Os pesquisadores amazonenses Adele Schwartz Benzaken e Marcos Vinícius Guimarães Lacerda estão de volta, nesta segunda-feira (17), aos escritórios e laboratórios do Instituto Leonidas e Maria Deane da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Amazônia) após terem recebido a Medalha da Ordem Nacional do Mérito Científico na semana passada.
A honraria deveria ter sido concedida e recebida pelos dois em novembro de 2021, mas foi cancelada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por considerar o trabalho dos pesquisadores em desacordo com as teses defendidas por ele o governo dele.
Médica ginecologista, Adele Benzakem está na vida pública há 45 anos, e atraiu a ira do presidente exatamente pelo trabalho que lhe garantiu a honraria: uma cartilha com orientações sobre prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis para Homens Transgêneros (ISTs).
A obra foi publicada quando Adele Benzaken ocupava a chefia do Departamento de IST/HIV/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, posto no qual estava há cinco anos quando foi demitida por Bolsonaro em 2019
O reconhecimento do trabalho veio agora no governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT), que condecorou a médica amazonense com a medalha e no grau mais alto, o de comendadora.
Sobre a homenagem tardia, Adele disse que a recebeu como uma forma de reencontro do Brasil com a ciência e a diversidade.
“(foi um) reencontro com o País plural que estava sendo destruído por políticas reacionárias e facistóides. Reencontro com o SUS pelo qual lutamos desde 1988, assim como com os valores constitucionais que o originaram”, diz a médica Adele.

Bolsonarista perseguiu Marcus Lacerda na CPI
Além de ter a homenagem cancelada em 2021, Marcus Lacerda foi perseguido e seguidamente exposto na Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19 do Senado pelo senador Luíz Carlos Heinze (PP/RS).
O parlamentar acusava seguidamente Marcus Lacerda de fraude e o responsabilizava por mortes ocorridas ao longo da pesquisa empreendida pela Fiocruz Amazônia que provou a ineficiência da cloroquina para o tratamento da Covid-19.
O trabalho foi o primeiro a apontar que o remédio “preescrito” por Bolsonaro no chamado tratamento precoce não funcionava e tinha uma série de efeitos colaterais danosos para o fígado em altas doses.
O trabalho em equipe dos participantes da pesquisa é enaltecido por Marcus Lacerda ao destacar que nenhuma medalha ou homenagem é entregue a um único indivíduo, nem a um único pesquisador.
“As honrarias são entregues aos grupos de pesquisa e às instituições. É um prazer imenso receber a condecoração que vem pelas mãos do atual presidente da República, que reconhece o trabalho de todo o grupo de pesquisa que o Amazonas tem na Fiocruz e que sempre foi o suporte dos piores momentos que todos vivemos nos últimos quatro anos”, afirmou
O trabalho do grupo coordenado por Marcus Lacerda foi referendado pela Comissão Nacional de Pesquisas, mas ele não informa quais atitudes tomou ou tomará contra Luiz Carlos Heize, que durante os ataques feitos na CPI foi diversas vezes advertido pelo presidente da comissão, o senador Omar Aziz (PSD) sobre a seriedade e competência do senador Amazonense..
Pesquisadoras do INPA entre homenageadas
Também foram homenageadas com a Medalha da Ordem Nacional do Mérito Científico, na semana passada, outras duas pesquisadoras que trabalham no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia: Maria Teresa Fernandez Piedade e Neusa Hamada
Neusa Hamada estava entre os 21 pesquisadores que receberiam a homenagem em 2019, mas que recusaram a comenda em função do veto de Bolsonaro a Adele Benzakem e Marcus Lacerda. Já Maria Teresa foi indicada para receber a homenagem neste ano.
“Fiquei muito surpresa e feliz ao saber que o Presidente Lula indicou todos que compunham a lista de agraciados em 2021 para receber esse prêmio que representa a mais prestigiosa condecoração concedida aos que se dedicam ao desenvolvimento da ciência e tecnologia no Brasil. A nomeação de três mulheres do estado do Amazonas para receber essa honraria é motivo de muito orgulho”, disse Hamada.
Neusa Hamada é pesquisadora do Inpa há aproximadamente 20 anos e trabalha com estudos sobre insetos aquáticos. Maria Tereza por sua vez estuda os impactos das das inundações na vida selvagem e nas interações entre espécies.