quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A crise de Manaus pela ótica de quem deveria ajudar a conter mortes

Pazuello apresentou um quadro em que minimizou os efeitos do desabastecimento de oxigênio em Manaus e negou ter recebido a oferta de aviões par o transporte do gás.
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A crise provocada pelo desabastecimento de oxigênio nos hospitais de Manaus, com efeitos em vários municípios do interior do Amazonas, aconteceu em um mundo paralelo se levarmos em conta a versão apresentada pelo ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, nesta quarta-feira (19), em depoimento prestado à Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19 do Senado.

Pazuello contou que monitorava a situação de Manaus desde fins de dezembro e enviou, nos primeiros dias de janeiro, uma equipe para fazer um raio-x da situação da capital amazonense. Contou que devido aos alertas dessa equipe, começou a transportar oxigênio para Manaus no dia 8 de janeiro.

O real e o imaginário

Mas ai começam as contradições entre o mundo real e o universo paralelo de Pazuello, pois momentos depois afirmou que só tomou conhecimento da gravidade no dia 10, um domingo à noite, quando se reuniu com o governador Wilson Lima (PSC) e o secretário de Saúde, Marcellus Campêlo.

O secretário Campello disse ao portal RealTime1 que ligou para Pazuello no dia 7 de janeiro e informou da gravidade do caso. Um email da empresa White Martins, principal fornecedora de oxigênio para os hospitais do Amazonas, também foi encaminhado no dia 8 de janeiro ao ministério, mas Pazuello nega ter tido acesso a ele.

Oxigênio simbólico

Na versão de Pazuello, no dia 11 ele estabeleceu com sua equipe e autoridades locais um Centro Integrado de Controle e Comando (CICC) para gerenciar a crise e no dia seguinte (12) começaram a chegar vôos da Força Aérea com insumos e oxigênio em Manaus. O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD), disse que esse oxigênio trazido era praticamente “simbólico” e não resolvia a situação dos hospitais.

O senador Eduardo Braga (MDB) foi mais incisivo e disse que carga significativa de oxigênio encaminhada pelo Ministério da Saúde só chegou mesmo no dia 24 de janeiro, quatro dias após a chegada da carga de 100 mil metros cúbicos enviadas de caminhão pelo governo da Venezuela.

‘Crise durou três dias’

Ainda no depoimento, Pazuello apresentou uma planilha mostrando que a White Martins tinha em dezembro um estoque regulador com 300 mil metros cúbicos de oxigênio e que foi sendo usado ao longo dos primeiros dias de janeiro. Disse que esse estoque regulador acabou no dia 13, uma quarta-feira, fazendo com que a empresa passasse a fornecer uma quantidade 20% inferior a demanda dos hospitais.

Essa situação negativa, contou Pazuello, ocorreu nos dias 13, 14 e 15 de janeiro, sendo regularizada já a partir de 16. Os registros da imprensa da época e as intervenções dos senadores Omar e Eduardo evidenciaram que a crise de oxigênio só foi controlada no fim de janeiro. Braga chegou a mostrar que no dia 30 de janeiro ainda morriam amazonense por falta de oxigênio nos hospitais.

Recusou três aviões

Outra versão do universo paralelo de Pazuello diz que o ministério não recebeu a oferta de três aeronaves para o transporte de oxigênio com mais rapidez para Manaus. Um documento oficial do Ministério da Saúde, apresentado pela senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), mostrou que o ministério recusou a oferta de ajuda e expôs os motivos pelos quais estava recusando.

Pazuello também foi informado sobre os aviões pelo vice-presidente da Câmara Federal, deputado Marcelo Ramos (PL), que no dia 14 de janeiro falou sobre o assunto com o então ministro.

Além do avião, um boeing 767 adaptado, ofertado pelos Estados Unidos, a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) ofertou duas outras aeronaves, mas também não obteve respostas do Ministério dirigido por Pazuello.

General de Divisão do Exército brasileiro e hoje servindo na Secretária Geral da Força, no departamento de cerimonial e análise de distribuição de medalhas, Pazuello foi ministro da Saúde de 16 de maio de 2020 até 23 de março de 2021.

Texto: Gerson Severo Dantas

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