sexta-feira, 12 de julho de 2024

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10 autores negros que todo professor precisa conhecer

Em artigo para o Porvir, a educadora Maria da Glória Calado, especialista em relações étnico-raciais na escola, seleciona 10 nomes fundamentais para a educação antirracista.
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Foto: Reprodução Internet

Uma educação antirracista é construída por meio de representatividade, rompimento com o silenciamento sobre o racismo, discriminação racial e preconceito, conhecimento, reflexão e ação.

Por sua vez, a escola é compreendida como um espaço de reprodução, mas, ao mesmo tempo, um lugar privilegiado de enfrentamento ao racismo. 

Esse conceito ganhou ainda mais evidência na realidade educacional brasileira com a Lei 10.639, que incluiu no currículo oficial das redes de ensino a obrigatoriedade da temática história e cultura afro-brasileira. 

Conhecer autoras e autores negros que abordam a educação e, de forma específica, a perspectiva antirracista, é fundamental para se aprofundar nas nuances do racismo à brasileira.

Por meio de escritos e reflexões, esses intelectuais problematizam as raízes e impactos da discriminação racial e, por vezes, apresentam propostas de superação, com vistas à equidade social. Confira, abaixo, alguns nomes e obras para se aprofundar no debate.

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Kabengele Munanga (Foto: Marcos Santos/Agência USP)

Kabengele Munanga

O antropólogo Kabengele Munanga nasceu na República Democrática do Congo, em 1942. Fez doutorado na USP (Universidade de São Paulo) por conta de uma bolsa de estudos.

Em virtude da situação política de seu país, estabeleceu residência no Brasil e passou a pesquisar sobre antropologia da África e da população Afro-brasileira, identidade, democracia racial, branqueamento e negritude no país.

Por muito tempo, esteve vinculado à USP, mas hoje atua como professor visitante sênior da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo da Bahia). Entre os mais de 150 textos escritos, o pesquisador dedicou pesquisas à educação antirracista. 

Organizada por Kabengele Munanga, a obra “Superando o Racismo na Escola”, de 2005, é um dos destaques de sua bibliografia.

O livro reúne vozes de 11 professores e especialistas em educação acerca da ideologia racista, persistência de estereótipos dentro do ambiente escolar e formas de enfrentamento a esse problema.

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Petronilha Beatriz. (Foto: Ramon Moser/UFRGS)

Petronilha Beatriz Gonçalves

Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva ficou conhecida por ter participado do processo de regulamentação da alteração da Lei 9394/96, que culminou na Lei 10.639/03.

Na ocasião, ela foi relatora do Parecer Nº 003/2004, que versou sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. 

Professora emérita da UFScar (Universidade Federal de São Carlos), a pesquisadora já foi conselheira da Fundação Cultural Palmares, do Conselho Nacional de Políticas de Igualdade Racial, e da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação.

Também foi congratulada com o Prêmio Luiza Mahin, da Prefeitura Municipal de São Paulo, em reconhecimento por sua atuação em prol das mulheres negras.

Entre os 13 livros escritos e/ou organizados por Petronilha, um dos destaques é “Entre Brasil e África: construindo conhecimento e militância”, de 2011.

A obra é marcada por um diálogo de saberes entre vivência em movimentos sociais e a produção acadêmica, e contribui para compreender como se formou a identidade militante-pesquisadora da intelectual.

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Nilma Lino Gomes. (Foto: UFMG/Reprodução)

Nilma Lino Gomes

Pedagoga, mestra e doutora em ciências sociais, na área de concentração de Antropologia Social, Nilma Lino Gomes dedica grande parte de sua carreira acadêmica aos estudos e pesquisas sobre educação antirracista, formação de professores para a diversidade étnico-racial, movimentos sociais, relações raciais, diversidade cultural e de gênero.

Além de produções acadêmicas, ela também escreve obras de ficção para o público infanto-juvenil. 

Foi a primeira mulher negra a ocupar o cargo de reitora de uma universidade federal no Brasil. Com várias honrarias e premiações, a professora titular emérita da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) também foi ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, do Ministério das Mulheres, Igualdade Racial, Juventude e Direitos Humanos.

Entre várias obras de destaque, pode-se mencionar os livros “Práticas pedagógicas de trabalho com relações étnico-raciais na escola na perspectiva da lei 10.639/03”, de 2013 (artigo disponível neste link) e “O Movimento Negro Educador”, de 2017.

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Eliane dos Santos. (Foto: Arquivo pessoal (Facebook da autora)

Eliane dos Santos Cavalleiro

Formada em letras, mestra e doutora em educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Eliane Cavalleiro desenvolveu diferentes estudos sobre educação antirracista.

A docente da Faculdade de Educação da UnB (Universidade de Brasília) atuou como coordenadora geral de diversidade e inclusão educacional da Secadi (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade) do Ministério da Educação e também foi consultora Unesco, responsável por uma investigação sobre discriminação, pluralismo e diversidade no ambiente escolar. 

Uma das principais obras da intelectual é “Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo, preconceito e discriminação na educação infantil”, publicada em 2000, reconhecida por abordar o impacto do silenciamento do racismo na escola e, em especial, entre as crianças de até 5 anos e 11 meses, a exemplo das desigualdades na distribuição de carinho de docentes para crianças brancas e pretas.

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Cida Bento. (Foto: Arquivo pessoal (LinkedIn da autora)

Cida Bento

Maria Aparecida Silva Bento (Cida Bento) é psicóloga e possui doutorado em psicologia escolar e do desenvolvimento humano pela USP. Conhecida por suas pesquisas sobre ações afirmativas, identidade étnica, discriminação no trabalho, preconceito e gestão de pessoas, uma das obras mais conhecidas da pesquisadora é “Psicologia social do racismo: estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil”, de 2002.

A obra foi redigida em parceria com Iray Carone e analisou os efeitos psicológicos do branqueamento, da branquitude e do racismo no processo de construção da identidade negra.
Atualmente, Cida é diretora-executiva do CEERT (Centro de Estudo das Relações de Trabalho e Desigualdades).

A organização defende os direitos da população negra e implementa programas de equidade racial e de gênero em instituições públicas e privadas, além de atuar com ações e estudos sobre educação antirracista.

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Dennis de Oliveira. (Foto: Arquivo pessoal)

Dennis de Oliveira

Jornalista e pesquisador sobre comunicação, cultura, processos culturais, integração da América Latina, periferias e mídia e racismo, Dennis de Oliveira possui uma sólida contribuição aos estudos sobre a problemática étnico-racial.

Além disso, esse intelectual, responsável por coordenar CELACC-USP (Centro de Estudos Latino-americanos sobre Cultura e Comunicação da Universidade de São Paulo), também atua em movimentos sociais, a exemplo da Rede Antirracista Quilombação. 

Entre suas obras, destaca-se o livro “Racismo estrutural: uma perspectiva histórico-crítica”, de 2021, que aborda uma leitura crítica da realidade para explicar as bases do racismo na sociedade capitalista, o que traz contribuições valiosas aos educadores. 

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Silvio Almeida. (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

Silvio Almeida

O atual ministro de Direitos Humanos é outro estudioso da temática do racismo estrutural. Doutor em direito, jurista, filósofo, professor universitário e diretor do Instituto Luiz Gama, Silvio Almeida notabilizou-se pela publicação da obra “O que é racismo estrutural?”, de 2018.

Com linguagem didática, os escritos trazem a defesa da tese de que o racismo tem relação com uma criação intelectiva e permeada pela opressão ao povo preto.

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Aimé Césaire. ( Foto: Jean Baptiste Devaux/Wikimedia)

Aimé Césaire

Responsável por cunhar o termo “negritude”, Aimé Césaire (1913-2008) é um autor fundamental para a educação por trazer contribuições e reflexões sobre as relações entre colonialismo e racismo nas Américas.

Formado em Letras na França, o autor nascido na Martinica também se envolveu com o âmbito político e foi responsável por fundar o Partido Progressista da Martinica nos anos 1950. 

Dentre suas obras, divididas entre poemas, ensaios e peças teatrais, “Discurso sobre a Negritude”, de 1987, reúne uma narrativa muito madura sobre o conceito de negritude e suas relações com a identidade e direito à diferença.

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Frantz Fanon. (Foto: Arquivo Frantz Fanon

Frantz Fanon

Frantz Fanon (1925-1961) foi aluno de Césaire e também era martiniquense. Formado em psiquiatra, era pan-africanista e responsável por trazer muitas contribuições às ciências da saúde e ao combate ao racismo em geral. 

O autor, falecido ainda jovem em virtude de uma leucemia, ficou bastante conhecido por conta das obras “Pele Negra, Máscaras Brancas”, publicado em 1952, e “Os condenados da Terra”, de 1961.

Em seus estudos, traçou um perfil psiquiátrico das pessoas colonizadas e abordou com profundidade os efeitos psíquicos do racismo colonial. 

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bell hooks. (Foto: Arquivo bell hooks)

bell hooks

Escritora e feminista, Gloria Jean Watkins (1952-2021) adotou o nome artístico bell hooks em homenagem à bisavó.

Escrito em minúsculas como posicionamento político, o nome enfatizava, como costumava dizer, “a substância de seus livros, não quem eu sou”.

Autora de mais de 30 obras de gêneros diferentes (da crítica cultural, passando pela poesia e pelo universo infantil), bell hooks escreveu sobre educação no contexto racial e patriarcal. 

Teve como grande influência as teorias educacionais de Paulo Freire, reveladas no livro “Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade”.

Nesta coletânea de 14 ensaios, lançada no Brasil em 2013, ela conta como se aproximou do patrono da educação brasileira e relembra sua trajetória como professora. 

Apenas 2 em cada 10 professores citam autores negros em sala de aula

A urgência de debater o racismo em sala de aula atinge 98% dos educadores, mostra pesquisa da Associação Nova Escola.

Divulgado em 2022, o levantamento aponta que 85% dos professores conhecem a Lei 10.639, mas seis em cada dez docentes afirmam que não existe promoção dessas disciplinas em suas escolas. E apenas 20% trabalham com autores negros em suas aulas.

Outro dado expressivo: 7 em cada 10 professores não sabem ou afirmaram não ter nenhum autor negro em suas grades curriculares. 

Foram ouvidos 1.854 docentes para o estudo e a metade afirmou ter presenciado situações de racismo no ambiente escolar nos últimos cinco anos.

Da Agência Porvir

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