O marketing funciona; a transparência, não
O Instituto de Desenvolvimento, Ensino e Assistência à Saúde (IDEAS) opera no Amazonas em um regime de dupla realidade informativa. Na página institucional de autopromoção, a Organização Social exibe com orgulho o controle do Complexo Hospitalar Leste, estampando as marcas do Hospital João Lúcio e do Hospital da Criança da Zona Leste como troféus de sua expansão territorial.
Porém, quando o cidadão comum, o auditor ou o jornalista migram da vitrine colorida para o Portal da Transparência do IDEAS, os hospitais manauaras simplesmente evaporam.
Até o fechamento desta reportagem, o Contrato de Gestão nº 002/2025, as prestações de contas oficiais e as polêmicas planilhas de rateio administrativo não passavam de fantasmas virtuais.
O álibi do “aperfeiçoamento” eterno
Para mascarar o apagão de dados, o site oficial do IDEAS se ancora em avisos burocráticos e condescendentes, alegando que suas seções estão “em processo de aperfeiçoamento”.
- A pressa do dinheiro: Se o sistema eletrônico de publicidade avança a passos de cágado, o fluxo financeiro do Estado corre em ritmo de Fórmula 1. Mais de R$ 217 milhões já foram liquidados e pagos à entidade.
- A inversão do ônus: Empurrar o cidadão para o balcão físico da Ouvidoria ou para pedidos formais de informação desidrata a Lei de Acesso à Informação.
- Transparência pública ativa significa disponibilização imediata, sem barreiras.
- Controle social asfixiado: Sem os balancetes expostos na internet, o controle espontâneo da sociedade sobre um contrato de R$ 1,93 bilhão é inviabilizado.
Publicidade não é favor, é obrigação
O sumiço dos arquivos digitais em uma operação que sufoca o orçamento da saúde do Amazonas não pode ser justificado como mera lentidão técnica.
Produzir relatórios e escondê-los em gavetas administrativas ou em pastas internas da Secretaria de Estado da Saúde (SES-AM) não é o mesmo que dar transparência aos atos.
Diante de cifras bilionárias, o “aperfeiçoamento” do Portal do IDEAS deveria ter sido concluído antes mesmo do primeiro leito ser terceirizado.
Afinal, quem tem competência para gerenciar o maior contrato hospitalar da Região Norte tem o dever tecnológico de manter um site atualizado.
Fechamento
Um Portal da Transparência existe para aproximar o cidadão dos documentos públicos, quando a operação aparece na página institucional, mas sua documentação não aparece no ambiente destinado à prestação de contas, a transparência deixa de cumprir plenamente sua função.
Não basta informar quem administra, é indispensável demonstrar como administra.
Se existe um Portal da Transparência, por que justamente a operação bilionária do Amazonas não aparece nele?