O Brasil terá de dar um cavalo de pau de 180 graus na política ambiental do governo para conseguir cumprir os compromissos assumidos pelo presidente Jair Bolsonaro, nesta quinta-feira (22), na Cúpula de Líderes sobre a Questão Climática convocada pelo presidente Joe Biden.
Ambientalistas ouvidos pelo RealTime1 acreditam que zerar o desmatamento ilegal até 2030 e neutralizar as emissões de gases do efeito estufa até 2050 são metas que poderão ser alcançadas se o Brasil fizer, de verdade, o dever de casa e passar a cuidar do meio ambiente, o que não tem sido uma prática do governo de Jair Bolsonaro.
Para o geográfo e conselheiro do Mosaico de Unidades de Conservação do Baixo Rio Negro, Carlos Durigan, o governo terá de mudar completamente suas práticas para cumprir os compromissos. Ele lembra também que todas as ações positivas citadas por Bolsonaro no discurso desta quinta-feira são resultados de gestões passadas e costumeiramente criticadas pelo presidente.
“Se quiser cumprir mesmo essas metas, bastaria ao governo retomar o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia (PPCDAM) e restabelecer a estrutura das instituições de estado, que têm sido sistematicamente fragilizadas em seu governo”, afirma o geógrafo.
Governo deve reabrir canais de diálogo
Outro ponto necessário, na avaliação de Carlos Durigan, é reabrir canais de diálogo e de atuação conjunta entre os setores da sociedade civil, sobretudo com lideranças socioambientais, indígenas, cientistas, universidades, empresas e outros setores que foram hostilizados pelo governo.
Para o professor de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Sérgio Gonçalves, desmatamento ilegal zero e neutralização das emissões de gases do efeito estufa são um desafio que demanda aperfeiçoar tudo o que temos atualmente na política ambiental brasileira.
“A estratégia de conter o desmatamento somente em bases de comando e controle (fiscalização e aplicação de multas) não basta. É preciso um profundo amadurecimento em regularização fundiária, que (na falta) abrem as portas para grilagem de terras, queimadas criminosas e especulação”, explicou Gonçalves, ex-coordenador do Centro Estadual de Unidades de Conservação do governo do Estado (Ceuc).
O cineasta amazonense Aurélio Michilles é um pessimista em relação ao cumprimento das metas apresentadas pelo presidente. “Pelo histórico do personagem, que sempre agiu entre a covardia e a mentira, boa coisa não podemos esperar”, resume Michilles, cuja obra mais recente, “Segredos do Putymayo”, denuncia a devastação da floresta e a exploração do homem da Amazônia.
Texto: Gerson Severo Dantas