quinta-feira, 1 de outubro de 2026

COP30: ‘O protagonismo das universidades tardou, mas chegou’, afirma Marilene Corrêa

COMPARTILHE
Professora Marilene Corrêa da Silva Freitas fala em mesa-redonda sobre a Amazônia e a COP30, em evento realizado em Manaus
A professora da Ufam, Marilene Corrêa, tem participado ativamente de debates e atividades pré-COP30, contribuindo para a elaboração de propostas amazônicas apresentadas à presidência da conferência

A professora Marilene Corrêa da Silva Freitas, uma das mais proeminentes cientistas sociais da Amazônia, tem participado ativamente das atividades preparatórias à COP30 — conferência do clima da ONU que será realizada em novembro, em Belém (PA).

Sua atuação inclui debates, palestras, mesas-redondas, workshops e a elaboração do documento entregue à presidência da COP30, representando 70 instituições de pesquisa, universidades e lideranças sociais e étnicas da região.

Professora titular do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), doutora pela Unicamp e pós-doutora em Sociologia pelas universidades Sorbonne, Gustave Eiffel e Caen, na França, Marilene Corrêa é referência nacional nos estudos sobre desenvolvimento, epistemologia amazônica e políticas públicas.

Ela concedeu entrevista ao RealTime1, analisando o papel da Amazônia nas negociações internacionais e os riscos de exclusão social e política na governança climática global.

RealTime1 – A Amazônia é frequentemente tratada como objeto das políticas globais. A senhora acredita que a COP30 pode realmente inverter essa lógica e fazer da região um sujeito do debate?

Marilene Corrêa – A inversão já está acontecendo através de distintos instrumentos, reuniões, documentos, debates, interações entre distintos sujeitos, grupos humanos, etnias, grupos urbanos e populações da floresta. Ela se deu também através do documento que foi apresentado ao presidente da COP, André Corrêa do Lago, no dia 5 de agosto, aqui em Manaus, onde 70 instituições universitárias, centros de pesquisa e organismos de desenvolvimento, junto com lideranças da sociedade civil, lideranças étnicas, ambientais e de governança dos lugares mais isolados da Amazônia, apresentaram um documento em que os seis grandes eixos que serão debatidos na COP foram discutidos com soluções inovadoras. Essas propostas trazem convergências entre conhecimento científico e conhecimento tradicional, assumindo um ponto de vista epistêmico da diversidade de abordagens cosmológicas. Incluímos os saberes, as formas de adaptabilidade e as soluções milenares que os povos originários já trouxeram para a Amazônia e criaram esse ambiente natural e histórico que é a Amazônia de hoje. Então, essa inversão eu creio que já aconteceu — e ela vai se tornar mais visível ainda na realização da COP.

RT1 – Quais são os principais riscos de a COP30 se transformar em um evento de discursos, sem impacto concreto para a Amazônia?

MC – Esses riscos são os de ausência da participação ou da expressão dos mais necessitados; ou a ausência de cumprimento de acordos por parte dos países ricos, aqueles que mais poluem. Os riscos de crise de hospedagem ou de infraestrutura local da cidade de Belém não se comparam à questão maior, que é a exclusão dos participantes, como a ausência de países pobres. Ricos e pobres têm que participar — eles também fazem parte da ambição planetária de traçar novas metas e formas de sobrevivência no planeta, metas de controle da emissão de poluentes, projetos de sustentabilidade com justiça econômica e social.
Há riscos de ausência de legitimidade nas negociações entre grupos com poderes desiguais de causar impactos sobre as urgências climáticas. Esses riscos vão acontecer, mas por outro lado há possibilidades de participação ampliadas, porque hoje os meios de comunicação permitem que, mesmo na ausência física, as pessoas se manifestem.
Também há riscos relacionados à justiça climática e ao financiamento da crise, que pode gerar discordância sobre quem deve pagar mais, ou quem é mais impactado. O não cumprimento dos acordos de redução de emissões prejudicará enormemente grupos vulneráveis.
Sobre as decisões entre políticas de mitigação e de adaptabilidade, que envolvem escolhas políticas e econômicas, quanto maior o acesso da população ao debate, maior será a clareza nas propostas de soluções. Todos os grupos humanos enfrentarão mudanças, e os riscos de como enfrentá-las ou controlá-las pertencem a todos.

RT1 -A senhora defende o protagonismo das universidades amazônicas nesse processo. Que papel elas vêm cumprindo?

MC – O protagonismo das universidades tardou, mas chegou. Elas produziram uma síntese importante das correntes de opinião dentro e fora das interlocuções científicas. Apresentaram produtos da formação de mais de 100 mil jovens universitários, mostraram as redes científicas de mais de 70 instituições de pesquisa, sugeriram agendas, estratégias e soluções para o conhecimento, a proteção dos biomas e ecossistemas e práticas de intervenção justas e sustentáveis.
Mais ainda: identificaram pontos de convergência e sensibilidade entre o conhecimento científico e o tradicional — aquele conhecimento que preservou a Amazônia por milênios.

RT1 – Como a senhora relaciona justiça climática e desigualdade social na Amazônia?

MC – A relação entre justiça climática e desigualdade é a própria ilustração de uma relação crítica que recai sobre a reprodução da vulnerabilidade, do aumento da exclusão e da precariedade econômica. Sobre essa relação, há soluções de impacto voltadas à redução da pobreza, medidas de compensação econômica e eliminação da precariedade — todas ligadas à minimização dos impactos das crises climáticas e à ruptura do círculo perverso em que os mais pobres pagam por tudo.

RT1 – O mercado de créditos de carbono é frequentemente apresentado como alternativa econômica sustentável. A senhora acredita nesse modelo?

MC – Não, não acredito. Esses modelos, ainda que experimentais, já se aplicam com os mesmos contornos de desigualdade e exclusão social para favorecer o mercado. Por outro lado, aumentam a desconfiança sobre as instituições de gestão da terra e de propriedades anteriormente legitimadas, provocando mais redes de injustiça e usurpação.

RT1 – Nos debates locais, o que mais lhe chamou atenção nas proposições da sociedade civil amazônica?

MC – O que mais me chamou atenção foi a resiliência de suas organizações populares, o profundo conhecimento da relação homem-natureza e a clareza com que enxergam as formas destrutivas das relações sociais que invadem a floresta e os ambientes naturais da Amazônia. Extrativistas, indígenas, quilombolas, populações ribeirinhas e grupos urbanos são simultaneamente agentes socioambientais e economistas das florestas e cidades amazônicas.
Essas representações da sociedade civil se constituem como protagonismo político — exigem ser ouvidas, reconhecidas e legitimadas por suas vozes e práticas sociais. Impressiona a firmeza com que reivindicam a valorização das práticas e tecnologias dos povos da floresta como estratégicas para a preservação ambiental.
O reconhecimento do direito ao financiamento regular da sobrevivência tradicional é um avanço. Igual avanço é reconhecer que esses sujeitos sociais são também sujeitos econômicos e produtivos da mesma importância que as empresas, porque mantêm práticas de proteção ambiental e modos de vida sustentáveis. São, portanto, sujeitos ecológicos, econômicos e políticos para além dos contornos das economias capitalistas predatórias.

RT1 – Que legado a COP30 pode deixar para o Norte do Brasil e para os povos amazônicos?

MC – A COP deixa como legado imediato o registro das vozes e dos anseios de reconhecimento político e econômico. Deixa as estratégias das populações amazônicas inscritas como possibilidades de enfrentamento à crise climática com nosso conhecimento profundo de adaptabilidade social aos biomas e ecossistemas do trópico úmido. Também deixa uma agenda de soluções, pautas de negociações e dinâmicas de enfrentamento da crise planetária com economia inclusiva de povos e culturas. Deixa um patamar superior de compreensão política sobre a valorização da interação das populações amazônicas com os ambientes naturais e históricos da região, além de indicações ao Brasil e aos governos sobre a importância de valorizar a Amazônia como laboratório ambiental, econômico e social do país e do mundo. Aponta ainda advertências sobre o negligenciamento histórico dos governos em relação às instituições e esforços realizados por gerações.

RT1 – Como avalia a atuação do Governo Federal e do Governo do Amazonas na construção dessa agenda amazônica rumo à COP30?

MC – A agenda do Governo Federal tem sido transparente, receptora de críticas e com encaminhamentos claros por meio de conselhos, debates e representações diversas, além do fomento às interações entre diferentes grupos de interlocutores.
Do governo local, tenho conhecimento restrito aos grupos ligados à Ciência, Tecnologia e Ambiente, em suas respectivas instituições, que cumprem a agenda local.

RT1 – A senhora acredita que a COP30 pode marcar uma nova política de conhecimento sobre a Amazônia?

MC –Sim. Acredito que a COP pode marcar uma nova política de conhecimento e de autoconhecimento da Amazônia brasileira e continental, de natureza mais democrática e inclusiva do que temos hoje.

COMPARTILHE