Donald Trump está promovendo uma caça aos imigrantes indocumentados, mas não só a eles. No seu próprio território está acontecendo uma perseguição semelhante, desta vez contra aquele que é um dos maiores patrimônios estadunidenses, e que é um dos responsáveis pelos EUA serem o país livre e democrático que são (ou que eram): as suas universidades.
É sabido que boa parte das universidades estadunidenses são instituições de ponta, farol do mundo em boa parte da pesquisa que se realiza em todos os ramos da ciência e do pensamento.
Trata-se de um ataque interno, vindo deliberadamente do governo Trump, ameaçando as universidades de cortes bilionários nos seus financiamentos (sim, as universidades estadunidenses são financiadas em boa medida pelo Estado) se elas não se adequarem a exigências francamente autoritárias.
Segundo reportagem da DWBrasil, em fevereiro, o Departamento de Educação, equivalente ao nosso ministério, enviou uma carta às universidades exigindo que elas encerrassem seus programas de diversidade, como as cotas. Ainda segundo a reportagem, funcionários foram ordenados a delatar colegas que promovessem a diversidade. Do contrário, seriam punidos.
A matéria afirma ainda que cerca de cem instituições de ensino superior foram investigadas por supostamente promoverem discriminação e antissemitismo, apenas porque elas abrigaram protestos contra o massacre que Israel tem promovido contra os palestinos de Gaza.
A Universidade de Columbia, em Nova York, segundo a mesma reportagem da DWBrasil, sofreu um corte de USD 400 milhões por ter sido o epicentro das manifestações pró-palestinos, que depois se espalharam pelo país. Para recuperar o financiamento, a instituição adotou uma série de reformas, entre elas, uma revisão do currículo sobre Oriente Médio.
Também as universidades de Johns Hopkins e da Pensilvânia passaram por cortes na casa das centenas de milhões de dólares: USD 800 milhões naquela e USD 175 milhões nesta. A razão? A inscrição de uma nadadora trans em sua equipe de natação, no caso desta última. Já a Universidade de Princeton perdeu o equivalente a USD 210 milhões em bolsas de estudos.
Entre as exigências do governo Trump estão: o fim de programas de inclusão, mudanças nas regras de contratação de professores e de admissão de estudantes, além da proibição do uso de máscaras, normalmente utilizadas por estudantes em manifestações pró-palestinos. A intenção é facilitar o reconhecimento dos manifestantes e puni-los pela participação nos protestos.
Os Estados Unidos travam uma guerra também contra a liberdade de cátedra – a liberdade que o professor tem de ensinar o que quiser, como quiser nas suas disciplinas e de pesquisar o que quiser – e contra estudantes estrangeiros, que têm sido presos, ameaçados, e tido seus vistos recusados ou mesmo cassados. O que fez das universidades norte-americanas as mais plurais e democráticas do mundo está gravemente em risco. Trump é certamente a maior ameaça que essas instituições já vivenciaram.
Em tweet de 10 de março, Donald Trump afirmou que a prisão de um estudante de pós-graduação palestino e ativista pró-Palestina da Universidade de Columbia, Mahmoud Khalil, seria a “primeira de muitas que estão por vir”. O fato de protestarem contra a guerra de Israel em Gaza faz com que esses estudantes sejam taxados pelo governo de “pró-terroristas, antissemitas e antiamericanos”, algo que o governo “não irá tolerar”. O tweet diz ainda que “nós encontraremos, apreenderemos e deportaremos esses simpatizantes terroristas do nosso país, para que eles nunca mais voltem”. Aqui, Trump claramente comete a falácia de tomar manifestantes por apoiadores do terrorismo e como uma ameaça à nação.
Outra estudante que sofreu por expressar seu pensamento foi a doutoranda turca Rumeysa Ozturk, detida enquanto andava na calçada, em 25 de março, por seis agentes da Imigração (ICE). No ano passado, ela foi uma das autoras de um artigo no jornal dos estudantes Universidade de Tufts, Massachusetts, que defendia que sua instituição cortasse relações com Israel, devido à guerra em Gaza. Percebe-se que a estudante já estava sendo monitorada pela administração Trump. Seu visto foi revogado, assim como o visto de mais de 300 estudantes, dentro da mesma prática de retirar de cena todos os que pensam contrariamente ao governo atual.
A instituição da censura nas universidades já seria o suficiente para deixar a todos nós perplexos. Afinal, como o livre pensamento terá lugar se não se pode mais fazer protestos nas universidades? Se os conteúdos que podem ser estudados e pesquisados são estabelecidos de antemão pelo governante de plantão? O que se exige é um alinhamento total das universidades às posições políticas e ideológicas de Trump. Não há mais lugar para a crítica e para a reflexão.
Em carta à Casa Branca, o presidente (equivalente a reitor) da Universidade de Harvard, Alan Garber, disse que a instituição não vai abrir mão de sua independência ou abandonar seus direitos constitucionais. Disse ainda que as afirmações de poder de Trump não estão ancoradas na lei, e que não será aceito o controle do que se ensina e se aprende na universidade, bem como que se dite como ela deve funcionar. Disse ainda: “liberdade de pensamento e de investigação, juntamente com o compromisso duradouro do governo de respeitá-la e protegê-la, permitiu que as universidades contribuíssem de forma vital para uma sociedade livre e para vidas mais saudáveis e mais prósperas para as pessoas em toda parte. Todos nós compartilhamos o envolvimento em salvaguardar essa liberdade”. Segundo Garber, as medidas impostas pelo governo Trump violam a Primeira Emenda da Constituição americana, que garante direitos civis fundamentais, como liberdade religiosa, de imprensa, de associação e de expressão. Harvard teve mais de USD 2 bilhões congelados pelo equivalente ao ministério da educação dos Estados Unidos por rejeitar cumprir as exigências impostas. E pode passar a ser considerada entidade política, o que aumentaria consideravelmente a carga de impostos federais a incidir sobre a instituição.
Harvard pôde rejeitar o acordo proposto por Trump, isto é, de cumprimento das novas regras em troca de financiamento, mas o mesmo não se deu com as outras universidades.
Uma das consequências do cerco trumpista contra as universidades é a fuga de cérebros, como aconteceu com Jason Stanley, um importante pesquisador na área de ciência política, autor de Como o funciona o Fascismo, da Universidade de Yale, uma das mais prestigiosas do país. Ele mudou-se para o Canadá por querer que seus filhos cresçam em um país livre.
Um país verdadeiramente livre não pode decidir o que se faz em uma universidade. Estas instituições precisam ser autônomas e autogeridas. O que a administração Trump está levando a cabo ultrapassa legalmente as atribuições de qualquer autoridade política. Sim, há limites para o que um governo pode fazer. Na verdade, o que governos autoritários temem, sobretudo, é a formação de uma elite cultural e intelectual capaz de oferecer resistência a medidas arbitrárias como essas que mencionamos aqui.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que “muitos americanos se perguntam por que seus impostos estão indo para estas universidades quando elas estão não apenas doutrinando nossos estudantes, mas permitindo que comportamentos chocantes e ilegais ocorram”. Já vimos discurso parecido com esse no governo Bolsonaro, e até hoje propagado pelo Movimento Brasil Livre (MBL).
Os Estados Unidos, por seu poderio, têm muita influência em como o mundo todo se organiza. Se eles fizeram tudo isso contra as universidades lá, é bem provável que algo semelhante aconteça aqui conosco a depender de quem venham a ser os próximos governantes.
No meu próximo artigo, vou tratar de forma mais específica de quão autoritárias são essas exigências impostas sobre as universidades, e como o governo Trump se auto incumbiu de uma verdadeira reforma cultural e do Estado, posto que não foram apenas nas universidades que intervenções profundas têm sido feitas. Também nas escolas, bibliotecas e na burocracia pública. Mas isto fica para o mês que vem.
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