quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Bicicletas em Manaus: a história de um modal pouco valorizado

Rede de ciclovias e ciclofaixas públicas para uso de bicicletas como modal de transporte em Manaus é acanhada.
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Foto: Divulgação/Internet
Produção de bicicletas em Manaus registrou retração em todos os meses deste ano. (Foto: Reprodução)

O último plano de Mobilidade Urbana de Manaus, elaborado em 2015, tinha a perspectiva de valer até 2035 e previa duas diretrizes que foram praticamente esquecidas ao longo dos últimos sete anos:

  • Valorizar a bicicleta nos deslocamentos de curta e média distância, como meio de transporte complementar e lúdico;
  • Reconhecer e favorecer os deslocamentos a pé.

Embora seja reconhecido no Código de Trânsito Brasileiro, o uso da bicicleta como meio de transporte em Manaus praticamente inexiste e um levantamento feito pelo portal Mobilize.org, em 2018, apontava que a cidade tinha a pior proporção de vias destinadas a bicicletas em relação à malha viária total (0,85%).

Essa falta de estrutura adequada pode ser uma explicação para o alto número de acidentes com ciclistas e a quantidade deles hospitalizados e mortos.

O ex-prefeito Arthur Neto prometeu, ao longo da campanha de 2012, que construiria 80 quilômetros de ciclovias em Manaus, mas ao final de oito anos só havia construído a ciclovia do boulevard Álvaro Maia, adaptando a calçada do canteiro central para o trânsito de bicicletas.

Vias como as avenidas Governador José Lindoso, a avenida das Torres, e a Nathan Xavier de Albuquerque ganharam ciclofaixas ao longo dos últimos dez anos, assim como a Coronel Teixeira, antiga estrada da Ponta Negra. O uso de bicicletas em Manaus não foi favorecido por essas estruturas.

Estes projetos, inclusive, expõem a fragilidade do sistema de transportes por bicicletas em Manaus. A ciclovia do Boulevard praticamente não atraiu usuários por suas evidentes inadequações e a “competição” com os pedestres, que continuaram a usar a calçada improvisada em pista.

As ciclofaixas das avenidas das Torres e da Nathan Xavier sofreram com a má qualidade da pista, o que também desestimula o uso de bicicletas como modal de transporte em Manaus.

A ciclofaixa da Coronel Teixeira é outra sucessão de erros da gestão pública, pois ao contrário de marcar a ciclofaixa com tintas, em alguns trechos ela é seccioanada com dentes de dragão, que dificultam o uso por bicicletas e ainda irritam os motoristas de carros e ônibus que trafegam na região.

Essas inadequações levaram o Ministério Público do Estado (MPE-AM) a assinar um TAC com a gestão de David Almeida (Avante) para retirar os dentes de dragão, descontinuando o uso exclusivo pelos ciclistas, e se comprometer com a construção de uma ciclovia pelo lado direito da pista (bairro-centro).

Essa construção obrigará a uma série de negociações com proprietários de imóveis, como igrejas, condomínios de luxo e o Comando Militar da Amazônia, que impediram a obra sair do papel.

Bicicletas em Manaus sem políticas públicas

Na época da construção da ciclovia do Boulevard, o grupo Pedala Manaus realizou uma pesquisa mostrando que ao menos 1 mil pessoas usavam bicicletas pela avenida Brasil e o Boulevard Álvaro Maia em deslocamentos diários entre casa e o trabalho.

Para o Pedala Manaus, o lado positivo da gestão de Arthur Neto foi colocar em debate a necessidade de políticas públicas para ciclistas e realizar uma campanha publicitária para a proteção do ciclista, porém o saldo foi muito acanhado.

“Passados oitos anos contabilizaram-se 25 mortes desde 2013, menos de 40 km de infraestrutura cicloviária desconectada, sendo que a maioria é composta de ciclofaixas ou ciclorrotas, nenhuma fiscalização eletrônica, vias rápidas, trânsito hostil, fim do sistema de bicicletas compartilhadas, poucos projetos de lei envolvendo a bicicleta, total desrespeito ao ciclista, enfim, a capital da maior floresta tropical do mundo ganha o título de pior capital do Brasil para se pedalar, segundo os estudiosos da área”, escreve o Pedala Manaus em seu relatório Manaus, cidade proibida para bicicleta, de 2020.

Bicicletas são modal em baixa em Manaus

A plataforma Mobilidados.org lista atualmente, com dados de 2022, apenas ciclofaixas e nenhuma ciclovia na cidade de Manaus, sendo as maiores na avenida governador José Lindoso, a avenida das Torres, e na Nathan Xavier de Albuquerque.

Há também ciclovias nas regiões requalificadas pelo Programa de Saneamento dos Igarapés de Manaus, o Prosamin, e no Complexo Turístico da Ponta Negra.

Essas informações apontam para um outro problema para a construção deste modal em Manaus, que é a falta de interligação. Para o arquiteto Sérgio Montemar, os grandes projetos de requalificação urbana precisam integrar a rede de ciclovias ou ciclofaixas, pois só com a infraestrutura pronta é que teremos ciclistas com coragem para largar o carro e optar pela bicicleta em seus deslocamentos.

O fator saúde também é destacado pelo personal trainer Licinho Carvalho, para quem uma hora de pedal, mesmo que em ritmo lento de quem vai para o trabalho, é essencial para redução da gordura corporal e a regularização da pressão arterial e da respiração.

O ambientalista Henrique Rabelo destaca a redução na emissão de carbono na atmosfera quando se estimula o transporte pelo modal de bicicletas. O gás carbônico é o principal gerador do efeito estufa.

Todas essas vantagens listadas aqui já apareceram no radar do Tribunal de Contas da União, que no estudo Tribunal de Contas Sustentável, de 2019, aponta seis vantagens para o uso da bicicleta como modal de transporte urbano:

  • Emissão zero de CO2
  • Mobilidade urbana eficiente
  • Condicionamentofísico e mental
  • Saúde Pública
  • Experimentação da cidade em outro nível de percepção

De acordo com este estudo, o modal bicicleta é mais eficiente do ponto de vista dos gastos públicos, pois garante um cidadão com mais saúde e sem necessidade de usar o Sistema Único de Saúde, além de reduzir custos com a criação de grandes estruturas urbanas para circulação de carros e ônibus.

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