O rascunho divulgado nesta sexta-feira (21/11) pela COP30 abriu uma onda de críticas entre cientistas, organizações ambientais e governos que defendiam mais ambição na agenda climática.
A frustração se concentra em um ponto central: a ausência de qualquer compromisso claro para reduzir o uso de combustíveis fósseis, tema considerado decisivo para limitar o aquecimento global.
Desde o início das negociações, países e entidades pressionavam pela inclusão de um mapa do caminho que orientasse a transição global para longe de carvão, petróleo e gás.
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Mesmo assim, a proposta ficou de fora, alimentando a percepção de que os principais emissores barraram o avanço do debate.
Na noite anterior, mais de 30 países já tinham avisado que não apoiariam um texto final sem essa diretriz, entre eles França, Reino Unido, Alemanha e Colômbia.
ONGs e especialistas apontam fragilidades e retrocessos
O Observatório do Clima classificou o chamado “Pacote de Belém” como desequilibrado e repleto de “furos inaceitáveis”.
Para a rede, embora haja avanços pontuais no financiamento para adaptação e no mecanismo de transição justa, o texto ignora as causas estruturais da crise climática e coloca a COP30 em risco de fracasso.
A crítica também veio do Greenpeace. Segundo Carolina Pasquali, diretora-executiva da organização no Brasil, as metas de emissão para 2035 são insuficientes e o texto do “Mutirão” pouco contribui para reduzir a lacuna rumo ao limite de 1,5°C.
Ela defende que os países rejeitem o rascunho e o devolvam para revisão, especialmente por não garantir financiamentos robustos e mecanismos claros de apoio aos países vulneráveis.
Governos do Sul Global também demonstraram frustração. A ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, lamentou que o documento não trate da eliminação progressiva dos combustíveis fósseis nem de transparência no financiamento climático — dois temas que, segundo ela, são essenciais para garantir justiça climática.
A Iniciativa do Tratado sobre Combustíveis Fósseis reforçou que o rascunho não responde à gravidade da crise. Para o presidente do movimento, Kumi Naidoo, a falta de um plano concreto para interromper a produção de carvão, petróleo e gás aumenta ainda mais a urgência de um tratado global.
No Instituto Talanoa, a avaliação também é crítica. Especialistas afirmam que houve perda de ambição e clareza no texto, que abandonou qualquer menção direta ao fim dos combustíveis fósseis.
A presidente da instituição, Natalie Unterstell, chamou o rascunho de “fraco e vago” e comparou a estratégia do Mutirão a uma “sala de espera” para temas essenciais, como transição e financiamento.
A comunidade científica foi ainda mais dura. O Pavilhão de Ciência Planetária, que reúne nomes como Carlos Nobre, Thelma Krug e Johan Rockström, classificou o documento como uma “traição à ciência e às pessoas mais vulneráveis”.
Para o grupo, é impossível conter o aquecimento sem eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e parar o desmatamento. Nobre reforçou que espera que esta versão seja apenas preliminar, afirmando que deixar o tema de fora “é inaceitável”.
A COP30 segue pressionada por expectativas e pelo relógio. Sem um texto mais firme sobre combustíveis fósseis, cresce o temor de que a conferência termine com um acordo incapaz de responder à urgência climática — e, nas palavras de especialistas, entregue ao mundo apenas mais uma promessa adiada.
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