quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Enquanto se discute o nome da castanha, desafios reais permanecem esquecidos

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extrativista quer condições para ganhar com a castanha
extrativista quer condições para ganhar com a castanha, diz especialista (Foto: reprodução)

A discussão sobre o nome correto da castanha – “da Amazônia”, “do Pará” ou “do Brasil” – ganhou força nas redes sociais, mas rapidamente expôs uma questão mais profunda: a falta de foco no que realmente importa no debate público.

O tema, que poderia ser apenas uma curiosidade cultural, tornou-se um símbolo de como pautas irrelevantes podem desviar a atenção de questões prioritárias.

Para o cientista político Carlos Santiago, a participação de políticos nesse tipo de discussão evidencia uma desconexão com as necessidades reais da sociedade. Ele critica a falta de foco em temas relevantes, afirmando que muitos se deixam influenciar por debates de celebridades, o que desvia a atenção das suas responsabilidades fundamentais.

“Eles [políticos] acabam buscando aparecer da forma mais inusitada possível, ou propondo leis ridículas, fazendo comentários tolos ou então se envolvendo em polêmicas inúteis. Quem perde é a sociedade”, diz Santiago.

Já para Sérgio Gonçalves, professor de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a questão do nome da castanha é irrelevante para as comunidades que vivem da extração do fruto.

“Do ponto de vista prático, dentro da floresta, essa polemica não é importante para quem trabalha com a castanha. Os órgãos do sistema de Extensão Rural (Ater) usam castanha do Brasil, que é oficializado em lei federal, mas o desafio (das autoridades) é proporcionar condições para que essas pessoas manejem seus castanhais, com boas práticas, com crédito, fortalecimento organizacional, das associações, pois é o que interessa. O nome é um pano de fundo”, explicou o professor.

A castanheira é uma árvores nativa da floresta Amazônica presente em quase todos os Estados da Região Norte, mas com grande produção extrativista no Amazonas, o maior produtor do País, e no Acre, Estado em que o município de Sena Madureira briga para ser considerado Capital Nacional da Castanha do Brasil, proposta que está no projeto de lei 8.364-A, DE 2017, que tramita na Câmara Federal.

Conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Amazonas produziu em 2023 um total de 11.291 toneladas de castanha, seguido pelo Acre, com 9.473 toneladas, e o Pará (9.390t). Os números da produção em 2024 ainda não foram fechados.

Conforme o historiador da Ufam David Leal, desde o século XIX que a castanha passou a ser chamada de castanha do Pará. Isso se deve ao fato de a produção, vinda do interior da Amazônia, seguir para Belém para ser escoada pelo porto para o resto do País e a Europa.

“Mas já no século XX, desde a década de 1930, a Associação Comercial do Amazonas defendeu a utilização dos nomes ‘castanha do Brasil’ ou ‘castanha da Amazônia”, destacou o professor.

As castanhas no Brasil e no mundo

As castanhas têm desempenhado um papel significativo na alimentação humana ao longo da história, com diferentes espécies originárias de diversas regiões do mundo.

Origem das Castanhas no Mundo:
• Castanha Europeia (Castanea sativa): Originária da região mediterrânea, a castanha europeia foi amplamente cultivada pelos romanos a partir do século V a.C., espalhando-se por toda a Europa Ocidental. Estudos arqueológicos indicam que seu consumo como alimento remonta a cerca de 6.000 anos.
• Castanha-do-Brasil (Bertholletia excelsa): Nativa da Amazônia, a castanheira é uma árvore de grande importância ecológica e econômica. Relatos históricos, como o de Frei Cristóvão de Lisboa no século XVII, já mencionavam o consumo de suas sementes.

Origem do Consumo:
• Civilizações Antigas: O consumo de castanhas, especialmente na forma de fruto ou farinha, teve início nas civilizações grega e romana, permanecendo até os dias atuais. As castanhas eram utilizadas como base alimentar, especialmente em regiões montanhosas, onde substituíam cereais como cevada, trigo e centeio.
• Portugal: Em Portugal, a castanha foi um alimento básico para as populações das regiões norte e centro, especialmente durante o século XVII. Com o tempo, seu consumo diminuiu, mas a partir da década de 1970, houve um esforço governamental para revitalizar a produção e o consumo da castanha, que voltou às mesas portuguesas em diversas formas, como cozidas, assadas e em preparações culinárias variadas.
• Amazônia Brasileira: Na Amazônia, a castanha-do-brasil sempre foi uma importante fonte de alimento e renda para as comunidades locais. A exploração comercial intensificou-se nas décadas de 1920 e 1930, especialmente após o declínio da borracha, tornando-se um dos principais produtos da região.

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