Em 2006, o ex-vice-presidente americano Al Gore lançou um documentário sobre as mudanças climáticas chamado “An inconvenient truth” (Uma verdade inconveniente), que foi dirigido por Davis Guggenheim. O filme tratava da campanha de Al Gore à presidência, mas focava no tema do superaquecimento global.
Sua preocupação era superar certos mitos e falácias sobre o debate climático, trazendo dados que mostrassem como os efeitos do aquecimento global já são notados ao redor da Terra, em especial, o derretimento da calota polar.
Lembrei desse documentário ao ler que o governo federal planeja criar o “Pé de meia da Licenciatura”. O ministro da Educação anunciou que o governo pretende criar uma bolsa de, aproximadamente, R$ 500 reais mensais para estudantes de cursos de Licenciatura. O objetivo seria incentivar essa profissão, professor, que estaria em queda no Brasil. Essa bolsa, que funcionaria como uma poupança, seria apenas para estudantes de universidades federais.
Sem entrar, por ora, no mérito da bolsa, é certo que a profissão de professor está em decadência. Nos próximos dez anos, o Brasil acumulará um déficit de mais de 200 mil professores nos ensinos básico e fundamental.
Em 2022, cerca de 58% dos estudantes de Licenciatura desistiram de se formar, segundo o Censo da Educação Superior. Estatísticas oficiais dizem que os jovens professores concursados largam o magistério em menos de 5 anos de exercício na profissão. Nos cursos de Licenciatura, a taxa de ociosidade chega a 30% nas federais, sendo que é quase o dobro em determinadas áreas, como Matemática, Física ou Química.
Para falar do nosso quintal, como diria Voltaire, em “Cândido ou o otimismo”, na UFAM, há cursos de Licenciatura com menos de dez alunos em sala. E isso nas humanidades, onde, teoricamente, é “mais fácil” passar no vestibular e se formar. Ou seja, a rejeição à Licenciatura não é mais apenas de quem está no curso ou entrou no mercado de trabalho. Os próprios estudantes secundaristas não demonstram vontade de assumir essa carreira.
Será que essa bolsa mensal acabará com essa rejeição? Penso que o problema é outro. Há uma dificuldade do aluno em acompanhar uma graduação. Há custos que dificultam seus estudos. O aluno de uma Licenciatura em uma federal é, geralmente, de uma classe social mais baixa e já trabalha enquanto estuda. O crescimento das Licenciaturas a distância atesta isso, pois ela permitem que o trabalhador encaixe o curso em seus horários.
Contudo, o problema, creio está na atratividade da profissão em si. Não há ociosidade na Medicina, na Odontologia ou no Direito. São cursos que vão bem, obrigado!. Não faltam alunos, não faltam vestibulandos nem filas de espera por uma improvável desistência.
Será que há tantas vocações assim para o Direito ou a Medicina entre os jovens vestibulandos? A Odontologia tem tanta atração assim? O que eles fizeram para atrair tantos jovens, enquanto as Licenciaturas agonizam?
Penso ser simples a resposta. Os salários e as expectativas de ganhos são infinitamente superiores. O jovem, de qualquer classe, deseja dinheiro, prosperidade, sucesso e reconhecimento. Sendo Advogado, Promotor, Juiz, Médico ou Dentista, isso é possível e provável. Terá vencimentos realmente admiráveis e será reconhecido socialmente como alguém bem sucedido.
Sendo professor, terá de trabalhar em 3 turnos, tendo centenas de alunos por dia, talvez lecionar em 2 ou 3 escolas, nos bairros mais distantes e ser pressionado por diretores e pais diariamente. Os vencimentos sempre serão modestos e recheados de acusações de que estão “quebrando” o caixa do governo.
Os próprios colegas não o incentivarão. A sociedade o verá, sendo otimista, como um coitado, digno de pena, pois “trabalha muito e ganha pouco”. Esta é a realidade do magistério. É isso que faz com que os jovens nem queiram entrar nele. E os poucos que entram, largam logo. E os que se formam, desistem em menos de 5 anos.
Penso no ridículo que seria uma bolsa dessas para um aluno de Direito ou Medicina. Ou nos efeitos inócuos dela para as taxas de desistência ou entrada nos cursos. O discente quer entrar e ficar nesses cursos. Não porque seja rico ou tenha uma vocação sacerdotal por eles. É porque a profissão dá dinheiro, como se diz em termos populares.
Bolsas e auxílios são bons, é inegável. O problema é que não afetará o problema, que é a quase nenhuma atratividade da profissão, tanto em questões financeiras como de status. Sem mexer na profissão e nas suas perspectivas de ganho e de respeitabilidade, pouco mudará e não serão bolsas que mexerão nesse anunciado “apagão” do magistério.
Afinal, corremos o risco de o aluno pegar essa poupança e usá-la para pagar um curso de Direito em alguma faculdade particular. Não duvido que esse dinheiro possa acabar nessa finalidade…