradias. Porém, há trincheiras que a gente constrói, debate e força para que os partidos possam se comprometer. Por isso que a gente lutou tanto para mudar a legislação”, disse Wendell.

Wendell diz que, para fazer uma campanha que possa representar de fato a população, é preciso de cota que englobe gênero e pessoas negras e indígenas, além de garantir financiamento mais realista e igualitário para as campanhas.

Diferença entre financiamentos de campanha

Em 2014, candidatos brancos que declararam recursos na disputa para deputado federal conseguiram, em média, R$ 399 mil para financiar suas campanhas. Os candidatos negros tiveram um terço desse valor: R$ 138 mil. Após as mudanças nas regras, em 2018, em que o financiamento por empresas foi barrado, os valores permaneceram desiguais: R$ 251 mil para os brancos e R$ 110 mil para os negros.

Estratégia

A alternativa encontrada pelos grupos, segundo Wendell é investir na linguagem de falar com a periferia, principalmente com as pessoas negras, porque vivem a mesma realidade.

“Eu já fui candidato, sei como é difícil uma pessoa preta dentro de um partido tanto de esquerda quanto de direita quanto de centro, viabilizar seu financiamento de campanha. Por isso, o movimento negro, LGBT, de mulheres e o movimento de cultura conseguem fazer bolar uma nova forma de fazer política”, disse.

As pautas indenitárias alcançaram mais destaques nas últimas eleições, mas ainda não conseguiu transformar em realidade na prática, com representatividade de negros, indígenas, mulheres e pessoas LGBTI nas câmaras municipais, legislativas, federal e no Senado.

“O Brasil é extremamente racista, a gente é o país que mais mata preto dentro da periferia, e a gente precisa mudar essa realidade. Mas para mudar essa realidade, a gente tem que ter mais pessoa preta nos mandatos legislativos, para que a gente possa levar  nossa opinião de pessoas periféricas, de pessoa pretas, quilombolas, travestis e trans para dento desse espaço tão importante que transforma e consegue mudar os rumos da vida e o povo brasileiro”, disse.

Bancada das Manas, que vai  disputar uma vaga para Aleam (Foto: Laryssa Gaynet)

Mulheres buscam eleger a primeira candidatura coletiva no Estado

A aposta para 2022 é a Bancada Coletiva, que em 2020 alcançou uma votação expressiva, mas devido a regra do coeficiente, mesmo sendo a quinta candidatura mais votada, não conquistou uma cadeira na Câmara Municipal de Manaus pelo PSOL. Agora, filiadas ao PCdoB, as mulheres buscam eleger a primeira candidatura coletiva no Amazonas.

“Foi uma candidatura que deu certo e nesse ano, a gente está apoiando a Banca da Coletiva, que agora é Bancada das Manas, que vai  disputar uma vaga para Aleam [Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas]. São cinco mulheres pretas que formam essa bancada que são: Val Fontes, Alessandrine Silva, Michelle Andrews, Marklize Siqueira e Patrícia Andrade“, disse.

Texto: Aldizangela Brito

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