A menos de sete semanas da COP30, Belém ainda é um verdadeiro canteiro de obras. No entanto, apesar de um investimento total que, segundo o governo do Pará, supera R$ 4,5 bilhões, esbarra em um cronograma apertado e nos desafios logísticos, levantando a preocupação de que o legado de infraestrutura prometido possa ficar incompleto.
O evento, com sua agenda de negociações globais, corre o risco de ser uma janela para o mundo, mas com pouca luz entrando para transformar a realidade local.
Qual será o legado da COP30 para a Amazônia?
Especialistas, cientistas, comunidades tradicionais e cidadãos se perguntam: qual legado concreto a Amazônia e Belém realmente terão da conferência?
O encontro, que deve reunir líderes e delegações de todo o mundo, corre o risco de se transformar em uma vitrine internacional sem impacto real na vida da população local.
Uma greve de operários atrasou parte das obras do “Leaders’ Village”, que abrigará chefes de Estado, e a alta dos preços de hospedagem tem gerado dificuldades para delegações de países em desenvolvimento confirmarem presença.
Embora o governo federal destaque avanços — como os 99% de conclusão nas áreas Azul e Verde do Parque da Cidade e mais de 53 mil leitos disponíveis para o período da conferência — obras estratégicas como o aeroporto e o Porto Futuro 2 ainda enfrentam pressão do calendário.
Obras estruturais ainda inacabadas
A construção do Parque da Cidade, espaço principal da conferência, ainda enfrenta desafios na fase final de montagem, com a necessidade de uma logística complexa para a instalação das estruturas para a “Blue Zone” e a “Green Zone”.
O Hangar Centro de Convenções, que será o principal centro de imprensa da COP30 em Belém, também está em obras de readequação, com um ritmo que, para alguns analistas, corre o risco de não garantir a plena funcionalidade até o início do evento.
Riscos e incertezas na preparação
A duplicação do Viário de Belém segue em andamento, mas com o trânsito já congestionado, há o temor de que as obras inacabadas causem grandes transtornos durante a conferência.
A nova Ponte de Outeiro, por exemplo, mesmo em fase final de conclusão, ainda representa uma incerteza logística.
Segundo relatos de sindicatos e notícias recentes, a ocorrência de greves e paralisações de operários na construção civil também contribui para o atraso de algumas obras.
A falta de mão de obra qualificada e a complexidade de projetos em um curto espaço de tempo adicionam camadas de risco à preparação.
Entregas concluídas e a promessa de um legado
Apesar dos desafios, algumas obras essenciais para a COP30 já foram entregues. Conforme o governo do estado, o novo Parque Urbano Igarapé São Joaquim já foi inaugurado e servirá como um dos principais espaços para atividades culturais e eventos paralelos.
Outras melhorias em vias de acesso e iluminação pública em áreas estratégicas também foram finalizadas, mostrando que a preparação avança em algumas frentes.
Apesar dos esforços, a cidade vive o dilema de correr contra o relógio para a COP30.
O teste final não será apenas a entrega das obras, mas a sua funcionalidade e a capacidade de, de fato, deixar um legado que vá além de estruturas apressadas e potencialmente incompletas para a população local após o evento.
O legado precisa ir além da vitrine
O papel do Brasil como liderança climática na COP30 é constantemente questionado. O debate sobre a exploração de petróleo na Foz do Amazonas expõe contradições em relação ao discurso de preservação ambiental.
“O legado será a grande transformação para a nossa Belém”, afirmou o governador Helder Barbalho. Mas especialistas e organizações da sociedade civil alertam que os investimentos não podem se restringir a obras pontuais ou áreas centrais da cidade.
Em bairros periféricos, moradores denunciam remoções ligadas a obras de saneamento, como na bacia do rio Tucunduba, onde indenizações consideradas insuficientes agravam a sensação de exclusão. Para essas comunidades, o chamado “legado da COP30” já começa com perdas.
Cientistas, líderes indígenas e movimentos sociais defendem que o verdadeiro legado seja a valorização da floresta, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais — guardiões históricos da Amazônia e peças-chave para qualquer política climática de longo prazo.