terça-feira, 29 de setembro de 2026
HISTÓRIA

Negros na Amazônia, uma história ainda em construção

Descendentes de escravizados ainda lutam para ter acesso a direitos e ao resgate do passado na região.
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Foram mais de 25 mil negros traficados para a região Norte. (Foto: Divulgação)

A presença e a contribuição dos negros na Amazônia marcou a face de cidades como Belém (PA) e Manaus de uma maneira diferente da registrada nas cidades do litoral brasileiro, onde a escravidão dos negros trazidos da África era bem mais do que simplesmente força de trabalho para canaviais e cafezais.

Enquanto nas regiões das fazendas do litoral, o negro tinha um valor econômico próprio para além da força de trabalho, tanto que o número de escravos servia de garantia de empréstimos feitos pelo Banco do Brasil, na Amazônia essa presença dividiu espaço com a escravidão de indígenas.

Com mais indígenas empregados nas atividades de extrativismo, mais caro se tornava trazer um negro para trabalhar nos arranjos produtivos locais, daí que a maioria dos escravizados até o século XVIII eram trabalhadores da casa, mucamas, sapateiros e pedreiros.

Professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Luis Antônio Souza explica que o processo de exploração da Amazônia foi diferente e anterior ao que ocorreu na Costa brasileira e, por isso, nos primeiros séculos da colonização foi fraca a presença de negros no Norte.

“Desde o início dessa exploração econômica, com as chamadas drogas do sertão, os senhores valeram-se da força de trabalho indígena submetida de maneira violenta e com condições análogas à escravidão, mas não havia escravagismo negro forte por aqui”, afirma.

Já na Costa, a atividade econômica para o acumulo de capital fez com que a força de trabalho escravizada de negros se tornasse a parte mais valiosa da exploração.

“Na fazenda, a terra e o maquinário tinham pouco valor e a mão de obra escrava era o maior valor do negócio, tanto que o Banco do Brasil para fazer empréstimos aos fazendeiros não queria a terra ou o maquinário como garantia. Os escravos é que serviam de garantia”, contou Luiz Antônio.

Portanto, explica o professor, na região Norte não havia uma escala de produção que permitisse que a força de trabalho negra tivesse a mesma dimensão econômica registrada na Costa do Brasil.

“Era mais vantajoso para o senhor da terra explorar a forca de trabalho não negra. A mão de obra escrava era muito cara. Algodão, açúcar e café tinham preços no mercado internacional e volumes de produção que justificavam esse modelo de negócio baseado no negro”, completa o professor.

Coroa proíbe escravidão indígena

Essa situação vai mudar quando em meados do século XVIII a Coroa Portuguesa, que lucrava muito com a compra e venda de escravos negros, proibiu toda forma de escravidão de indígenas e os senhores do Grão-Pará tiveram que passar a usar negros em seus negócios ou desobedecer à Coroa.

Apesar da entrada tardia do negro nos processos produtivos, Luiz Antônio afirma que sempre houve, em menor ou maior escala, a presença deles na região e que após a proibição da escravidão indígena, mais de 25 mil negros foram traficados para a região que se estende do Maranhão até o Amazonas.

“Chama atenção que nessa região, hoje a Fundação Palmares reconhece a existência de mais de 400 quilombos, o que demonstra a capacidade de organização destes negros em fuga”, completou.

Professora do Departamento de História da Ufam, Patrícia Melo afirma que a presença do Negro na Amazônia, em geral, e no Amazonas, em particular, trouxe grandes impactos na vida regional.

“Está marcado na história suas formas de comer, vestir, amar, dançar, cantar, rezar, trabalhar, juntamente com todas aquelas heranças intangíveis que as pessoas levam na pele, nos olhos e na alma”, escreveu a professora em artigo científico.

Patrícia Melo avalia que essa presença foi pouco estudada pelos historiadores, um fenômeno que começou a mudar nos anos 1980 do século passado e que mostra como a “floresta” também era negra.

“No século XIX, Manaus e Belém surpreendiam os viajantes estrangeiros que por ali passavam. A diversidade étnico-racial de suas populações era o tema recorrente nos relatos.”

“Os dados mostram que existia, ao lado de uma grande maioria de índios vivendo nas cidades, dos escravos africanos e dos chamados brancos, uma grande variedade de tipos mestiços que tornava a Amazônia um laboratório extraordinário para estudo dos efeitos das “misturas raciais”, diz a professora.

Segundo Patrícia Melo, o negro que veio para a Amazônia não se contentou com a escravidão e buscou espaços fora dela, seja comprando a alforria, seja na formação de quilombos e mocambos que eram formados ao lado de indígenas.

Livres, estes homens e mulheres viveram na região como professores de música, policiais, capoeiristas, gráficos, lavadeiras, oleiros, carpinteiros, mas tiveram suas histórias meio que esquecidas.

“Apesar do silêncio sobre essas histórias notáveis, elas ainda são persistentes, não há como negar que está sendo revertido pela força inquebrantável de todas essas experiências históricas”, diz Patrícia Melo.

O Negro na contemporaneidade do século XXI

O presidente do Instituto Nacional Afro Origem (Inaô), Christian Rocha, avalia que a presença negra no Amazonas foi de certa forma apagada pela falta de políticas públicas e pela não conscientização dos próprios negros, que desconheciam as suas histórias.

“O Amazonas sofreu bastante com a falta de políticas públicas voltadas para a população negra devido à conscientização da própria população que não se identificava como negro. Infelizmente, o racismo impôs esse comportamento para a população que se achava morena e não como negra. Porém ,a consciência de classe deu um avanço significativo”, afirma Christian Rocha.

O ativista lembra que este quadro tem mudado e a identificação dos quilombolas e das terras do povo negro, por exemplo, fazem parte da demanda de movimentos de negritude, bem como as cotas e outras políticas públicas como segurança alimentar e saúde da população negra.

Christian Rocha destaca que, na atualidade, os negros sentem as dificuldades para acessar direitos privados por muito tempo quando viveram sem o direito de estudar e trabalhar dignamente, fenômenos captados pelo Censo e estatísticas que mostram essa realidade da população negra.

Por fim, o ativista defendeu as políticas de cotas e criticou quem defende uma meritocracia que não inclui os negros.

“Infelizmente, existe uma classe opressora que prega uma falsa meritocracia; que sabe que faz parte de um sistema segregador que deseja ver o negro como aquele que não pode ter acesso a certos lugares e espaços”, concluiu Christian Rocha.

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