A COP30 entrou pela madrugada e adiou para este sábado (22/11) a plenária que deveria ter fechado as negociações dos acordos sobre combustíveis fósseis na sexta-feira.
O motivo é simples e ao mesmo tempo grave: o rascunho apresentado pela presidência brasileira eliminou qualquer referência à redução gradual de petróleo, gás e carvão, ponto central para mais de 80 países.
A mudança detonou uma crise diplomática que expôs a fragilidade das conversas e empurrou a conferência para um cenário de risco político.
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A retirada do trecho sobre combustíveis fósseis desmontou o que seria a Decisão Mutirão, documento que orientaria a declaração final.
Ele tratava de quatro temas sensíveis: financiamento climático para países em desenvolvimento, metas mais rígidas para limitar o aquecimento global, restrições comerciais por razões ambientais e regras de transparência sobre emissões.
Ao suprimir o ponto mais simbólico da transição energética, o Brasil abriu uma disputa que ameaça todo o acordo
Pressões, acusações e falta de dinheiro alimentam o risco de vexame
O texto, moldado sob pressão de países produtores e aliados — incluindo Arábia Saudita, Rússia e parte da Opep+ — desagradou profundamente a União Europeia, que classificou o rascunho como “insuficiente” e cogitou não apoiá-lo.
Como decisões da COP exigem consenso, uma negativa trava tudo. O impasse se tornou tão grande que delegações falaram abertamente em retrocesso.
A reação científica foi imediata. Pesquisadores alertaram que o documento afasta a COP30 da realidade do clima e compromete qualquer chance de manter vivo o limite de 1,5°C. Ambientalistas foram ainda mais duros ao chamar o rascunho de “traição” ao Acordo de Paris.
A crise não se limita à transição energética. A proposta brasileira de triplicar até 2030 o financiamento para adaptação climática deixou no ar uma pergunta básica: de onde virá o dinheiro?
Países africanos, alguns com reservas expressivas de petróleo e gás, afirmam sofrer “pressão indevida” para aceitar o fim dos fósseis sem garantias financeiras claras. Já as nações desenvolvidas cobram metas mensuráveis e rejeitam um documento que, segundo diplomatas europeus, “não orienta nada”.
A cobrança por metas mais duras vem também da comunidade acadêmica. Cientistas apresentaram ao presidente Lula cálculos mostrando que as emissões de combustíveis fósseis precisam cair 5% ao ano a partir de 2026 para manter a meta global de temperatura.
Sem um compromisso explícito, alertam, a conferência corre o risco de terminar irrelevante.
O Brasil tenta encontrar uma fórmula intermediária, mas admite a grande dificuldade. O negociador André Corrêa do Lago reconheceu que não há acordo possível enquanto o tema dos fósseis dividir o plenário.
Lula pressiona por um “mapa do caminho” que dê direção à transição energética, mesmo que o termo não estivesse previsto originalmente na agenda.
Com o atraso, Belém amanhece neste sábado como palco de um possível vexame internacional: se não houver consenso, a COP30 pode terminar sem uma decisão estruturante — algo politicamente constrangedor para o país que se apresentou ao mundo como líder de uma agenda climática mais ambiciosa.
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