Uma visita rápida ao setor de peixes do mercado municipal Adolpho Lisboa, que está entre nós há 140 anos completados no último sábado, dá uma boa mostra de como o consumo de peixes em Manaus se alterou nas décadas deste século e mudou os hábitos alimentares tradicionais da região.
Tambaqui (quase sempre oriundos de criação), pirarucu (de lagos de manejo) fresco e seco e tucunarés estão em todas as bancas, o que demonstra uma redução na oferta de variedades de peixe para um povo que tinha o hábito alimentar de comer entre 20 a 30 espécies comerciais diferentes .
Peixes, antes abundantes na mesa do manauenses, praticamente desapareceram dos mercados. São exemplos disso espécies como Aracu, Curimatã, Apapá ou sardinhão, Acará-açu e Cubiu, todas muito consumidas pelas camadas mais pobres da população.
Outras espécies, como Aruanã, Pirapitinga, sardinhas e algumas variedades de peixes lisos (como o Surubim) só são encontrados em “mercados raiz”, como a Panair, onde funciona o terminal pesqueiro, e feira da Ceasa, onde hábitos alimentares clássicos ainda são estimulados.
Hábitos alimentares padronizados
Doutor em Engenharia de Pesca pela Universidade Federal do Amazonas, Mário Thomé, afirma que essa é uma questão comercial que ocorre com vários elementos e que alteram sim os hábitos alimentares, privilegiando as espécies de maior valor agregado, como Tambaqui e Matrinchã.
Ele cita como exemplo o que ocorreu com a banana, cujo consumo em Manaus está praticamente restrito a uma espécie: a banana prata produzida nos campos de Roraima.
“Onde encontramos nas feiras de Manaus a banana maçã? a banana nanica? Ou a pesadíssima São Thomé? Raramente encontramos estes produtos nas feiras. Em supermercados nem pensar!”, avalia o professor, um dos maiores estudiosos de tucunarés do Brasil.
Esse fenômeno de redução de consumo das espécies aconteceu porque espécies mais valorizadas passaram a ser cultivadas em larga escala e, com isso, houve uma redução nos preços praticados no comércio, permitindo um acesso maior a espécies mais valorizadas pelo consumidor.
Um vendedor da feira de peixes do bairro Dom Pedro vende o quilo do tambaqui de cultivo por, em média, R$ 10, mas o quilo do mesmo peixe capturado nos rios sai por até R$ 25, dependendo do tamanho do exemplar.
Com o preço deste mesmo tambaqui de cultivo dá para comprar uma enfiada de Cubiu com aos menos seis exemplares, então não é interessante para o feirante comercializar o peixe mais barato. O resultado está nas bancadas de peixe do Adolpho Lisboa.
Hábitos alimentares em mudança
Para o professor de Gastronomia Bruno Raphael, essa redução na oferta de peixe para o consumo dos amazonenses significa uma perda de riqueza culinária e também um perigo para a história de um povo.
Natural de Pernambuco, o professor está no Amazonas desde o início dos anos 2010 e vê essa redução na oferta de peixes nas bancas de comida, onde peixes, como o jaraqui, logo que ele chegou em Manaus, dividia espaço com o “churrasquinho de gato”.
“Hoje não vejo mais isso, tem só carne, com seus diversos cortes, e suíno e frango. Até kafta encontramos, mas uma sardinha assada não mais”, afirmou.
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