A decisão do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) de negar a licença de perfuração de um poço na foz do rio Amazonas é um pingo no mar de petróleo que a Petrobras quer explorar no litoral Norte do País, entre o Amapá e o Rio Grande do Norte.
A expectativa da petroleira era aumentar em 73% a produção na região equatorial do mar brasileiro até 2031, fazendo a produção pular de três milhões para 5,2 milhões de barris por dia, com poços de petróleo espalhado por toda a região e colocando o Brasil como o quarto maior produtor mundial, atrás de EUA, Rússia e Arábia Saudita.
Um dos principais cientistas que atuam na Amazônia e especialista em mudanças climáticas, Philip Fearnside, afirma que a abertura de um poço de petróleo na região é um risco que não foi calculado e cita como exemplo deste risco o vazamento do poço Deepwater Horizon, operado pela British Petroleum, no México.
“Não é possível fazer uma proposta de exploração na Foz do rio Amazonas de forma segura. Isto é comprovado pelo evento Deepwater Horizon, que aconteceu no Golfo de México, em 2010, quando um poço vazou a uma profundidade de 1,5 km e jorrou petróleo durante meses, até ser estancado”, compara Fearnside.
Poço de petróleo nas profundezas do mar
Fearnside relembra que o vazamento no Golfo do México causou danos bilionário e apresentou ao mundo que é pequena a capacidade das petroleiras controlarem o vazamento de um poço de petróleo em águas profundas. O cientista duvida até da capacidade – propalada pela Petrobras – de operar em profundidades elevadas, como no chamado pré-sal.
“Todo o discurso de como o país tem grande capacidade na área de exploração petrolífera no mar nunca foi testado por um vazamento a grande profundidade. A proposta na Foz do Amazonas inclui poços no dobro da profundidade do desastre do Golfo de México”, acrescenta.
O presidente do Sindicato dos Petroleiros do Amazonas (SindPetro), Marcus Ribeiro, defende exatamente o contrário e lembra a expertise da Petrobras para explorar petróleo em águas profundas. “O pré-sal está ai, com exploração de poços de petróleo feita a mais de sete mil metros de profundidade e nunca houve problema de vazamento”, defendeu.
Poço é risco para mar e litoral
Cientista integrante do Painel das Mudanças Climáticas que ganhou o prêmio Nobel, Fearnside estimou que um vazamento em um poço localizado na foz do rio Amazonas tem capacidade de espalhar a poluição por uma vasta área de mar e litoral do Brasil e dos países vizinhos.
“As correntes marinhas levariam o óleo ao norte, atingindo as costas do Amapá, Guiana Francesa, Suriname e Guiana. Assim, a atividade petroleira na região ameaça não só o Brasil, mas também os países vizinhos. Haveria ainda sérios impactos nos ecossistemas marinhos. O estuário do rio Amazonas, além de ter importante biodiversidade, é uma grande fonte de pescado, que abastece a cidade de Belém”.
De acordo com a ex-presidente do Ibama Suely Araújo, o que está em jogo neste interesse da Petrobras e a negativa do Ibama vai bem além da exploração de petróleo, mas sim com o processo de “descarbonização” do planeta em face do aumento das mudanças climáticas.
“O Brasil vai apostar em um negócio que só começará a dar lucro após 2030, quando mundo já estará em franca troca de matriz energética e com o petroleo custando cada vez menos. É isso que a Nação quer?”, questiona.
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