A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 do Senado Federal divulgou, nesta sexta-feira (16), um balanço dos trabalhos realizados em 38 sessões e quase três meses de funcionamento. O grande destaque é o volume de informações requeridas e recebidas que já acumulam 1 terabyte, o que daria para lotar a memória de oito smartphones de 128 gigas, cada um.
Os trabalhos entraram hoje em recesso e só deverão ser retomados no próximo dia 3 de agosto, quando será ouvido o empresário Francisco Emerson Maximiano, dono da Precisa Medicamentos, empresa que negociou com o Ministério da Saúde a venda de 20 milhões de doses da vacina Covaxin com um sobrepreço de 50%.
O balanço apresentado pela direção da CPI aponta que foram tomados 33 depoimentos, com destaque para os dos ex-ministros Luiz Henrique Mandetta, Nelson Teich e Eduardo Pazuello, além do atual ministro, Marcelo Queiroga, e do ex-secretário-executivo da pasta, coronel Élcio Franco. Dos 33 depoentes, 14 ligados ao governo ou que fizeram negociações com o governo passaram da condição de testemunhas para a de investigados pela CPI. Entre estes estão o empresário Carlos Wizard Martins, defensor do uso da cloroquina.
Sobre a crise de oxigênio nos hospitais do Amazonas, em meados de janeiro, um dos focos da investigação da CPI, foram tomados os depoimentos do ex-secretário de Estado da Saúde, Marcellus Campêlo, e o do deputado estadual Fausto Júnior (MDB). Fausto abriu uma guerra política contra o presidente da CPI, senador Omar Aziz (PSD), quando esteve na CPI e isso resultou numa denúncia-crime do senador apresentada à Procuradoria Geral da República (PGR) contra a mãe do deputado, a conselheira do Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM), Yara Lins, acusada de enriquecimento ilícito e ocultação de patrimônio.
Mais o grande destaque dos trabalhos é o grande volume de informações requeridas e recebidas pelos senadores. Foram mais de 1,1 mil requerimentos de informações e quebras de sigilo fiscal, bancário, telefônico e telemático (internet). Outros 1,8 mil ofícios foram encaminhados pelos senadores a órgãos públicos e empresas privadas. O resultado dessa enorme investigação foi o recebimento de documentos e ofícios que tomaram 1 terabyte (TB) de espaço nos arquivos digitais do Senado Federal, o que equivale a mil gigas de dados, que é cerca de 8 smartphones com capacidade de 128 GB.
Avaliação do relator
Em uma avaliação feita, nesta manhã, pelo relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB/AL), a CPI avançou em várias frentes e sobre as quais ele já tem algumas ideias para incluir no relatório final. “Já sabemos que o governo negligenciou a compra de vacinas, apostou na estratégia de imunização de rebanhos e no uso de medicamentos sem eficácia comprovada, já sabemos do gabinete das sombras (formado por um grupo de aconselhamento do presidente Jair Bolsonaro, mas sem relação formal com o governo), essa questão dos hospitais do Rio de Janeiro, do aplicativo TrateCov para Manaus. Enfim, temos muitas informações que mostram os erros e as omissões do governo federal, mas também de governos estaduais”, declarou Renan em uma entrevista para o canal do historiador Marco Antônio Villa no YouTube.
Diligências não estão descartadas
Apesar do recesso dos parlamentares, o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede/AP) informou que a equipe técnica da comissão ficará de plantão para analisar a quantidade enorme de informações que estão guardadas numa sala-cofre do Senado Federal.
“Também não está descartada a realização de diligências nos Estados para recolher informações”, afirmou Rodrigues, referindo-se, sem citar, a oitiva do ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel, que pediu para ser ouvido num local secreto no Rio por temer represálias.
Witzel prometeu entregar informações sobre um possível domínio da rede de hospitais federais do Estado por grupos milicianos ligados ao senador Flávio Bolsonaro (Patriotas).
Texto: Gerson Severo Dantas
Leia Mais:
- Entenda o caso Covaxin: uma ameaça ao Governo Federal na CPI da Covid
- Dominguetti revela detalhes de como chegou a Élcio Franco e Roberto Dias
- Dominguetti confirma proposta de propina feita por diretor de ministério
- Quem é quem no núcleo militar que negociou compra suspeita de vacinas
- Omar mostra que Fausto cometeu falso juramento, mas evitou prendê-lo
- Omar e Braga travam luta política em torno de Yara Lins e Fausto Jr
- Depoimento de Marcellus Campêlo pode evidenciar omissões de Bolsonaro
- Sem habeas corpus, Campêlo tem de falar tudo sobre crise no AM à CPI