Desde sua estreia com estrondoso sucesso, Bridgerton – além de reacender o apetite público por romances da Regência – abriu espaço na televisão para um nicho específico das séries de época: romances abertamente femininos de história alternativa, especulativa ou altamente fantasiosa. Essas produções muitas vezes contam com figurinos elaborados, músicas modernas, estéticas coloridas, elementos narrativos anacrônicos, diversidade entre elenco e personagens, e um ligeiro (ou gigantesco) desprezo pela acurácia histórica – e, mais importante, independentemente de qualquer outra coisa, todas são histórias de amor em alguma capacidade.
Para quem se encantou com essa combinação de intriga aristocrática, heroínas assertivas e amores que desafiam convenções sociais, muitas vezes adornada por figurinos luxuosos, trilhas sonoras anacrônicas e abordagens modernas de temas como desejo, poder, reputação e amor, há um vasto repertório de produções que revisitam a História com liberdade criativa (e um ou dois romances regenciais mais fiéis ao período, mas que mesmo assim lembram Bridgerton por seus personagens e temas). Entre adaptações literárias, releituras irreverentes e dramas que flertam com o fantástico, essas nove séries mostram que o romance histórico pode ser tão inventivo quanto qualquer fantasia contemporânea.
1. A Idade Dourada (The Gilded Age)
Criada por Julian Fellowes, a série se passa na Nova York dos anos 1880, período de explosiva expansão econômica e disputas ferozes entre a velha aristocracia e os novos milionários da indústria. No centro da narrativa está Marian Brook, jovem que se muda para a casa das tias conservadoras e se vê envolvida na tensão social entre tradição e modernidade. Ao redor dela, famílias rivais duelam não com espadas, mas com convites para bailes, alianças matrimoniais e investimentos ferroviários. A série usa etiqueta, arquitetura, moda e escândalos sociais para explorar ambição feminina, mobilidade social, questões raciais e romances atravessados por diferenças de classe. Com humor, elenco ensemble e figurinos extravagantes, o passado é filmado com opulência, mas tratado com sensibilidade contemporânea.
2. Os Bucaneiros (The Buccaneers)
Baseada no romance inacabado de Edith Wharton, a adaptação recente aposta em uma energia deliberadamente moderna. A trama acompanha um grupo de jovens americanas ricas que atravessam o Atlântico em busca de maridos aristocratas na Inglaterra do século XIX. O choque cultural entre a espontaneidade americana e a rigidez britânica move a narrativa, que combina figurinos exagerados com trilha sonora pop e ritmo ágil. O romance aqui é também estratégia social, mas a série enfatiza amizade feminina, desejo e frustração diante de instituições sufocantes. É um drama de costumes com muito do universo contemporâneo, onde tradição e rebeldia caminham lado a lado.
3. Minha Lady Jane (My Lady Jane)
Partindo da figura histórica de Lady Jane Grey – a “rainha dos nove dias” da Inglaterra Tudor -, a série transforma um episódio trágico da história inglesa em fantasia irreverente. Uma fantasia especulativa de história alternativa – como Bridgerton, que reimagina uma Inglaterra sem preconceitos raciais, onde pessoas de todas as etnias formam parte da nobreza após o chamado Grande Experimento, e na qual a Rainha Charlotte é autoridade
suprema -, Minha Lady Jane leva a história alternativa – onde Jane Grey não é decapitada – ainda mais longe, incluindo um elemento mágico. Nesta versão, o reino é dividido entre humanos comuns e metamorfos capazes de se transformar em animais, tensão que estrutura intrigas políticas e perseguições. Jane surge como heroína espirituosa, inteligente e resistente a um casamento arranjado, envolvida em conspirações que misturam romance, humor e elementos quase mágicos. A narrativa assume tom autoconsciente, brincando com convenções históricas enquanto reimagina o passado com liberdade criativa.
4. Sanditon
Inspirada no romance inacabado de Jane Austen, Sanditon acompanha Charlotte Heywood, jovem que vai parar em uma cidade litorânea em desenvolvimento, projeto ambicioso de transformação urbana e social. A série amplia o universo sugerido por Austen, explorando romances, escândalos e jogos de reputação em uma comunidade que tenta se reinventar economicamente. Embora preserve o cenário da Regência, a adaptação enfatiza personagens femininas com maior autonomia emocional e narrativa, além de abordar temas como comércio, empreendedorismo e mudança social. É um drama romântico que equilibra fidelidade estética e leitura contemporânea das convenções do período.
5. Rosaline (2022)
Inspirado em Romeu e Julieta, o filme desloca o foco da tragédia shakespeariana para a prima pouco mencionada de Julieta – Rosaline, antiga paixão de Romeu. Aqui, ela não é nota de rodapé, mas protagonista espirituosa que tenta sabotar o romance que a substituiu. A narrativa assume tom de comédia romântica moderna, com diálogos ágeis e consciência das próprias convenções, enquanto preserva o cenário renascentista. O resultado é uma releitura que brinca com destino, idealização amorosa e a rapidez com que heróis românticos trocam de musa. É menos uma história sobre amor trágico e mais uma sátira afetuosa das paixões juvenis e do mito do “amor à primeira vista”.
6. The Great (2020–2023)
Descrita como “uma história às vezes verdadeira”, a série acompanha a jovem Catarina, que chega à Rússia para casar-se com o imperador Pedro III e acaba arquitetando sua própria tomada de poder. Livre compromisso com fidelidade histórica estrita, a produção aposta em diálogos anacrônicos, humor mordaz, figurinos exuberantes, muito sexo e violência estilizada. O romance inicial rapidamente revela-se relação desigual e caótica, dando lugar a um jogo de manipulação, desejo e ambição. A estética mistura luxo barroco com energia contemporânea, transformando o passado em palco para discutir poder, misoginia e transformação política com irreverência assumida.
7. Reign (2013–2017)
A série acompanha a juventude de Mary Stuart, rainha da Escócia, em sua permanência na corte francesa do século XVI, onde precisa consolidar alianças políticas e garantir seu futuro casamento com o delfim Francis. Embora ambientada no Renascimento, Reign assume estética e sensibilidade marcadamente contemporâneas: trilha sonora pop, figurinos completamente estilizados e diálogos que soam deliberadamente modernos. A narrativa combina romance, intriga palaciana, rivalidades femininas e até elementos místicos, como visões e profecias que pairam sobre o destino da protagonista. O resultado é um drama histórico que privilegia intensidade emocional e atmosfera quase fantasiosa, tratando o
passado como cenário para paixões arrebatadas, traições e disputas de poder moldadas por um olhar do século XXI.
8. Emma (2009)
A adaptação da BBC estrelada por Romola Garai expande o romance de Jane Austen em quatro episódios que permitem maior desenvolvimento das relações e nuances sociais de Highbury. Emma Woodhouse é jovem, rica, convictamente solteira e convencida de seu talento como casamenteira, mas sua interferência na vida alheia revela limites entre boa intenção e arrogância. A minissérie preserva a ironia elegante de Austen, ao mesmo tempo em que aprofunda a dimensão emocional do romance entre Emma e Mr. Knightley, transformando mal-entendidos sociais em tensão afetiva gradual. Visualmente fiel ao período da Regência, mas com ritmo mais acessível ao público moderno, a produção equilibra crítica de costumes, humor e amadurecimento sentimental – um retrato de romance histórico em que o maior obstáculo não é a sociedade, mas a própria protagonista.
9. As Leis de Lídia Poët (2023– )
Inspirada na história real da primeira mulher a se tornar advogada na Itália, a série acompanha Lídia Poët na Turim do final do século XIX, após ter seu registro profissional cassado por decisão judicial que a considera “inadequada” ao exercício da profissão por ser mulher. Impedida de advogar oficialmente, ela passa a atuar nos bastidores do escritório do irmão, investigando casos e desafiando as limitações impostas pela lei e pela sociedade. Com figurinos primorosos, ritmo ágil e uma protagonista espirituosa e determinada, a série combina investigação criminal, romance e comentário social, tratando o passado com energia contemporânea em um drama histórico que transforma tribunais e salões aristocráticos em arenas de disputa por autonomia e reconhecimento.