segunda-feira, 28 de setembro de 2026

FHC e Lula: o 'príncipe' e o 'sapo' juntos mais uma vez em defesa da democracia

Em entrevista exclusiva ao RT1, o jornalista Paulo Markun, que em 2004 publicou o livro "O Sapo e o Príncipe", disse que a biografia de ambos fazia prever esse reencontro.
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O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) gravou um vídeo esta semana no qual pede voto para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa o segundo turno das eleições presidenciais com o presidente Jair Bolsonaro (PL).

O tucano já havia declarado apoio a Lula na corrida eleitoral em publicação nas redes sociais no último dia 5. “Neste segundo turno voto por uma história de luta pela democracia e inclusão social. Voto em Luiz Inácio Lula da Silva”, escreveu naquele momento no Twitter.

Dois dias depois, os dois ex-presidentes se reuniram na casa do tucano e posaram para foto. “Um reencontro democrático com @presidentefhc”, escreveu Lula na legenda da foto compartilhada em seu perfil no Instagram.

Mas ao contrário de muitos que ficaram surpresos com a reaproximação de Lula e FHC, o jornalista Paulo Markun – que em 2004 publicou o livro “O Sapo e o Príncipe“, uma biografia cruzada de Fernando Henrique e Lula – acompanha a reaproximação entre os dois políticos sem grande surpresa e diz que a biografia de ambos fazia prever o reencontro diante de circunstâncias como o segundo turno da eleição atual.

“FHC não subiu no muro. Já Serra construiu um muro de voto secreto em torno dele”, dispara.

Em entrevista exclusiva ao RealTime1, Markun lembra que ao longo desses quase 20 anos, houve alguns afastamentos, vários momentos em que os dois estiveram distantes, mas se há algo que os aproxima, segundo ele, é a valorização da democracia. “São duas lideranças que nasceram na luta contra a ditadura e por mais que tenham protagonizado embates enormes, jamais ficariam em lados opostos diante da ameaça que a reeleição de Jair Bolsonaro carrega para o Brasil”, analisa.

Primeira união de Lula e FHC foi contra ditadura

Em 1978, Lula tinha sido reeleito para a presidência dos metalúrgicos de São Bernardo. Ao visitar São Bernardo pela primeira vez, FHC ficou impressionado com o poderio material do sindicato.

Na época, Lula explicou que iria apoiá-lo porque o sociólogo não se arrogava em defensor dos trabalhadores e ofereceu a ajuda possível – o voto do advogado do sindicato, Almir Pazzianotto, que também era deputado pelo MDB e nessa condição participava da convenção do partido.

Lula em seguida propôs alguns pontos para o programa – como o direito de greve, a liberdade de organização sindical e a definição de que os salários não causavam inflação e combinou que Maurício Soares, o outro advogado do sindicato, seria o suplente de FHC. Como resultado desse acordo, Fernando Henrique encaminhou à direção do MDB uma proposta de emenda constitucional restabelecendo o direito de greve.  

FHC ficou em segundo lugar na eleição, superando o candidato do partido do governo, a Arena, que era Cláudio Lembo. Ficou como suplente de Franco Montoro e quando este foi eleito governador, assumiu o mandato.

Dezembro de 2002

Markun lembra uma cena ocorrida em dezembro de 2002, quando Lula já vencera a eleição em disputa com FHC, mas ainda não tomara posse.

“Foi no dia 16 de dezembro, na entrega do prêmio O Brasileiro do Ano, da revista Istoé. Eu era o mestre de cerimônias. Lula e Fernando Henrique trocaram calorosos elogios e ergueram os braços de mãos dadas. Aécio Neves, que tinha deixado a presidência da Câmara para assumir o governo de Minas, deu as mãos a José Dirceu, enquanto Marta Suplicy e Geraldo Alckmin faziam o mesmo.

Diante do empresário Abraham Kasinsky, escolhido o empreendedor do ano, Lula brincou e disse: “Quando vocês assistirem na tevê ao nosso amigo Kasinsky andando com aquelas vespas que ele está produzindo, deve ser montagem de algum marqueteiro. Ele parece um menino aos 85 anos. Espero que Deus me conceda a graça de chegar aos 85 com essa saúde”.

Ele também disse que outros brasileiros poderiam estar sendo homenageados no lugar dele: “Eu sobrevivi fazendo apenas o necessário: sobreviver. Depois, me tornei adulto fazendo o que era possível e hoje, ao receber esse prêmio acho que consegui fazer o impossível, coisa que espero realizar em quatro anos de mandato”. 

Terminou reconhecendo a importância da relação civilizada que tinha com FHC: “Como bom corintiano e bom santista que somos, a gente torce e vai por caminhos diferentes. Mas o dado concreto é que esse processo de transição que estamos fazendo no Brasil será um novo marco na política nacional.”

Fernando Henrique também minimizou os conflitos entre eles: “Quero dizer que nós tivemos mais divergências no passado do que hoje. Tenho visto tantas convergências nas últimas semanas. Estou muito feliz. Não digo isso com ironia, mas com alegria.” Profético.”

Ideia do livro

Um dos mitos que Paulo Markun derruba em seu livro é o de que Fernando Henrique chamava Lula de sapo – o apelido de sapo barbudo, em verdade, foi aplicado por Leonel Brizola numa disputa eleitoral, mas Lula volta e meia classificou FHC de “príncipe” num sentido pejorativo.

“Teve mais: Lula e o PT definiram o cenário que receberam do PSDB em 2002 como ‘herança maldita’, mas nunca houve transição tão civilizada quanto aquela – foi a cena da passagem da faixa que me levou a pensar no livro”, entrega o jornalista.

A história que contei tinha dois personagens adicionais, que ainda estão no jogo, embora sem maior destaque: o economista tucano Pedro Malan e o dirigente petista José Dirceu, novamente alinhados em torno da candidatura de Lula, apesar de tudo”.

Para Markun, o apoio de FHC, bem como o de Malan e de outros criadores do Plano Real pode não significar uma quantidade expressiva de votos, mas tem indiscutível caráter simbólico e por isso, é muito relevante.

Trajetórias distintas

Markun, destaca que os dois tiveram trajetórias muito diferentes.

FHC é o primogênito de uma família carioca de classe média e sua vasta árvore genealógica inclui mais de dez generais, dois ministros da Guerra, um presidente do Banco Central, um senador e um prefeito do Distrito Federal, lembra Markun.

Lula é o penúltimo dos oito filhos de um casal de agricultores nordestinos e nem tem um registro preciso de seus antepassados, como muitos brasileiros.

Cardoso brincou nas praias e morros de Copacabana até os nove anos e Lula tinha cinco quando deixou Garanhuns, no interior de Pernambuco na carroceria de um pau-de-arara. 

Todo mundo sabe disso, mas nem todos os brasileiros têm noção de que em 1978, Lula fez campanha para FHC e chegou a panfletar ao lado dele na porta das fábricas do ABC, quando o sociólogo saiu candidato ao Senado.

Eleições de 2022 fogem da normalidade

Observador arguto de períodos eleitorais, muitos dos quais atuou na cobertura jornalística, o autor de “O Sapo e o Príncipe” observa que, desde a redemocratização e do momento em que a reeleição tornou-se regra, nenhum presidente ficou em segundo lugar no primeiro turno, a exemplo de Jair Bolsonaro.

“Mas, uma eleição em que o segundo colocado tem 43% dos votos e a máquina do governo a seu favor, não está resolvida. A eleição deste ano não é normal e comporta alianças e parcerias dificilmente imagináveis num cenário menos dramático”, diz. 

Da Redação

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