Uma das marcas nas eleições até a primeira década deste século foi a presença de movimentos sociais, sindicatos, entidades e instituições públicas no debate político em anos eleitorais. Nas duas últimas eleições, contudo, a agenda dos candidatos dificilmente abriu espaço para estes agrupamentos sociais.
Nos anos 80, ninguém era candidato, se não participasse de debates em sindicatos, como o dos professores (Sinteam) ou dos metalúrgicos (SindMetal), de assembleias na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), seminários no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), na Comissão de Direitos Humanos da igreja Católica ou na Ordem dos Advogados do Brasil, seção do Amazonas (OAB-AM).
Além do debate intenso com os representantes dessas comunidades, quase sempre os candidatos assinavam cartas-compromisso em qe assumiam a defesa dos interesses desses públicos.
Até mesmo nos debates televisivos, a presença dos candidatos se tornou incerta, sendo que a maioria, principalmente de líderes nas pesquisas, opta por não se expor nesse tipo de participação.
Transformações no movimento social
Coordenador do Comitê Amazonas de Combate à Corrupção, o cientista político Carlos Santiago aponta que não é mais hegemônico, no mundo e no Brasil, o embate eleitoral baseado em posições opostas do mundo do trabalho e que esse fenômeno foi impulsionado pelas mudanças nas relações de trabalho.
“Os partidos não têm mais apoio de setores fabris. O crescimento do setor de serviço, a uberização, o avanço da comunicação digital e a exigência eleitoral por parcela significativa do eleitorado, contribuem para o surgimento da escolha política baseada na confiança e na credibilidade, critérios mais importantes do que as antigas ideologias opostas“, analisou.
Mudanças no mundo do trabalho também são citadas pelo professor da Universidade Federal do Amazonas Luiz Antônio Souza, que falando sobre a instituição a qual pertence, lembrou que nos últimos 15 anos houve uma reformulação “espetacular” dos quadros.
“Imagino que isso ocorreu em outros lugares da máquina pública, mas na Ufam houve uma renovação de mais de 40% dos quadros nos últimos 15 anos. E essas pessoas têm uma outra lógica, uma lógica mais corporativista, individual, diferente da minha geração“, analisou Luíz Antonio.
O professor acrescenta que há um “caldo de cultura” muito mais poderoso nesse processo de ausência dos movimentos no debate público e que se expressa pelo que ele chamou de “despolitização da política”.
“Houve uma espécie de criminalização da política por parte, por exemplo do Ministério Público. Lembro que fizemos um grande ato político em 2019 e recebemos o Haddad (Fernando, candidato derrotado à Presidência em 2018). Lotamos o hall de uma unidade acadêmica e no meio do ato chegou uma viatura com agentes para saber o que estávamos fazendo, saber se era um ato político ou outra coisa“, relatou.
Essa criminalização é promovida, na avaliação do professor, por “máquinas públicas jurídico-formais”, como Ministérios Públicos e Tribunais de Contas. Combinado isso com a nova mentalidade dos quadros que chegaram, Luiz Antônio vê o esvaziamento do debate público onde mais ele deveria acontecer.
“Em 2019 eu realizei um evento para discutir a questão da Venezuela e novamente chegou um policial federal, querendo saber o que estava acontecendo na academia. Mandei ele para aquele lugar, mas talvez um colega mais novo tivesse parado o evento. Essa postura assertiva, hoje está em desuso“, conclui.
Escândalos e seus efeitos no eleitorado
Carlos Santiago avança um pouco nessa linha, mas por outro caminho, ao lembrar que “escândalos políticos” são enormes forças eleitorais e o discurso classista de sindicatos, corporações e sociedade civil, assim como as suas medições junto ao eleitorado, não são mais determinantes nas eleições e nem na comunicação de campanha.
“Isso torna raríssimo a presença de um candidato numa assembleia de sindicatos ou em instituições como UFAM, INPA, UEA, associações comerciais e federações de indústria. Geralmente, ele indica apenas um assessor para participar desse tipo de evento“, afirma Santiago.
O candidato, segue o cientista político, prefere ficar nas arena digital e nas mídias tradicionais, vendendo ideias e bom comportamento ético e social.
Alternativa: educação política nos movimentos
Carlos Santiago afirma que nesse cenário, onde o debate político está fora do embate classista, o Comitê Amazonas de Combate à Corrupção pretende promover cursos sobre o eleitor consciente; propor soluções para resolver os problemas da cidade e fiscalizar todo processo eleitoral para que não aconteça abuso de poder econômico, abuso de Poder político e abuso de comunicação. “Iremos buscar sempre eleições limpas”, conclui Santiago.
O comitê, que já atua há três eleições, é formado por representantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Ordem dos Advogados do Brasil no Amazonas (OAB-AM), Sindicato dos Jornalistas, Conselhos Regionais de Contabilidade, Economia e de Administração, além do Sindicato dos Fazendários do Amazonas.
Força do sindicato é desconhecida
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Manaus (SindMetal) e da Central Única dos Trabalhadores, Valdemir Santana, avaliou que o trabalhador precisa ter consciência do que faz o movimento social para que este ganhe relevância e influa no debate público, como no passado.
“O nosso trabalhador sequer conhece os direitos que ele tem, que o sindicato negociou com o patrão e ai não participa, não influi no movimento social”, disse Valdemir em recente encontro de representantes de partidos de esquerda em Manaus..
O sindicalista defende que é preciso uma grande campanha de conscientização dos trabalhadores e trabalhadoras para esclarecer como o mundo do trabalho mudou e a presença deles nas entidades é fundamental para garantir direitos e influência nos candidatos.
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