sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Omar Aziz e o movimento estudantil que mudou o Amazonas

Reportagem publicada no jornal "O Estado de S. Paulo" com arquivos do SNI sobre o senador Omar Aziz lembrou época do movimento estudantil local do qual ele fez parte.
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O extinto e temido Serviço Nacional de Informação (SNI), órgão de espionagem da ditadura militar (1964-1985), monitorou as atividades do presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19, senador Omar Aziz (PSD), no tempo em que ele atuava no movimento estudantil do Amazonas.

A revelação está em reportagem do jornal “O Estado de S. Paulo” desta segunda-feira (12) e lança luzes sobre um movimento que revelou uma série de personalidades que atuaram ou ainda atuam com destaque na vida política e social do Estado.

De acordo com a reportagem, baseada em relatórios do SNI, Omar Aziz era identificado pelo código B2367373 e pelo apelido de “Palestino”, devido a origem familiar dele. Os documentos tratam o então estudante de Engenharia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) como “subversivo” e adversário do regime militar.

Movimento mais organizado

Há detalhes da participação de Omar em ações no Amazonas e participação em congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) no Rio de Janeiro e São Paulo.

Um dos citados na matéria, o servidor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Manoel Paulino da Costa Filho lembra que na época o movimento estudantil era bem mais organizado e atuante que o de hoje e, por isso, revelou tantos nomes importantes para a sociedade amazonense.

“Nós fizemos parte do Diretório Universitário, erámos da mesma força política, a Viração”, contou, referindo-se a Omar Aziz, Vanessa Graziottin, Eron Bezerra, Selma Baçal, Edson Ramos, Antônio Levino, Gina Rêgo, George Tasso. “Nós apoiamos a gestão da Vanessa no DU – hoje Diretório Central dos Estudantes (DCE) – e depois integramos a gestão do Edson Ramos, quando eu era o vice-presidente e o Omar diretor de Assuntos Estudantis”, relembra Paulino.

As origens

O pesquisador Durango Duarte afirma que o movimento estudantil dessa época foi sendo construído aos poucos entre 1977 e 1979, quando o PCdoB começou a se organizar dentro da Ufam, então Universidade do Amazonas (UA).

Inicialmente havia, segundo ele, um “núcleo duro” dentro do Centro Universitário e Cultural de Agronomia, o “Cuca”, onde destacavam-se o ex-senador João Pedro Gonçalves, o ex-deputado Eron Bezerra e um terceiro nome identificado como Cardoso.

Em uma segunda fase do movimento, que vai de 1980 a 1984, Durango destaca a capacidade de organização do PCdoB dentro da universidade e na União Nacional dos Estudantes (UNE), refundada em 1979 sob a presidência do ex-presidente da Câmara Federal Aldo Rebelo.

“Havia uma frente ampla envolvendo militantes das correntes trotskistas e do antigo Partido Comunista do Brasil, o partidão, mas o PCdoB cresceu muito nessa fase filiando muita gente e encontrando figuras como a Vanessa, Gina Gama, Paulo Sarmento e Edson Ramos, que era o candidato a presidente da chapa de 1983 (Avançar), que tinha ainda como membros, Paulino Costa, Durango Duarte e Omar Aziz. Nessa época Tasso já era vice-presidente Norte da UNE”, conta.

A chapa de Edson Ramos para a presidência do DU bateu a do ex-deputado Janjão – então estudante do curso de administração, conhecido até então apenas como João Fonseca, e que segundo Durango, “sofreu a maior derrota já registrada no movimento estudantil do Amazonas”.

No meio de um dos debates, Edson teria saído correndo, fugindo do debate. Quem teve que defender a chapa foi o hoje conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas Érico Desterro, apoiado pela direita universitária, reconhecido e respeitado pelos membros do PCdoB como um grande orador, já naquela época. Desterro não fazia parte da chapa de Janjão. Ele e Edinho Schoreder eram tido apenas como apoiadores externos.

Segundo Durango, João Fonseca fugiu do debate saindo como “covarde” no debate acadêmico da Universidade do Amazonas (UA), hoje Ufam.

Duas frentes de luta

Durango Duarte explica que o movimento daquela época estava dividido em duas frentes de luta, uma tratando de temas do dia a dia dos estudantes e outra de olho nas grandes questões nacionais. “No plano local a pauta era formada por questões que afetavam diretamente os estudantes, como a eleição para a reitoria, a construção do restaurante universitário, a reforma curricular, todos assuntos que atraiam quem não era de esquerda. A esquerda era minoria e essa pauta reivindicatória atraia o interesse de todos”, explica.

“Já a pauta nacional pedia o fim do acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), Anistia, Diretas Já, a ida do Tancredo Neves ao colégio eleitoral”, completou.

Ele lembra ainda que, deste grupo inicial, que atuou no movimento pelo PCdoB, Omar Aziz foi o primeiro a deixar o partido, ainda em 1986. Ele queria ser candidato a deputado na eleição estadual daquele ano, mas não teve o nome aprovado pelo partido. Saiu e foi apoiar Amazonino Mendes, que na época estava mais à esquerda do espectro político.

“Depois da nossa geração veio a dos médicos Deodato (Francisco, médico e ex-secretário de Saúde) e Levino (Antônio, ex-professor da Ufam) e do núcleo inicial só restam hoje no partido o Eron e a Vanessa”, conta.

Postura incisiva

O ex-vereador Edson Ramos, que presidiu o Diretório Universitário, lembra que começou a parceria política com Omar Aziz no movimento estudantil ainda no Ensino Médio na Escola Técnica Federal do Amazonas, hoje Instituto Federal do Amazonas (Ifam).

“Ele era de edificações e eu de química e a gente estava envolvido nos esportes, ele mais do que eu. Em 1979 ele passou para Engenharia, sempre muito inteligente, e eu para Medicina. Ele tinha uma postura muito incisiva, até porque tem essa herança palestina e nós vivíamos aquele período de final da ditadura, e era forte o movimento pela redemocratização do País nas universidades”, lembrou, elogiando a postura do senador no comando da CPI da Covid.

Edson Ramos acrescenta que este grupo de estudantes estava junto defendendo bandeiras como a defesa da Amazônia, contra a carestia, contra o aumento das passagens de ônibus. “Era um grupo de elite que tinha a política na veia e lutava por causas sociais, como a meia passagem de ônibus para estudantes, um benefício que a nossa geração conquistou e serve até hoje”, afirmou.

Organização e luta

Para o subsecretário de Assuntos Administrativos da Secretaria Municipal do Trabalho, Empreendedorismo e Inovação, George Tasso, muitas foram as conquistas da luta estudantil da época, com destaque para a meia passagem de ônibus, conquistada com passeatas, atos públicos e protestos que eram comuns em Manaus e garantiam a força e o prestígio das entidades estudantis.

Tasso destaca ainda a organização dos estudantes em entidades, mas também em tendências políticas, culturais e até religiosas. “Eram tendências como a Viração, Unidade, Liberdade e Luta, Alicerce, Associação Bíblica Universitária e grupos de teatro, entre os quais o Gruta, que encenavam nas ruas e praças da cidade”, relembra.

Além dos nomes que construíram uma trajetória política a partir da Ufam, Tasso destaca lideranças forjadas no movimento secundarista a partir da reorganização da União dos Estudantes Secundaristas do Amazonas, a UESA.

“O movimento universitário propiciou a reconstrução da UESA no curso das lutas pela meia passagem surgindo diversas lideranças, como Francisco Savio, Lene, Selma Baçal, Mariete, Carril, Vicente Filizola e muitos outros”, relata.

Texto: Gerson Severo Dantas

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