quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Prefeitura ignora decisão da Justiça e segue escondendo o destino das verbas de publicidade

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Prefeitura de Manaus descumpre decisão judicial e mantém sigilo sobre gastos com publicidade

Após três anos de tramitação na Justiça, a Prefeitura de Manaus voltou a demonstrar resistência em cumprir decisões judiciais sobre o uso de recursos públicos e confirma que transparência não é exatamente uma prioridade quando o assunto envolve contratos de publicidade.

Em resposta a uma ordem judicial que determinava a apresentação de dados completos sobre a execução financeira dos contratos de publicidade firmados entre 2009 e 2020, que abrange as gestões de Artur Virgílio Neto e Amazonino Mendes, o município anexou ao processo um volume impressionante de documentos – 5.495 páginas – mas deixou de fora exatamente o que foi solicitado: a identificação de quem recebeu as verbas, quanto recebeu e quando recebeu.

A resistência da Prefeitura em dar transparência a contratos firmados em gestões anteriores levanta questionamentos inevitáveis se dará transparência aos contratos e pagamentos de publicidade da gestão de David Almeida, que também são alvo de apuração judicial.

Cumprimento formal de decisão judicial, transparência ausente

A documentação foi apresentada como suposto “cumprimento integral” da decisão proferida no Mandado de Segurança que tramita desde fevereiro de 2022.

No entanto, a própria Secretaria Municipal de Comunicação (Semcom) admite, em Nota Técnica, que não encaminhou os processos de pagamento, alegando que o volume de documentos ultrapassaria a capacidade do sistema eletrônico.

Em outras palavras, a Prefeitura reconhece que possui os dados, mas optou por não juntá-los aos autos.

Prefeitura entrega contratos públicos e omite execução financeira

O material entregue concentra-se, majoritariamente, em contratos, aditivos, certidões fiscais, documentos cadastrais das agências e peças licitatórias, informações que já são públicas e acessíveis no Portal da Transparência.

O núcleo da decisão judicial, porém, permanece intocado: a relação detalhada dos pagamentos feitos a fornecedores, veículos de comunicação e terceiros envolvidos nas campanhas institucionais financiadas com dinheiro público.

Impressos, documentos encaminhados geraram 17 volumes com uma média de 323 páginas cada

Notas de empenho mostram valores globais, não o destino do dinheiro

As poucas peças financeiras anexadas reforçam essa omissão.

As Notas de Empenho apresentadas indicam apenas valores globais destinados às agências de publicidade contratadas, sem qualquer discriminação sobre o destino final dos recursos.

Não há planilhas, relatórios ou quadros sintéticos que indiquem quais veículos receberam os valores, nem os montantes individualizados pagos a cada um.

Contratos exigem relatórios de pagamento que não aparecem no processo

A situação se torna ainda mais grave quando se observa que os próprios contratos firmados pela Prefeitura obrigam a existência desses controles.

As cláusulas contratuais determinam que as agências devem informar à Semcom todos os pagamentos realizados a fornecedores e veículos, enviando relatórios mensais com dados como data do pagamento, número da nota fiscal, valor pago e nome do favorecido.

Ou seja, não se trata de informação inexistente ou extraordinária, mas de documentação rotineira da execução contratual.

Se os relatórios existem, por que a Prefeitura não apresentou?

Se esses relatórios existem, como exigem os contratos, a Prefeitura poderia tê-los anexado de forma simples e objetiva, inclusive em formato digital consolidado.

Se não existem, a irregularidade é ainda maior. Em ambos os casos, o resultado prático é o mesmo: a transparência foi substituída por um amontoado de papéis que pouco esclarecem sobre a real destinação das verbas públicas.

Volume de documentos como estratégia para contornar a Justiça
Ao afirmar nos autos que todas as informações teriam sido apresentadas “na íntegra”, enquanto admite não ter enviado os processos de pagamento, o Município transforma o cumprimento da decisão judicial em um exercício formal, esvaziado de conteúdo.

A estratégia é clara: entregar volume, não informação; quantidade, não clareza.

Três anos depois, a Justiça ainda aguarda respostas

O episódio reforça um padrão preocupante no comportamento da Prefeitura de Manaus diante do Judiciário.

Mesmo após anos de tramitação, intimações e decisões claras, a administração insiste em contornar o mérito das ordens judiciais quando o assunto envolve publicidade oficial e dinheiro público.

A Justiça pediu transparência. Recebeu, em troca, um arquivo pesado, mais de 1 Giga, e um silêncio ainda mais pesado sobre quem, afinal, recebeu as verbas da publicidade institucional.

Entenda o caso da falta de transparência
O caso começou quando a jornalista Liliane Monteiro Maia, diretora executiva do RealTime1, solicitou, em dezembro de 2021, detalhes sobre pagamentos feitos a terceiros em nove contratos milionários de publicidade firmados pela Prefeitura de Manaus entre 2009 e 2020.

Embora os valores pagos às agências estivessem disponíveis no Portal da Transparência, não havia — e até hoje não há — qualquer informação sobre quem efetivamente recebeu o dinheiro público, como rádios, TVs, portais, blogs, gráficas e produtoras.

Diante da omissão total da Secretaria Municipal de Comunicação (Semcom), mesmo após recurso administrativo igualmente ignorado, foi impetrado Mandado de Segurança em fevereiro de 2022.

O juiz da 1ª Vara da Fazenda Pública determinou a notificação da Prefeitura para que respondesse em até 10 dias — o que nunca ocorreu de forma adequada, apesar das diversas intimações oficiais registradas no processo.

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