quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Yes, nós temos voto facultativo

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Recente pesquisa da Perspectiva, realizada no final de outubro, constatou que ainda persiste a oposição Davi Almeida (31,5%) x Amon Mandel (27,1%), sendo que outros pré-candidatos, como Coronel Menezes (6,7%) e Roberto Cidade (4,2%) ainda estão abaixo da linha dos 10% de intenção de votos na pergunta estimulada.

Contudo, a pesquisa trouxe uma pergunta interessante: você iria votar, caso não fosse obrigatório o voto? A maioria disse que iria (57%). Contudo, mais de 2/5 Disseram que não votariam (42%). Este dado é interessante. Manaus possui 1.415.731 eleitores registrados. Se isso se confirmasse, com 42% deixando de ir votar, teríamos um eleitorado ativo de 806.997 pessoas. Todas as previsões mudariam e seria um novo universo no qual a eleição estaria sendo construída.

Difícil prever quem perderia ou quem ganharia mais com isso. Será que uma religião iria promover mais o voto, nos seus templos, do que outra? Será que moradores de um bairro com melhores meios de transporte iriam mais do que outros, com escassez de coletivos? Será que aqueles com mais dinheiro iriam viajar ou seriam eles que justamente gostariam de ir votar? Enfim, são conjecturas difíceis de serem testadas.

O que podemos fazer é olhar os dados de quem já possui o voto facultativo há décadas, os Estados Unidos. Lá, nem o alistamento é obrigatório. Eles possuem, hoje, cerca de 257 milhões de pessoas em idade para votar. Contudo, apesar do alistamento poder ser feito até na hora de votar, somente, em média, 80% se inscrevem. Já há uma perda inicial de cerca de 20% dos possíveis eleitores.

Olhando-se o histórico, vemos que a participação eleitoral total oscila. Em 2008, foi de 57%. Em 2012, baixou para 54%. Em 2016, (Donald Trump x Hilary Clinton), foi de 55%. Porém, em 2020 (Donald Trump x Joe Biden), subiu para 66%. Biden obteve mais de 81 milhões de votos, um recorde na história americana. Desde 1908 (quando havia restrições ao voto das mulheres e dos negros), não havia uma participação tão grande. A figura polêmica de Trump levou a uma mobilização inédita de eleitores, tanto de apoiadores como de críticos (especialmente dos negros).

É uma eleição singular, pois o eleitor só sai de casa, caso queira mesmo votar em alguém. Não há o voto nulo ou em branco, pois só vota quem realmente deseja eleger um candidato. Todavia, o segredo está exatamente em mobilizar o eleitorado. Não adianta ser líder nas pesquisas ou fazer uma propaganda boa. Tão importante quanto convencer o eleitor a votar em certo nome é, também, convencê-lo a ir votar no dia da eleição (ressalte-se que não é feriado no dia de votação).

Outra curiosidade que diferencia os EUA do Brasil é a possibilidade do voto antecipado e a do voto pelo correio. Esse tipo de voto veio por causa da pandemia e foi criticado por Trump, que o achava mais propício a fraudes. Contudo, grande parte do eleitorado o utilizou. Dos 169 milhões de votos, mais de 100 milhões vieram pelos correios ou foram dados antecipadamente.

Pelo que vimos na pesquisa local, voltando a Manaus, o eleitorado presente seria de 57%, ou seja, 806.997 eleitores. Todos iriam votar em alguém, como nos EUA, pois não teria sentido ir e votar nulo. Dessa forma, estaríamos dentro da média americana com 57%.

Nossa abstenção em 2020, ano de pandemia, no primeiro turno foi de 18,2%. No segundo turno, subiu para 22,4%. Porém, em 2016, sem pandemia, a abstenção foi de 8,5% no primeiro turno e de 9,5%, no segundo.

Usando como referência 2016 (sem pandemia), os votos nulos e brancos no segundo turno, aqui, foram de cerca de 10%. Podemos dizer que houve uma perda de, aproximadamente, 20% dos eleitores, considerando-se abstenção, voto nulo e voto em branco, em 2016. Ou seja, tivemos 80% do eleitorado votando em um dos nomes para o executivo municipal. Bem diferente dos EUA, onde a média é de 55% e, excepcionalmente, foi de 66% (2020).

É outro tipo de eleição, como vemos, pelos números. Quem poderia, no Brasil e, especialmente, em Manaus, caso o voto fosse facultativo, mobilizar mais o eleitor? Quem possui a máquina? Provavelmente. Quem tem mais partidários filiados? Talvez. Quem possui um eleitorado com viés religioso? Possivelmente. Porém, todas essas são especulações. O valor delas está em ver, num cenário, o local, em que a abstenção e o voto nulo e branco são uma realidade, quem pode mais mobilizar seu simpatizante, fazendo com que ele saia de casa e vá votar, sem achar que isso é uma obrigação ou uma chatice, pensando que aqui não há o voto antecipado e é feriado no dia de eleição.

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