A exemplo das eleições de 2022, o RealTime1 passa a acompanhar e detalhar a metodologia, os questionários e relatórios de todas as pesquisas registradas este ano junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para captar a intenção de voto dos eleitores para as eleições municipais no Amazonas.
O objetivo do RealTime1 é apresentar uma análise técnica e detalhada dos estudos realizados, um ponto a ponto do levantamento, identificando seus erros e acertos. Uma forma de colaborar com o processo eleitoral em curso.
Isso porque, o conjunto de informações e de dados devem seguir critérios rigorosos ao serem registrados junto ao TSE e, dependendo de como são elaborados e aplicados, podem refletir diretamente em falhas nos resultados apresentados.
Sobre a pesquisa InnQuesti, a primeira divulgada em 2024
A pesquisa InnQuesti para prefeitura de Manaus – realizada no período de 29 a 31 de janeiro – foi a primeira a divulgar – no dia 1º de fevereiro – a intenção de voto do eleitor para a Prefeitura de Manaus.
No entanto, segundo especialistas consultados pelo RealTime1, a pesquisa apresenta falhas técnicas. Algumas delas consideradas primárias e até mesmo inadmissíveis, já que não observa algumas determinações da Justiça Eleitoral.
1. QUESTIONÁRIO
1.1 Quem respondeu à pesquisa InnQuesti?
No documento obrigatório encaminhado ao TSE sobre como a pesquisa seria realizada, a InnQuesti menciona que “após os trabalhos de coleta os questionários serão submetidos a uma fiscalização de cerca de 20% dos questionários aplicados pelos entrevistadores, para verificação das respostas e da adequação dos entrevistados aos parâmetros amostrais”.
No entanto, o questionário registrado para a pesquisa, realizada por telefone – e que é o guia de perguntas que os entrevistadores da equipe devem utilizar para entrevistar o eleitor -, não possui espaço para identificar o nome do respondente nem o número do telefone pelo qual o eleitor foi entrevistado.
Caso seja um telefone residencial, por exemplo, como a empresa saberá dizer qual pessoa da casa respondeu à pesquisa?
Confira o questionário aplicado pela InnQuesti:
A empresa informa ter utilizado “entrevistadores e supervisores devidamente treinados e qualificados para o operacionalização do trabalho”, mas como conseguiu fazer a verificação mencionada, em cerca de 20%, para checar a veracidade da informação, já que não coletou o nome e o contato do entrevistado?
Outro problema observado: como a empresa de pesquisa conseguirá responder a uma possível auditoria desse tipo, caso solicitado pela Justiça Eleitoral? Isso deveria vir explicado no registro, que também não indica qual a base de dados desses telefones.
1.2 Identificação do eleitor por bairro
Uma das perguntas da pesquisa é sobre o local de residência do eleitor, que deve ser identificado por bairro. No entanto, o questionário não oferece subsídios suficientes para o entrevistador, que é orientado apenas a “anotar”, o local citado pelo entrevistado.
Para evitar um equívoco metodológico – a não identificação correta do local de moradia do eleitor -, o ideal seria o entrevistador ter a opção de marcar o bairro no próprio questionário ou ter em mãos a relação dos bairros de Manaus que possui oficialmente 63 bairros, de acordo com Plano Diretor da cidade.
Isso porque a tendência do manauara é identificar sua residência muitas vezes por conjunto habitacional, comunidades ou condomínios (atualmente mais de mil localidades), e não por bairro.
No bairro Planalto, por exemplo, na zona centro-oeste, estão localizados os conjuntos Belvedere, Campos Elíseos, Flamanal, Vista Bela; três etapas do Conjunto Residencial Jardim de Versalles e o Residencial da Ilha do Campos Eiíseos.
A InnQuesti também não menciona no documento de registro da pesquisa a localização (quantidade de entrevistas) por bairro, exigida pela Justiça Eleitoral, necessária para que se possa fazer uma ponderação da variável.
1.3 Sobre a renda do entrevistado
Na pergunta sobre renda, uma variável, também obrigatória para a pesquisa, foi ignorada. O questionário oferece três opções de respostas: renda domiciliar mensal de até 2 salários mínimos; de 2 até 5 salários mínimos e acima de 5 salários mínimo, mas desconsidera a opção “não informou ou não quis responder”.
Isso indica uma falha de estruturação do questionário pois ao omitir esse campo, a pesquisa considera que todos os entrevistados irão responder à pergunta, o que na prática não acontece.
Historicamente, em pesquisas, quando é perguntado o salário dos entrevistados, um enorme número de entrevistados não quer responder, ou prefere não informar.
A indicação de uma resposta alternativa à faixa de renda é necessária para a ponderação final do resultado da pesquisa, inclusive avaliando as margens de erro, de acordo com a faixa de segmentação dos entrevistados.
1.4 ‘Candidatos’ do mesmo partido num único cenário
Na pergunta 7, sobre “se a eleição para prefeito municipal fosse hoje, em quem você̂ votaria para prefeito municipal, dentre estes candidatos” são apresentados nomes de possíveis pré-candidatos de um mesmo partido, como Zé Ricardo, Sinésio Campos e Anne Moura, todos do PT.
O questionário também inclui dois candidatos do PL – Alberto Neto e Coronel Menezes – e outros dois do Cidadania – Amom Mandel e Wilker Barreto, que à época da coleta estava neste partido e, hoje, encontra-se sem filiação partidária.
Isso também é considerado um equívoco na pesquisa.
Ao incluir três nomes de um mesmo partido, o segmento dos eleitores desse grupo é dividido e todos ficam com índices baixos e muito provavelmente irreais. Afinal, em uma mesma eleição, o partido só pode concorrer com apenas um candidato.
Caso a intenção tivesse sido a de testar os nomes de possíveis candidatos, o correto seria a empresa criar vários cenários, cada um com um nome. Seria mais realista e não deformaria os números finais.
Da forma que a pesquisa foi realizada, os resultados acabaram se revelando incoerentes. Basta comparar o resultado de todas as pesquisas realizadas em dezembro do ano passado.
Como não houve nenhum fato político novo nos últimos três meses que pudesse alterar significativamente o cenário político atual, como se explicaria que na pesquisa InnQuesti alguns pré-candidatos apresentam números tão discrepantes?
1.5 Inexistência de múltipla escolha
A pergunta 8 do questionário – sobre “quais, dentre os mesmos nomes apresentados na pergunta 7, o entrevistado mais rejeita” – mostra a necessidade de utilização de respostas de múltipla escolha, pois o eleitor tende sempre a rejeitar mais de um nome.
O questionário poderia também deixar espaço para uma outra pergunta, sobre se além dos nomes listados o eleitor gostaria de citar um outro nome. Dessa forma o entrevistador poderia rejeitar outros nomes, por exemplo.
A tendência das empresas de pesquisa é dar pelo menos duas ou mais opções para o entrevistado, já que não existe rejeição a apenas um único nome.
O questionário também não oferece espaço para que o entrevistador possa marcar X nas respostas. Em não contendo essas observações, o questionário pode se tornar de difícil aplicação.
1.6 Ótimo ou bom? Ruim ou Péssimo?
Nas perguntas sobre a avaliação acerca do trabalho realizado pelo atual prefeito David Almeida e pelo governador Wilson Lima, o questionário oferece como opções os conceitos “Ótimo/Bom”, “Ruim/ Péssimo”, “Regular” e “Não sei/Não respondeu”.
Levantamento feito pelo RealTime1, mostra que em nenhuma pesquisa realizada no mercado brasileiro as respostas são agrupadas dessa forma. Isso porque existe uma distância muito grande entre os conceitos de “ótimo e bom” e entre “ruim e péssimo”.
Quem responde “ótimo”, por exemplo, é quem normalmente vota pela reeleição de quem está no poder; e quem diz bom – pelo menos a metade dos respondentes – na prática, tende a votar em outro candidato.
Ótimo é a expressão de total aprovação, notas 9 e 10. Bom são as notas 7 e 8. Elas sempre devem estar separadas para melhor compreensão do índice de fidelidade total e parcial.
O mais correto, para melhor avaliação, seria separar as respostas em pelo menos 5 escalas: ótimo, bom, regular, ruim e péssimo.
Empresas com mais tempo de mercado chegam a utilizar um nível de detalhamento ainda maior: utilizam sete escalas de conceito, atribuindo notas de 0 a 10 para os respondentes:
Ótimo – 9 e 10
Bom – 7 e 8
Regular positivo – 6
Regular – 5
Regular negativo – 4
Ruim – 2 e 3
Péssimo – 1
1.7 Sistema interno de controle e verificação sem detalhamento
Ausência de detalhamento sobre o controle e a verificação dos dados coletados pela pesquisa: Como a pesquisa InnQuesti não divulgou, nem informou se realizou os cruzamentos das respostas, como será possível realizar o “sistema interno de controle e verificação, conferência e fiscalização da coleta de dados e do trabalho de campo” conforme foi informado no documento registrado junto ao TSE?
“Ao não divulgar os cruzamentos realizados na pesquisa, ela fica fragilizada. Além do mais, sem os cruzamentos, o questionário soa como ingênuo e praticamente repete quem aprova ou quem reprova, acrescentando pouca coisa à pesquisa”, ressaltam os especialistas consultados pelo RealTIme1.
No texto apresentado ao TSE, a InnQuesti menciona apenas que “após os trabalhos de coleta, os questionários serão submetidos a uma fiscalização de cerca de 20% dos questionários aplicados pelos entrevistadores, para verificação das respostas e da adequação dos entrevistados aos parâmetros amostrais” sem, no entanto, dizer qual a metodologia utilizada e de que forma essa fiscalização teria sido feita como, por exemplo, a incoerência de determinadas respostas, já que o questionário não coletou o nome de contato do eleitor.
Um exemplo seria a identificação – no universo de 20% citado pela empresa – de um entrevistado que apesar de dizer que votaria no prefeito David Almeida, também informa que David Almeida também é o candidato que mais rejeita.
Pesquisa eleitoral ou política?
Das 18 perguntas do questionário aplicado pela InnQuesti, excetuando-se as quatro perguntas para identificação do bairro, sexo, escolaridade e renda do entrevistado; duas sobre em quem eles votariam se eleição fosse hoje; uma sobre rejeição dos nomes apresentados (uma espontânea e outra estimulada), e quais políticos mais teriam influência sobre a decisão de voto; 67% das perguntas (mais precisamente 12) referem-se à avaliação da gestão do prefeito atual, David Almeida, e do governador Wilson Lima em áreas como saúde, segurança pública e educação.
Ao contrário do proposto, a pesquisa mais parece uma pesquisa de avaliação política do que de intenção de voto para o pleito municipal deste ano, tal o excesso de perguntas sobre os dois gestores, provocando a sensação de que o objetivo das perguntas seria de comparar um com o outro.
Segundo analistas, as perguntas sobre o governador estão deslocadas num questionário eleitoral municipal e só fariam sentido, caso tivessem sido feitos cruzamentos, para avaliar a força do governador sobre o eleitorado manauara. Da mesma forma, a pergunta final sobre a influência de alguns políticos sobre o eleitorado.
Outra pergunta considerada fora de contexto, foi sobre a avaliação do trabalho do prefeito David Almeida na área da segurança pública. A pergunta foi considerada equivocada, já que o tema é uma responsabilidade estadual. O município está apenas iniciando a implantação da guarda municipal ostensiva, mas que ainda não se consolidou.
A pesquisa InnQuesti, portanto, segundo os mesmos analistas, pouco explicou à opinião pública sobre seu sentido e importância já que limita-se a divulgar em seu relatório percentuais de intenção de voto e de rejeição e a avaliação do prefeito e do governador.
2. METODOLOGIA DA PESQUISA INNQUESTI
A pesquisa InnQuesti, conforme documento encaminhado ao TSE, menciona que a pesquisa quantitativa de opinião foi realizada usando-se uma metodologia que levou em consideração uma “amostra representativa da população-alvo”, considerando “as informações demográficas e geográficas relevantes”.
Mas diz apenas que “a consistência na obtenção de respostas será garantida pela padronização das perguntas, o que permitirá́ a quantificação e análise estatística dos dados coletados”, mas também não informa de que forma essa quantificação e essa análise serão realizadas.
2.1 Coleta de dados
A coleta de dados da pesquisa foi feita por meio de “entrevistas telefônicas operadas por humanos”. Para isso, a InnQuesti contratou uma empresa de call center especializada em entrevistas por telefone, para realizar as entrevistas.
No entanto, a metodologia da pesquisa, segundo especialistas, precisaria ter sido melhor detalhada, pois esse tipo de abordagem (por telefone) possui singularidades, especialmente na definição da amostra e na ponderação dos dados.
Entre as singularidades está a necessidade de definição do número de entrevistados por bairro, já que o entrevistador não estará presencialmente no local.
Segundo analistas essa informação deveria, obrigatoriamente, constar do registro, assim como o detalhamento sobre a amostragem e qual a base de dados utilizada: se são telefones fixos, residenciais ou celulares, por exemplo.
3. AMOSTRAGEM DA PESQUISA INNQUESTI
Ainda no documento de registro da pesquisa, a InnQuesti afirma que utilizou “uma amostragem probabilística estratificada com o objetivo de refletir a heterogeneidade da população de Manaus, contemplando diferentes faixas etárias, gêneros, grau de escolaridade, níveis socioeconômicos e áreas geográficas”.
No entanto, não fornece detalhes sobre o método de amostragem utilizado, fundamental para garantir a representatividade e evitar vieses (termo utilizado para se referir aos erros cometidos na elaboração do questionário ou durante a pesquisa) e para garantir a confiabilidade dos dados coletados, incluindo perguntas de validação e de filtros para identificar e eliminar respostas inconsistentes ou inválidas.
3.1 Plano amostral da pesquisa
A InnQuesti afirma que utilizou “uma amostragem probabilística estratificada com o objetivo de refletir a heterogeneidade da população de Manaus, contemplando diferentes faixas etárias, gêneros, grau de escolaridade, níveis socioeconômicos e áreas geográficas”.
Menciona, ainda, que faria a ponderação para correção de diferenças entre a amostra e a população em termos de sexo e faixa etária.
No entanto, a ponderação (correção de diferenças) para as variáveis de escolaridade e renda domiciliar, como não foi especificada, pode não ter sido feita, mesmo que existam diferenças entre a amostra e a população.
O inciso IV, do $7 da Resolução No. 23.600, de 12 de dezembro de 2019, diz que deverá ser especificado “o número de eleitoras e eleitores pesquisadas (os) em cada setor censitário (amostra) e a composição quanto a gênero, idade, grau de instrução e nível econômico das pessoas entrevistadas na amostra final da área de abrangência da pesquisa eleitoral”. Esse detalhamento não existe nos documentos oficiais do registro do TSE.
As Resoluções que irão reger as Eleições 2024 estão sendo revisadas. O TSE recebeu mais de 1.000 sugestões que estão serão analisadas para elaboração das resoluções a serem relatadas pela Ministra Cármen Lúcia.
Confira a resolução 23.660/2019:
O que significa uma amostragem probabilística?
O universo amostral – a população – é o conjunto completo de todos os elementos que você deseja estudar em uma pesquisa. Ele representa o total de indivíduos que possuem as características de interesse para o seu estudo.
A amostra é um subconjunto do universo amostral que você seleciona para realizar a pesquisa. Ela deve ser representativa do universo amostral para que os resultados da pesquisa possam ser generalizados para a população como um todo.
A amostragem probabilística consiste em especificar quantos elementos da amostra serão retirados em cada estrato.
3.2 Base de dados desatualizada
Para a realização da pesquisa, a InnQuesti utilizou como fonte os dados do Censo de 2010 e os dados do TSE de 2023, o que não seria o mais adequado segundo especialistas consultados, já que existem dados bem mais recentes, como os do censo do IBGE 2020/2021. O próprio TSE pode apresentar defasagens, pois não atualiza constantemente sua base. O ideal seria usar o censo mais recente do IBGE que é de 2022.
Pelo perfil do eleitorado manauara – hoje de 1.437.740 eleitores, segundo os dados mais recentes do TSE, por exemplo -, isso já mudaria de 3 a 5 pontos percentuais o resultado final.
Ao utilizar uma base de dados com 12 anos de defasagem, a pesquisa pode apresentar desvios. Mas como o relatório de registro não fala em ponderação, significa que o relatório, desde a sua origem, apresentaria deformidades, porque não representaria a amostra atualizada.
Mesmo utilizando uma base de dados desatualizada – e isso não seria o maior problema -, o resultado da pesquisa poderia ter sido corrigido se tivessem sido aplicados “pesos” (ponderação) para cada uma das variáveis e assim fazer o ajuste de acordo com a amostra utilizada.
A ausência do detalhamento das ponderações, portanto, acaba por fragilizar o estudo, pois não há como saber se a pesquisa tem consistência técnica.
Falta de Controle de Qualidade
O texto menciona a “fiscalização” de 20% dos questionários, mas não fornece detalhes sobre como essa fiscalização será realizada. É importante ter um plano de controle de qualidade para garantir a confiabilidade dos dados coletados e explicitá-lo no registro e no relatório.
Faixa etária e distribuição geográfica apresentam falhas
Outra falha no documento apresentado ao TRE aparece nas faixas etárias. O texto afirma que entre as faixas etárias estão as de “25 a 24 anos” e de”35 a 44 anos”, provavelmente um erro de digitação, pois deveria ter sido a faixa de 25 e 34 anos. É uma clara falta de revisão do texto. Porém, um registro oficial não deve admitir tal falha, que seria primária.
O texto também menciona a consideração de informações geográficas relevantes, mas não especifica como a amostra foi distribuída nas diferentes áreas do município. Esta é uma exigência legal e não foi cumprida pela empresa.
Confira as distorções apresentadas
O quadro abaixo mostra a diferença e as distorções entre os dados do IBGE/2022 e PNAD/2023 e a base de dados utilizada pela InnQuesti, a do Censo de 2010:

Na variável grau de escolaridade/ até o Ensino Fundamental, a diferença chega a 14,7%.
Considerando a renda domiciliar mensal de mais de 2 até 5 salários-mínimos, chega a 7,2% o que, certamente, influenciaria no resultado da pesquisa.
3.3 Cálculo da margem de erro equivocada
Em pesquisas, a margem de erro indica a precisão dos resultados. Para uma pesquisa com 800 entrevistas, confiabilidade de 95% e população superior a 1 milhão, a margem de erro correta é de 3,5%, para mais ou para menos, e não de 4%, como foi registrado pela InnQuesti.
O cálculo da margem da amostra utilizada na pesquisa, portanto, está equivocada: 800 entrevistas com grau de confiabilidade de 95% significa dizer que em 100 pesquisas, 95 repetirão com a mesma metodologia, no mesmo período e com o mesmo questionário, o resultado dentro da margem de erro.
Para uma pesquisa com margem de erro de 4%. O grau de confiabilidade teria que ser de 98,6%
A pedido do RealTime1, e para melhor visualização, um estatístico elaborou tabelas com diferentes margens de erro com os dados informados pela InnQuesti:
Considerando margem de erro fixa de 3% e, uma segunda, com margem de erro fixa de 4% com grau de confiabilidade variável.

Para uma pesquisa cuja opção fosse um grau de confiabilidade de 95%, a margem de erro seria de 3%, como mostra o quadro abaixo:

3.4 Perguntas com 100% de respostas, somente com a apresentação das casas decimais
Um ponto que causou estranheza na pesquisa e que pode influenciar na margem de erro foi que todas as respostas da InnQuesti totalizaram 100%, o que é improvável.
Para confirmar essa improbabilidade, usamos como exemplo o número atribuído ao deputado federal Amom Mandel que na pesquisa estimulada da InnQuesti aparece, em tese, com 16% das intenções de voto, e que 128 eleitores do total de 800 entrevistados, disseram ter votado nele.
A tabela abaixo mostra de maneira clara que quando não se utiliza as casas decimais existem oito possibilidades de arredondamento: quatro para baixo e quatro para cima para o mesmo resultado.

Isso significa dizer que a soma da maioria das respostas coletadas na pesquisa, incluindo “nulos/brancos” e “não sei/não respondeu”, deveria ficar entre 99% e 101%.
3.5 Ponderação da amostra
A ponderação em estatística e em uma pesquisa eleitoral é uma técnica utilizada para ajustar resultados de pesquisas à realidade da população-alvo, atribuindo pesos diferentes a diferentes unidades de análise (indivíduos, entrevistas etc.), a fim de compensar distorções na amostra e garantir a representatividade dos resultados.
Importância da Ponderação na Pesquisa Eleitoral
Corrige distorções na amostra, como diferenças de idade, sexo, nível educacional e renda entre a amostra e a população-alvo.
Aumenta a precisão das estimativas da intenção de voto dos diferentes candidatos.
Permite identificar subgrupos da população com diferentes características e comportamentos, facilitando a análise das tendências de voto e a segmentação das campanhas eleitorais.
Métodos de Ponderação:
- Ponderação por quotas: ajusta a amostra para refletir a distribuição da população-alvo em termos de características como idade, sexo, nível educacional, renda etc;
- Ponderação por pós-estratificação: divide a amostra em diferentes grupos (estratos) e ajusta os pesos de cada grupo para que reflitam a distribuição da população-alvo em cada estrato;
- Ponderação por modelagem: utiliza modelos estatísticos para estimar os pesos de cada unidade de análise.
Exemplos de Aplicação:
Ajustar a amostra por idade para refletir a proporção real de jovens na população.
Identificar as diferenças de opinião entre homens e mulheres em relação aos diferentes candidatos.
Conclusão:
A ponderação é uma ferramenta essencial para garantir a qualidade das pesquisas eleitorais, permitindo que os institutos de pesquisa e os candidatos obtenham uma melhor compreensão das preferências do eleitorado e tomem decisões mais informadas.
4. BAIRROS PESQUISADOS
Sobre os bairros onde foram coletadas as entrevistas, a InnQuesti cumpriu a legislação, anexando até o 7º. dia seguinte ao registro da pesquisa, conforme expresso no art. 2º, §6º da Resolução 23.600/2019 do TSE.
No entanto, apesar de informar os bairros onde coletou as 800 entrevistas, ocultou a informação mais importante: a quantidade de entrevistas realizadas em cada um dos bairros, não dando transparência ao trabalho.
Confira o documento apresentado:
Dessa forma, não é possível aos pré-candidatos, aos partidos políticos e à própria população saber se foi feita uma ponderação correta, já que no documento apresentado ao TSE, a InnQuesti não informa ter feito ponderação por bairros.
Para confirmar os dados, o RealTime1 solicitou de um especialista, que faz estudos há vários anos sobre a quantidade de votos que um candidatos possuem em bairros e zonas eleitorais, um quadro detalhado sobre os bairros de Manaus.
Um exemplo de como poderia ser detalhada a amostra de 800 entrevistas, caso fosse tomado como base os locais de votação da última eleição, é este quadro a seguir:

A variação máxima seria de duas entrevistas, para mais ou para menos, em cada um dos bairros, conforme a tabela acima.
Essa quantidade de entrevistas por bairros poderá ser confirmada, quando se fizer a conclusão dos setores censitários do IBGE, disponibilizado na semana passada, mas que certamente não terá uma variação de mais duas ou menos duas entrevistas do estudo especificado na tabela acima.
5. RELATÓRIO SEM DETALHAMENTO
O relatório com o resultado da pesquisa divulgado pela InnQuesti é semelhante ao de todas as outras pesquisas que erram resultados no Amazonas: não apresenta nenhuma variável de controle e não mostra cruzamentos.
Chega a ser simplório, inclusive na apresentação visual.
O questionário com 19 perguntas resultou em 14 páginas de apresentação dos resultados, incluindo a capa com a logo da empresa.
Além das respostas da pesquisa, foi informado apenas o número do registro, de entrevistas, a confiabilidade, a margem de erro e a data da coleta.
Mesmo que a legislação não fale claramente sobre o teor do relatório, este não deve omitir informações que sejam importantes para a opinião pública entender a pesquisa como um todo, especialmente em sua metodologia.
Sugestão para empresas de pesquisas
A empresa de pesquisa DataFolha divulga em seus relatórios a margem de erro máxima, por segmento, para melhor entendimento da segmentação da mostra para seus clientes. No caso das pesquisas eleitorais, candidatos, partidos e federações e a equipe de marketing, que se utilizam desses números para melhor direcionar a estratégia de campanha.
A título de exemplificação, o RealTime1 solicitou de um estatístico a produção de um quadro com informações (poucas) divulgadas na pesquisa InnQuesti. Nele se pode visualizar os conjuntos de respondentes por segmento e o percentual da margem de erro máxima de cada um.
Como o documento apresentado pela InnQuesti cita apenas números percentuais das resposta, o quadro abaixo foi produzido, utilizando o percentual indicado pela empresa por segmento e o total de entrevistados (800 eleitores).
No caso do segmento “Masculino” a base provável é de 376 homens, correspondente ao percentual de 47% dos 800 entrevistados, indicando uma margem de erro máxima de 5,16%.

Na amostra de pessoas com 60 anos ou mais, a margem de erro é de 9,45%; o que significa dizer que se um candidato tem 20% nesse segmento, ele poderia ter tanto 29,5% como 10,5% dos votos. Uma grande elasticidade entre o maior e o menor, no que se chama intervalo de confiança.
Outro exemplo, ainda utilizando a tabela acima:
O Intervalo de Confiança e a Margem de Erro são ferramentas importantes para interpretar os resultados de pesquisas e estudos, pois fornecem informações sobre a precisão da estimativa.
Fica a sugestão para que outras empresas de pesquisa passem a incluir esses dados em seus relatórios.
6. FONTE DE FINANCIAMENTO
A InnQuesti informou ao TSE que a pesquisa foi realizada com recursos próprios e que custou R$ 16 mil.
Em média, o menor valor por questionário aplicado por empresas profissionais no Brasil é de, aproximadamente, R$40,00.
Para uma pesquisa com 800 eleitores, a pesquisa teria um custo médio de R$ 32 mil, incluindo diárias de entrevistadores, dos checadores e revisores, da parte de transporte e alimentação, da produção do relatório, designers, incluindo a remuneração do estatístico responsável.
Durante entrevistas, ao fazer o lançamento da InnQuesti em Boa Vista, na semana passada, Loredona informou que o valor gasto com a pesquisa foi um investimento de marketing e de posicionamento da marca realizado pela sua empresa.
7. DE QUEM É A INQUESTTI PESQUISA
A InnQuesti Pesquisa está fazendo sua estreia no mercado de pesquisas eleitorais e foi a primeira empresa a registrar levantamento sobre a intenção de voto para eleições municipais de Manaus de 2024, junto ao TSE.
Faz parte da LLK Consulting Consultoria, fundada em 12 de abril de 2019, com capital social de R$ 50.000,00 e tem sede registrada no bairro Vieiralves, em Manaus.
A proprietária da empresa é a jornalista Loredana Kotínski, nascida em Roraima, mas com carreira jornalística consolidada em Manaus. Especialista em Marketing Político, o que é louvável, Loredana mora atualmente em Brasília e cursa doutorado em Portugal.
Segundo o site da InnQuesti, a empresa surgiu da necessidade de oferecer pesquisas eleitorais assertivas e com bases de informações coletadas in loco.
Durante o lançamento da InnQuesti em Boa Vista, Loredana explicou que, por não ser profissional de Estatística, possui dois estatísticos contratados e que são eles que fazem todo o levantamento, elaboração do questionário e da metodologia a ser aplicada na pesquisa.
Usiara Britto é a estatística que assina a pesquisa InnQuest Manaus.
Para os próximos meses, Loredana disse que a InnQuesti planeja realizar pesquisas nas capitais da Região Norte e que tem condições de atender em todo o Brasil.
‘Não sou paraquedista, nem aventureira’
Loredana fez questão de destacar que não é “paraquedista” ou “aventureira”, frisando que desde 1998, quando cursava Marketing Político na Universidade de Brasília (UNB), já se debruçava sobre as discussões da influência das pesquisas eleitorais no voto dos brasileiros.
“O grande lance do InnQuesti é mostrar que é possível uma mulher estar num instituto de pesquisa, brigando com tubarões de grande porte e na questão eleitoral, que é muito disputada. Não quero tirar o lugar de ninguém, mas quero conquistar o meu espaço”, defendeu Kotínski.
Entre outras empresas, Loredana foi diretora do Grupo Norte de Comunicação, do empresário Sérgio Bringel, de onde se desligou em 2022. É doutoranda em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais pela Universidade do Porto e investigadora da DigiMedia, na Universidade de Aveiro, onde explora o impacto do ESG nas plataformas e audiências de meios digitais.
Innquesti se manifesta
A InnQuesti, por meio da sua assessoria de imprensa, encaminhou nota ao portal RealTime1 sobre o mateiural produzido pela redação. No documento, a empresa pontua sete itens. Veja:
Comunicado:
A direção do InnQuesti não foi procurada pela reportagem para que pudesse dar as devidas respostas em relação à matéria publicada neste portal e que detalhou, de forma errônea, alguns pontos da primeira pesquisa para prefeitura de Manaus em 2024 – realizada no período de 29 a 31 de janeiro, pelo instituto.
Sendo assim, cumprindo o papel do bom jornalismo, o InnQuesti pontua abaixo todos os questionamentos, que poderiam ser esclarecidos com uma busca no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), conforme pontuado abaixo:
- Sobre a base de dados, eles foram os do Censo do ano de 2023, o mais recente e que ainda não havia atualizado a renda das pessoas pesquisadas. Os dados de 2010 foram usados somente sobre a renda dos entrevistados, metodologia inclusive utilizada por demais institutos;
- Sobre questões de múltipla escolha, elas não apenas constaram na pesquisa, como estão no questionário anexado no site do TSE;
- Já em relação aos nomes dos candidatos, como ainda não há registo oficial de candidaturas, os cenários se atentaram para os candidatos que já estão sendo mencionados extraoficialmente como pré-candidatos;
- As variáveis estão todas listadas dentro do documento anexado no site do TSE. E para o cálculo de margem de erro e confiabilidade são utilizadas duas variáveis diferentes para a consolidação dos resultados;
- A divulgação de números de bairros e números de entrevistados por bairros não são uma obrigatoriedade estabelecida pelo TSE;
- Sobre a renda das pessoas que participaram da pesquisa: caso o entrevistado optasse por não mencionar, ele seria descartado e sua resposta não seria contabilizada. E o item sobre faixa etária está correto.
- A avaliação de gestão de governo é um conceito de mercado já consolidado, mas cada um aplica da forma que acha mais substancial e de acordo com suas preferências.
Nota da redação:
No item 1, a InnQuesti informa que os dados usados foram do Censo 2010, o que não há nada de ilegal. Só chamamos atenção que existem fontes de dados mais atualizados, o que eviraria a necessidade de ponderação para tornar a amostra mais próxima da realidade.

Sobre o item 2: Os questionários não indicam para os entrevistadores da empresa se a resposta pode ser múltipla ou não.
Sobre o item nº 3 da nota: Em uma eleição não é permitido que candidatos do mesmo partido concorram ao mesmo cargo, como adversário. Logo, o mais correto seria a aplicação de vários cenários aos eleitores, apresentando para avaliar a intenção de votos e cada um deles, e não num mesmo cenário. O mesmo não está claro no documento encaminhado ao TSE quanto ao item 4, informado pela empresa.
Sobre a obrigatoriedade da divulgação de bairros na pesquisa, o item faz parte da Resolução 23.600/2019 do TSE, no art. 2º, §6º.
O RealTime1 não julgou necessário contato com a Innquesti – como mencionado no comunicado da InnQuesti -, pois a matéria produzida não questionava a InnQuestii e sim, avalia tecnicamente o documento encaminhado ao TSEe o relatório de divulgação da pesquisa.
Matéria atualizada às 17h20, para inclusão de “Comunicado” encaminhado pela assessoria da InnQuesti e os respectivos comentários da redação.
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