O consumo médio de peixes no Amazonas é mais do que quatro vezes superior ao consumo médio dos brasileiros, mas em algumas regiões do Estado esse número pode chegar a mais de 20 vezes. Essa situação impulsiona o setor de aquicultura, que dobrou a produção neste século, porém sem dar conta do consumo.
De acordo com estudo do engenheiro de Produção Marcos Célio Arruda, a produção das principais espécies explodiu, mas não dá conta do mercado consumidor do Estado, que precisa ser atendido com peixes vindos de Rondônia e mais recentemente Roraima.
Arruda analisou, em dissertação de Mestrado apresentada a Universidade Federal do Amazonas, a evolução da piscicultura no Estado entre 2003 e 2014.
Segundo números estudados pelo especialista, a média de consumo de peixes no Brasil é de 12 kg/ano contra uma média de consumo no Estado de 60 kg/ano.
A estratificação do consumo por região, contudo, mostra o tamanho do desafio do setor produtivo para atender o mercado consumidor. Na região do Médio Amazonas o consumo é de 134.7 kg/ano; no Baixo Amazonas chega a um consumo entre 178,9 e 219 kg/ano. No Alto Solimões o consumo explode, com uma média anual de R$ 292 kg/ano.
Piscicultura concentra espécies e muda hábitos
Os números do Censo Agropecuário realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram bem a evolução da produção de peixes em cativeiro e a concentração dessa produção em espécies de maior valor comercial e rápida entrega para o mercado, como o Tambaqui e a Matrinchã.
O número de criadores de tambaqui saltou de 316 em 2006 para 1,644 mil em 2017 e desde então segue estável. Criadores de Matrinchã não foram identificados pelo Censo de 2006, mas em 2017 já eram 613 em todo o Estado.
Para os especialistas, essa concentração ocorre porque os estudos científicos sobre as espécies já estão bem consolidados e permite que em um ano, com o controle do ambiente e a ração adequada, o peixe atinja sua maturidade e possa ser comercializado com boa margem de lucro e preços acessíveis.
Sem estes estudos, o peixe mais consumido pelos amazonenses, o jaraqui, segue sendo capturado na natureza, o que deixa ameaçado a renovação de seus estoques.
Nas feiras e mercados, a prevalência de tambaqui e matrinchã criados em viveiros ou barragens salta aos olhos do consumidor, que paga mais quando quer o sabor tradicional do peixe capturado na natureza.
“Só que essa opção só é feita por dois tipos de consumidor: o mais rico, que quer exibir aquele peixão grande no almoço de domingo, e o mais velho, que conhece a diferença no paladar entre o peixe de rio e o de viveiro. O consumidor jovem, que foi criado conhecendo o paladar do peixe de viveiro, faz a opção pelo mais barato”, conta um dono de uma banca localizada na feira de peixes do Dom Pedro.
Tamanho da piscicultura no Amazonas
Apesar do investimento público e privado desde 2003, a piscicultura do Amazonas ainda está longe dos principais atores do setor na Amazônia.
De acordo com números da FAO, órgão das Nações Unidas para Agricultura e Alimentos, em 2021 o Estado de Rondônia era o maior produtor mundial de tambaqui, com mais de sete mil empresas de piscicultura licenciadas, espalhadas por uma área de 230 mil km2 e incríveis 14 mil hectares de lâmina d`água.
No Amazonas, pelo mesmo estudo da FAO, os piscicultores estavam próximos de 2 mil empresas e menos de 5 mil hectares de lâmina d`água. A Embrapa compara as duas iniciativas e aponta que as condições geomorfológicas de Rondônia oferecem vantagens para a cultura de peixes em viveiros, mas há espaço para o setor crescer no Amazonas.