Está cada vez mais claro que não basta convocar a população de uma região para o combate a uma epidemia do tipo dengue, como está sendo feito – mais uma vez – agora, sem responsabilizar diretamente protagonistas que costumam ficar à sombra dos acontecimentos, apenas orquestrando a convocatória, como as governanças municipais, estaduais e federais e seus instrumentos de comando.
Nos dois primeiros meses deste ano, o Brasil registrou mais de 1 milhão de casos, de acordo com levantamento do Instituto Trata Brasil. Esse total é mais da metade dos registros oficiais feitos ao longo de 2023 e acima dos números obtidos em 17 anos da série histórica, como 2021, 2020, 2018 e 2017. O Amazonas, com o coeficiente 202,1 de incidências de dengue e 7.966 casos prováveis consta no 14º lugar de uma lista em que Brasília, capital federal, reina soberana.
Essa sequência, praticamente ininterrupta, por mais de 20 anos, de ocorrência da dengue não foi capaz de transformar em atitude os discurso da necessidade de investimento em saneamento básico, a maneira eficaz de combater um mosquito originário do Egito, na África, que vem se naturalizando ao menos desde o século pelas regiões tropicais e subtropicais do planeta, ao menos desde o século 16, de carona nas grandes navegações descobridoras de novos mundos. Acredita-se que, no Brasil, a dengue teria desembarcado dos navio negreiros, no século 18, pois os ovos do mosquitos podem resistir até um ano sem contato com água.
Há registros de prováveis epidemias de dengue no início do século 20 – em 1916, em São Paulo, e em 1923, em Niterói, mas ocorreu em Boa Vista (Roraima) a primeira epidemia clínica e laboratorialmente registrada, em 1982. De acordo com estudo apresentado pelos geógrafos Lucimar Silva dos Santos e Reinaldo Corrêa Costa, no VII Congresso de Geógrafos Brasileiros 2014, em Vitória (ES), desde novembro de 1996, detectou-se a presença do transmissor da febre amarela urbana e dengue, o mosquito Aedes aegypti, no município de Manaus.
A partir daí, o vetor foi se disseminando progressivamente por toda a cidade.
No Amazonas os casos de dengue só começaram a ser notificados a partir de 1998, atingindo em 2000 um total de aproximadamente 26 mil casos notificados. Nesses quatro anos ocorreram duas epidemias, restrita à capital, Manaus.
Presença histórica da dengue
Desde o primeiro trimestre de 1998, o número de pacientes que apresentavam sintomas de doenças, principalmente do dengue clássico, foi aumentando progressivamente. Diante dessa situação, realizou-se uma investigação epidemiológica mais severa e coletaram-se amostras de soros dos suspeitos clínicos. Em janeiro de 1998, o Laboratório de Arbovirologia da Fundação Medicina Tropical do Amazonas, envolvendo pacientes procedentes de Manaus e de outras capitais, diagnosticou 10 casos positivos.
Apesar do esforço de pesquisadores, médicos, sanitaristas e cientistas em conceituar, diagnosticar e historiar as ocorrências das doenças, as cidades brasileiras, entre elas Manaus, continuam sendo “surpreendidas” pela reprise das epidemias. Dá-se como preconceito de políticos e seus inúmeros partidos contra o saneamento, que exigiria obras “invisíveis”, isto é, que não estão permanentemente à vista do eleitor, como viadutos, mirantes, recapeamento de ruas, nada como construção de coletas de esgotos, por exemplo.
O estado Amazonas é responsável pela Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama), presente em apenas 14 dos 62 municípios amazonenses. Manaus, teve os serviços de saneamento básico concedidos à empresa privada, Águas de Manaus.
Existem duas Agências Infranacionais para a regulação do saneamento: Agência Reguladora dos Serviços Públicos Delegados do Município de Manaus (Ageman) – Municipal; e Agência Reguladora dos Serviços Públicos Delegados e Contratados do Estado do Amazonas (Arsepam-AM).
Principais dados de saneamento
De acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), com base nos dados de 2020, dos 4,2 milhões de moradores do estado, 82,3% tinham acesso ao sistema de rede de água, 13,8% habitavam em residências com sistema de rede de coleta de esgoto. 18,6% do volume de esgoto gerado no estado era tratado. As perdas de água nos sistemas de distribuição estavam em 59,3%.
A secretária de Vigilância em Saúde Ethel Maciel, disse, em fevereiro ao O GLOBO que a alta de casos de dengue em todo o país é atípica. “Em geral, há um crescimento de casos no final de março e começo de abril, mas em 2024 começamos a ver o crescimento de casos já em janeiro.
Segundo Maciel, “a estimativa do Ministério da Saúde é que a gente chegue a 4,2 milhões de casos. Nós nunca chegamos a esse número. Por isso, a preocupação e também pela pressão que isso pode acontecer no serviço de saúde. Caso chegue ao número, 2024 terá 149% mais casos do que o pior ano registrado até agora, 2015, quando foram 1.688.688”. Com relação à vacina contra a dengue, a produção e a distribuição dela “tão cedo” não atingirão uma imunização coletiva.
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