Em artigo para o Portal RealTime1, o cientista político Gilson Gil analisa as poucas aparições públicas, o silêncio do presidente Jair Bolsonaro (PL) e questiona a ausência de oposição consistente que deveria ficar atenta aos trabalhos da equipe de transição, inflada, e com “ministros que não empolgam”. Confira:
Desde que foi consolidada sua derrota, o presidente Bolsonaro se recolheu. Ficou vários dias trancado em sua residência, no Alvorada.
Alguns dias depois, quando o país já estava em balbúrdia, com os “patriotas” nas portas dos quartéis, pedindo um golpe militar que redimisse a pátria, ele surge no Planalto, fala por 5 minutos e sai. Deixou para outros a tarefa de falar como seria a transição, voltando ao seu mutismo.
A partir daí, foram poucas aparições públicas. Em uma, numa cerimônia militar, na marinha, chegou a lacrimejar.
No domingo, dia 11, chegou a aparecer, mas ficou em silêncio, trocou apenas algumas palavras com apoiadores, acompanhou uma oração, abraçou uma criança e logo depois saiu. Os apoiadores esperavam grandes discursos, revelações ou palavras de encorajamento, mas nada disso ocorreu.
O filho Carlos Bolsonaro postou fotos de uma ferida na perna, tentando explicar o sumiço do pai. Da mesma forma, deixou de fazer as lives de quinta-feira, que eram um importante veículo de comunicação com seus seguidores. Admitiu perder esse laço, sem criar novos caminhos.
O problema político
Qual o problema político disso? Neste momento em que a transição se atrapalha, com mais de 900 participantes em 33 grupos de trabalho e com seguidas críticas e os ministros anunciados não empolgam e ainda geram mais problemas, não vemos uma oposição consistente se pronunciar nem se organizar.
Lula precisa de apoios para obter uma maioria que lhe dê governabilidade. Precisará ir atrás de PMDB e PSD, para chegar perto desse número. E talvez ainda tenha de caçar uns votinhos no União Brasil e no PSDB, partidos não próximos ao PT.
Porém, a reclusão de Bolsonaro silenciou a oposição. O que os senadores eleitos Mourão, Damares e Pontes estão falando ou organizando? O que os governadores eleitos Tarcísio e Cláudio Castro estão fazendo? Pragmaticamente, buscam se alinhar ao futuro governante, o que é natural.
Contudo, mesmo alinhados poderiam propor alternativas, fazer críticas contundentes aos grupos da transição e aos futuros ministros. Entretanto, ficam calados, sem saber qual caminho seguir, vendo sua base se desmanchar e seu líder se calar.
Enfim, o silencio omisso de Bolsonaro deixa sua base, a atual e a futura, sem rumos. As breves insinuações sobre uma possível reviravolta na situação são pouco agregadoras.
Qual seria o resultado de um “golpe redentor” ao PL?
O que haveria de positivo, hoje, para o PL, caso houvesse mesmo um “golpe redentor”? Em termos políticos, nada. Pelo contrário, em uma onda de “purificação”, vários membros do PL seriam cassados imediatamente, como aconteceu com alguns udenistas e pessedistas em 1964 e 1965.
Concluindo, creio ser válido mostrar como a política não admite o vácuo. A base acaba negociando no varejo com o futuro presidente, que está mesmo buscando apoios aqui e ali. Partidos e bancadas que serão oposicionistas em 2023 estão sem rumo e sem saber o que falar.
Fazer oposição radical? Ser moderado e pensar no bem do Brasil? Entrar na base aos poucos? O que fazer? Bolsonaro nunca foi um estrategista em seus 34 anos de vida pública. Sempre foi um político de rompantes.
Porém, agora, sua omissão está desfazendo sua base e, pior, a desmancha para o ano que vem. O que ele espera em 2023, virando um bolsista do PL? Será que acha que os parlamentares e governadores oposicionistas irão em romaria até ele, como Getúlio em São Borja, entre 1945 e 1950?! Vaso quebrado não se conserta, diz o ditado popular. Base desmanchada pode não se consertar mais…
Por Gilson Gil – Cientista Político
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