segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Vidas que se entrelaçam: o encontro de duas mulheres artistas de diferentes tradições

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Artista índigena, dançarina, cantora, estilista e professora.

Duas mulheres artistas de diferentes tradições – a artista indígena (Mepaeruna Tikuna) e a artista não indígena (Vanessa Missioneira) – se encontraram em Manaus pela primeira vez ao realizarem uma performance artística juntas, foi então que descobriram afinidades que as levaram a trilhar um caminho onde vida e arte se entrelaçam, estabelecendo um diálogo entre os diferentes saberes de cada uma, buscando novas possibilidades de criação para as suas práticas artísticas, se reinventando a cada novo desafio que se apresenta.

Tradições que se entrelaçam entre memórias reveladas a partir de vivências, conversas e compartilhamentos dos mais diversos. O encontro de duas artistas de diferentes tradições, que performando juntas se conheceram e estabeleceram laços que ultrapassam a esfera da prática artística, tornando-se amigas e comadres, já que Vanessa é madrinha da filha de Mepaeruna.Fortalecendo as relações entre vida e arte, pois, além do desenvolvimento de projetos artísticos e culturais, essa relação transcende o espaço de trabalho e permite uma proximidade mais humana e familiar, o que contribui na construção de práticas artísticas dialógicas, respeitando os saberes individuais de cada uma.

Mepaeruna, artista e professora indígena da etnia Tikuna e Vanessa Missioneira, artista e professora gaúcha, se encontraram pela primeira vez em outubro de 2017 na Sala Samambaia da Escola Superior de Artes e Turismo (ESAT) da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) em Manaus, durante a oficina “Sincronicidade e Expressão”, ministrada pela artista e pesquisadora Maria Júlia Pascali.

A oficina conduzida por Maria Júlia Pascali proporcionou o encontro de corpos indígenas e não-indígenas em um momento único onde as singularidades de cada um se complementava formando o todo da obra artística. Durante essa imersão, o encontro das artistas Mepaeruna Tikuna e Vanessa Missioneira aconteceu. Mepaeruna envolveu a todos com seu canto que ecoou na Sala Samambaia, a canção ancestral Tikuna, entoada com a dança de seus antepassados, reverberou nos corpos dos performers fazendo com que se conectassem, mesmo sem saber a canção e a dança, aos poucos todos foram se integrando e juntos se tornando um coro.

Mepaeruna aprendeu a cantar com sua avó, ouvindo-a desde que era bem pequena. O canto é um conhecimento que fica preservado no corpo daquele que sabe, o conhecimento memória que se dá na relação com o outro, uma troca que se estabelece estando junto com os mais velhos, ouvindo os cantos e progressivamente aprendendo a cantar.

A beleza daquele momento com a canção Tikuna, que poucos compreendiam o significado, mas com um ritmo e intensidade que se complementavam com a dança, proporcionavam a percepção de estarmos em outro plano de realidade, como se o tempo e o espaço se modificassem. A Sala Samambaia da Escola Superior de Artes e Turismo da Universidade do Estado do Amazonas, já não era mais a mesma, tinha outro cheiro, outras cores, permitindo que criássemos através do contato físico, visual e do fluir da nossa imaginação.

A partir de então, o Curso de Teatro da UEA passou a estabelecer relações de trabalhos artístico-pedagógicos com a comunidade Parque das Tribos. A parceria entre Vanessa e Mepaeruna seguiu. Mepaeruna começou a ensinar a língua Tikuna para Vanessa em aulas na sua casa no Parque das Tribos. Mepaeruna também ministrava aulas de Tikuna para as crianças da comunidade no Espaço Cultural Uka Umbuesara Wakenai Anumarehit (Casa de aprender do guerreiro) e sugeriu que desenvolvessem um trabalho juntas, unindo a arte e o estudo da língua e cultura Tikuna.

Mepaeruna convidou Vanessa para fazer parte de suas aulas de Tikuna com as crianças e Vanessa convidou Mepaeruna para as aulas que estava ministrando na disciplina de Expressão Vocal I no Curso de Teatro da UEA no segundo semestre de 2018. A presença de Mepaeruna nas aulas foi um dos momentos mais marcantes do semestre.

A chegada de Mepaeruna e de seus filhos causou alvoroço na turma, todos muito curiosos fizeram perguntas a ela, que falou principalmente sobre o aprendizado das canções com a sua avó. Falou, ainda, sobre ser mulher na aldeia e na cidade, e das dificuldades que enfrentou e enfrenta para criar e educar seus filhos.

Mepaeruna contou que quando estava na oitava série do ensino fundamental foi atrás de sua origem, perguntou aos mais velhos sobre o seu ‘DNA’ e descobriu que além de seu sangue predominante ser Tikuna, já que é o de seu pai, ela tem sangue português e Kokama (que é o de sua mãe, mas como quem determina a etnia é o pai, Mepaeruna é Tikuna). Para Mepaeruna somos todos parentes.

Mepaeruna fechou o encontro falando de sua experiência enquanto neófita no ritual de iniciação feminina Worecü (A Festa da Moça Nova), foi o ápice do encontro, pois a maioria dos estudantes não imaginava que existisse tal rito de passagem, que acontece quando a menina Tikuna tem sua menarca (mesntrua pela primeira vez).

A Festa da Moça Nova é a oportunidade para as mulheres mais velhas aconselharem as moças sobre sua nova condição de mulher na sociedade Tikuna. O desfecho do rito de passagem é quando arrancam os cabelos da Moça, para que ela se renove e amadureça, respeitando seus pais e antepassados. O ato de arrancar os cabelos durante o ritual, foi muito dolorido para Mepaeruna, pois trouxe à tona questões relacionadas à assumir um lugar de mulher adulta naquela sociedade, gerando o povo Tikuna e mantendo a fertilidade da terra por meio do trabalho na roça, que é de competência das mulheres.

No fim de sua fala, Mepaeruna convidou todos para dançar e cantar algumas músicas tradicionais da Festa da Moça Nova, foi um momento de descontração e improvisação, em que todos aprenderam a cantar e dançar com Mepaeruna, uma forma de ensino-aprendizagem que dispensa muitas explicações e se efetiva pela concentração, imitação e repetição.

No ano de 2019 as duas se afastaram, Mepaeruna seguiu em Manaus e Vanessa estava em São Paulo terminando seu doutorado, nesse ano ambas engravidaram e perderam seus bebês.

Em fevereiro de 2020 se reencontraram em Manaus e retomaram os trabalhos com as crianças no Parque das Tribos, que foi interrompido com a chegada da pandemia do Coronavírus (COVID-19), o que fez com que ficassem alguns meses sem atividades. No entanto, logo surgiram editais de fomento à cultura propiciados pela Lei Aldir Blanc, ação emergencial do Governo Federal de junho de 2020 destinada ao setor cultural devido ao estado calamitoso provocado pela pandemia da COVID-19. A partir da Lei Aldir Blanc foi criado o edital “Encontro das Artes” em dezembro de 2020, lançado pela Secretária de Cultura e Economia Criativa do Amazonas. Esse edital possibilitou que pensassem novos projetos para juntas seguirem com as atividades artísticas.

“Contando histórias, revelando tradições” foi o projeto que desenvolveram, visando uma semana de oficinas na mesma linha em que realizavam com as crianças e jovens no Parque das Tribos, trabalhando a contação de histórias com música e dança em um espaço de improvisação.

O desafio era trazer essa proposta para o ambiente virtual, sendo que o trabalho se dá em espaços periféricos onde o acesso à internet é muito limitado, no entanto, ampliou-se para pessoas de outras cidades do estado do Amazonas, do Brasil e do mundo, já que as oficinas ocorreram via Google Meet e foram transmitidas ao vivo pelo Youtube, gerando o documentário:

Hoje a amizade e parceria artística permanece, uma apredendo com a outra, fortalecendo cada vez mais a rede de relações entre as diferentes tradições.

*O conteúdo é de responsabilidade do autor e não expressa, necessariamente, a opinião do RealTime1.

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