quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Base de David Almeida barra pedidos da oposição e impede fiscalização da gestão municipal

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Mais uma vez, a base aliada do prefeito David Almeida (Avante) na Câmara Municipal de Manaus (CMM) se mobilizou e conseguiu blindá-lo, livrando-o de mais uma investigação. Nesta semana, os vereadores alinhados ao Executivo derrubaram o requerimento que pedia explicações sobre a instalação da roda-gigante na Ponta Negra.

O requerimento proposto pelo vereador Rodrigo Gudes (Progressistas) pedia, entre outros pontos, cópia dos contratos, licenciamento (instalação, AVCB, operação), dados sobre a empresa instalada — a Wheel Manaus J.P. Diversões Ltda. — e eventual chamamento público para exploração da atração.

Falta clareza na contratação e sobram questionamentos

O fato de a empresa responsável pela roda-gigante ter sido registrada dois dias antes da inauguração desperta sérios questionamentos. A H. M. Diversões Ltda. foi, inicialmente, apontada como permissionária, mas as evidências apontam para a Wheel Manaus como de fato responsável pela operação.

Em relatório divulgado após uma vistoria, o CREA-AM atestou que a roda-gigante estaria “dentro das normas exigidas”, com ARTs (Anotações de Responsabilidade Técnica) e RRT (fundação e sondagem do solo) apresentadas pela H. M. Diversões. Segundo o órgão, essa empresa detém o contrato formal de permissão com a Prefeitura.

No entanto, a sobreposição de empresas — a H. M. Diversões como permissionária formal e a Wheel Manaus como responsável pela operação —, sem que a relação entre ambas tenha sido transparentemente informada em editais ou publicações oficiais, como no Portal da Transparência ou no Diário Oficial, tem gerado forte desconfiança pública.

Pane, ‘gato’ e população em risco suscitam urgência de transparência

O cenário se agravou diante da denúncia de que a roda-gigante opera de forma irregular.

No dia 22 de novembro, o brinquedo apresentou falha elétrica, supostamente por causa de um ‘gato’ (ligação clandestina) por permissionários do próprio complexo, o que resultou em dezenas de pessoas presas nas cabines por cerca de uma hora. Imagens divulgadas nas redes sociais circularam neste dia.

Diante do episódio, o vereador Zé Ricardo (PT) protocolou requerimento solicitando documentos como: contrato de concessão, laudos de vistoria, alvará de funcionamento, certificações técnicas (como do Inmetro), autorização de energia elétrica, ARTs, RRTs, entre outros. A intenção era verificar a legalidade, segurança e responsabilidade técnica.

Além disso, está em tramitação uma Representação junto ao Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM), com indícios de irregularidade na autorização e exploração comercial da roda-gigante, reforçando a suspeita de que o processo descumpriu princípios básicos da administração pública, como transparência, impessoalidade e segurança.

Prefeitura deixa ‘no ar’

Depois da repercussão das denúncias, a Prefeitura de Manaus publicou, em 26 de novembro, o extrato de autorização para funcionamento da atração. O documento prevê que a roda-gigante fique instalada por seis meses e estima faturamento de até R$ 7,5 milhões, caso opere com capacidade máxima.

Apesar disso, não houve divulgação de edital, nem de contrato público claro: não há, até o momento, documentação acessível ao cidadão que comprove a cessão, os critérios de escolha da empresa, o histórico de habilitação técnica ou mesmo os laudos atualizados de segurança pós-instalação.

Logo, a falta de transparência sobre quem de fato opera a roda-gigante e sob quais critérios permanece.

O silêncio da Câmara

Além de Rodrigo Guedes, apenas os vereadores Rodrigo Sá (Progressistas), Coronel Rosses (PL), Capitão Carpê (PL), Sargento Salazar (PL), Zé Ricardo (PT), Ivo Neto (PMB) foram a favor da investigação. Gilmar Nascimento (Avante), Eduardo Alfaia (Avante), Raulzinho (Avante), Professor Samuel (PSD), Joelson Silva (Avante), Eduardo Assis (Avante), Mitoso (MDB), Rodinei Ramos (Avante), Pai Amado (Avante), Elan Alencar (DC), Saimon Bessa (União Brasil), Allan Campelo (Podemos), Sérgio Baré (PRD), Paulo Tyrone (PMB), Kennedy Marques (MDB), Marcelo Serafim (PSB), Everton Assis (União Brasil), João Carlos (Republicanos) e Marco Castilho (União Brasil) foram contra e optaram por ‘proteger’ o prefeito de mais uma investigação.

Ao rejeitar o requerimento de esclarecer a contratação e operação da atração, a Câmara Municipal de Manaus fecha temporariamente as portas à investigação pública. Com a rejeição majoritária, e aparentemente motivada por alinhamento político, o Legislativo deixa de cumprir seu papel de fiscalização.

O que transparece à população é que a administração municipal e parte expressiva da Câmara preferem priorizar negócios suspeitos em vez de garantir clareza, segurança e respeito aos cofres públicos.

A roda-gigante da Ponta Negra jamais deveria ser tratada como mera “atração natalina ou de final de semana”. Trata-se de estrutura permanente, com potencial de faturamento expressivo, que ocupa espaço público, depende de concessão do município e gera renda.

Por tudo isso, deveria estar submetida à lógica da administração pública, priorizando a transparência, lisura, segurança, responsabilidade técnica e prestação de contas.

A forma como foi conduzido todo o processo levanta vários questionamentos e, enquanto não forem respondidos, a roda-gigante vira mais um símbolo de descaso da atual gestão com a coisa pública.

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