terça-feira, 22 de setembro de 2026

Acordo da COP30 recua nos combustíveis fósseis, cede à Europa e faz reconhecimento inédito

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A COP30 aprovou neste sábado (22/11), a chamada decisão de mutirão —o documento mais importante da conferência. O texto encerra dias de impasse, mas deixa claro que a negociação avançou menos do que o Brasil desejava.

O plano defendido por Lula para reduzir o uso de combustíveis fósseis foi totalmente excluído, após pressão intensa de países árabes. Ao mesmo tempo, a Europa conseguiu suavizar compromissos financeiros sobre adaptação climática.

Apesar dos recuos, o documento agrega um marco histórico: o reconhecimento explícito da contribuição de comunidades afrodescendentes, dos povos indígenas e das questões de gênero na resposta à crise climática.

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Disputa central: combustíveis fósseis ficam fora do acordo

A principal frustração da conferência veio do veto ao “mapa do caminho” para o fim dos combustíveis fósseis. A proposta foi idealizada pela ministra Marina Silva e repetidamente defendida pelo presidente Lula, mas nunca esteve entre os temas formais da COP.

O texto chegou a incluí-la após um pedido da Colômbia, apoiada por diversos países e até por parte da União Europeia. No entanto, a reação dos países árabes —especialmente a Arábia Saudita— foi imediata e dura. Eles avisaram que não aceitariam nenhuma referência a petróleo, carvão ou gás, ameaçando travar outras negociações.

Após horas de madrugada negociada e dois rascunhos tensos, a presidência brasileira cedeu e retirou o tema. O desmatamento também acabou ficando de fora, apesar da COP ocorrer no coração da Amazônia, restando apenas uma menção genérica à proteção dos ecossistemas.

Segundo o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, o fim dos fósseis será organizado como iniciativa paralela do Brasil ao longo de 2026, e não como compromisso assumido pelos países.

Financiamento: Europa vence disputa e metas ficam vagas

O financiamento climático voltou a ser o ponto mais delicado da COP. Países em desenvolvimento cobraram que as nações ricas honrem o Acordo de Paris, que exige maior transferência de recursos —preferencialmente em forma de doações e empréstimos baratos.

O texto final propõe triplicar o financiamento para adaptação até 2035, mas não define valores, nem prazos claros, nem responsabilidade específica de cada país. É exatamente o tipo de redação que a Europa defendia.

Ainda assim, houve um avanço: pela primeira vez, o acordo reconhece que as metas financeiras definidas até hoje nunca foram cumpridas, tema que os países ricos resistiam a admitir.

Outra vitória dos países mais vulneráveis foi a criação de um programa de trabalho de dois anos para discutir o artigo 9.1 do Acordo de Paris, que estabelece a obrigação das nações ricas de financiar países em desenvolvimento.

Comércio climático: China e asiáticos conseguem emplacar debate

Um dos itens menos comentados, mas politicamente relevante, foi o atendimento a pedidos da China e de outros países asiáticos para que as medidas unilaterais de comércio —como a cobrança europeia sobre produtos intensivos em carbono— passem a ser debatidas diretamente na agenda climática.

A Europa, que é quem mais usa esse tipo de ferramenta, resistia à inclusão do tema. Mas o texto final determina que os grupos da ONU abram diálogos formais sobre comércio e clima, analisando desafios e oportunidades.

Reconhecimento histórico: afrodescendentes entram no texto

O documento final traz, pela primeira vez, o reconhecimento da importância das comunidades afrodescendentes na ação climática global. O texto também reforça a centralidade dos territórios indígenas e das questões de gênero, abrindo espaço para políticas mais inclusivas nos próximos ciclos de negociação.

Próximos passos

Com o acordo aprovado, o Brasil segue liderando a agenda climática até a COP de 2026, na Turquia. Até lá, deverá desenvolver iniciativas próprias para fósseis e desmatamento —temas cuja ausência no texto final expôs os limites da diplomacia brasileira diante dos interesses de países produtores e das economias mais ricas.

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