domingo, 27 de setembro de 2026

Super-Homem está envenenando as crianças, dizem nazistas irados

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Historiadora formada pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), tradutora, criadora da página @behindherglasses_ no Instagram e escritora sobre arte, cultura e história

Em junho de 1940, o jornal United Press publicou uma nota curiosa: “Super-Homem está envenenando as crianças, dizem nazistas irados”. A matéria descrevia como a Alemanha nazista havia denunciado o personagem recém-popularizado por Jerry Siegel e Joe Shuster como propaganda degenerada, corrosiva para a juventude e perigosa para o equilíbrio moral do Ocidente. O Super-Homem, diziam, era parte de um complô judaico para destruir os valores alemães.

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Não deixa de ser reconfortante, portanto, constatar que, 85 anos depois, o Super-Homem continua provocando reações semelhantes — embora agora os berros venham embalados em thumbnails do YouTube e tweets em capslock. O novo filme do personagem, dirigido por James Gunn e lançado em 2025, parece ter ressuscitado os temores da extrema-direita com uma eficácia quase profética. Talvez seja o caso de checar a casa de Gunn para verificar se ele, por acaso, não tem uma bola de cristal jogada por aí. Afinal, o filme foi escrito antes das deportações em massa de imigrantes ordenadas pelo segundo governo Trump, antes da ICE se tornar oficialmente um aparato de perseguição paramilitar com orçamento secreto, antes da criação da Alligator Alcatraz — uma prisão flutuante com selo de aprovação da ala libertária do governo — e antes da consolidação do envolvimento direto de Elon Musk no Executivo americano. Mas assistindo, é de se pensar que foi baseada no jornal de ontem.

É sempre divertido assistir à confusão de quem esperava um filme “neutro”. Como se o Super-Homem alguma vez tivesse sido.

Um imigrante no Kansas

Quando apareceu pela primeira vez nas páginas da Action Comics, em 1938, o Super-Homem não era apenas um homem capaz de erguer automóveis e correr mais rápido que uma locomotiva. Kal-El é um bebê enviado de um planeta em colapso, adotado por um casal de agricultores no Kansas, criado com valores locais, mas irremediavelmente estrangeiro. Era um imigrante. Um órfão de um planeta destruído, educado sob o credo do trabalho duro e da decência americana — mas sempre, sempre um forasteiro. Um sujeito que via o mundo de fora. Que existia à margem. Que sabia o que era ser visto como ameaça.

A metáfora é clara. E era mais clara ainda às vésperas da Segunda Guerra Mundial, quando a Europa explodia em ódio racial, leis eugenistas e fronteiras fechadas. Jerry Siegel, filho de imigrantes judeus da Lituânia, não escondia que havia construído seu herói como uma fantasia contra o que via crescer ao seu redor: nazismo, racismo, militarismo, ganância. O Super-Homem das primeiras edições enfrentava juízes corruptos, industriais exploradores e políticos autoritários. Antes de voar, ele pulava muros. Antes de salvar o mundo, ele batia em homens engravatados, quase um Robin Hood alienígena.

Durante muito tempo, a indústria do entretenimento tentou fazer com que esquecêssemos disso. Transformaram o último filho de Krypton em mascote do status quo: defensor da ordem, soldado de presidentes, símbolo de um patriotismo pasteurizado, neutro, inofensivo. Mas, como a história mostra repetidas vezes, todo esforço para despolitizar ícones termina fracassando no momento em que o mundo real irrompe pelas frestas. O filme de 2025 retoma, corajosamente, a versão original: a do imigrante órfão, indesejado, que se recusa a virar as costas para os outros. Em um mundo obcecado por deportações, com campos de detenção funcionando em silêncio nos desertos do Arizona, o Super-Homem volta a lembrar que, sim, o herói é um alienígena (palavra essa, por sinal, usada comumente nos Estados Unidos para se referir à imigrantes, na forma do infame “illegal alien” repetido à exaustão por uma certa figura com particular predileção pela cor laranja e sua turba de papagaios). E, por extensão, que o inimigo é quem tenta arrancar isso dele.

Lex Elon Luthor

A nova versão de Lex Luthor é talvez a escolha mais acertada do filme. Luthor já foi cientista, industrial, político. Em 2025, ele é um bilionário da Big Tech, CEO de múltiplas plataformas de comunicação, com acesso a bancos de dados biométricos, redes de desinformação e um exército de bots. É uma figura carismática, performática, que manipula multidões com frases de efeito em lives e tem como plano de contenção para um desastre natural entrar em uma nave e sair voando para um lugar seguro. A inspiração, neste ponto, não exige grandes exercícios de interpretação. O personagem é Elon Musk sem disfarces — com direito a foguetes, raves e uma noção inexistente de moralidade. Ele até chega a prender a ex-mulher, algo que parece fazer referência ao relacionamento complicado de Musk com algumas de suas próprias ex, como a cantora Grimmes.

Não é só uma provocação visual. É uma crítica ao papel da tecnologia na destruição do espaço público, na corrosão do discurso, na manipulação da realidade objetiva. Em uma das cenas mais comentadas do filme, Luthor afirma que “o mundo está cheio de alienígenas disfarçados de heróis” e que “precisamos usar a verdade como arma antes que eles a usem contra nós”. A fala ecoa conspirações reais. QAnon, Fox News, Reddit. Verdades alternativas, deepfakes, “liberdade de expressão” como eufemismo para propaganda extremista.

Prisões que flutuam

Uma das polêmicas invenções do novo governo americano é a Alligator Alcatraz — uma prisão na Flórida cercada por 30.000 jacarés e outras tantas cobras píton, onde imigrantes são detidos em condições sub-humanas que já atraíram processos de várias entidades de defesa de direitos civis e humanos. James Gunn coloca uma instalação parecida no filme. Lá, aliens, mutantes e “ameaças emergentes” são mantidos fora do radar, em nome da paz. Eles são separados de seus filhos. Alguns, executados sumariamente. Uma ex-namorada de Lex Luthor está lá (hello, Grimmes!). O sistema, claro, é terceirizado.

Mais do que um detalhe de worldbuilding, é uma crítica direta ao complexo industrial do encarceramento, à militarização das agências de segurança e à normalização da exceção. As cenas lembram reportagens recentes da ProPublica e do Intercept, mas também cenas reais de 2003, 2019, 2024. A diferença é que agora o público parece menos inclinado a se escandalizar.

Super-Heróis e superpotências:

Pessoalmente, as partes do filme que mais me emocionaram foram parte de uma trama paralela envolvendo um território (claramente caracterizado como sendo no Oriente Médio, embora não fique explícito) colonizado por uma potência tecnomilitar, que usa a justificativa da segurança para manter um povo sob vigilância constante, privá-lo de mobilidade, isolá-lo, vigiá-lo, bombardeá-lo. Lex Luthor está financiando o presidente do país invasor. O governo americano fala em não poder intervir nos conflitos de um país estrangeiro (metade da Ásia e boa parte da América Latina estão gargalhando desde o mês passado). A geografia, os muros, os drones: tudo é familiar.

O longa não menciona Israel nem Palestina. Não precisa. A evocação é direta. O Estado ocupante do filme constrói colônias, justifica ataques como “autodefesa preventiva”, controla recursos básicos e criminaliza qualquer forma de resistência. A linguagem da ocupação é exposta com precisão clínica: “eles se escondem entre civis”, “são ensinados desde pequenos a odiar”, “não são como nós”. As cenas de crianças pequenas pedindo que o super-homem as salve enquanto tanques da ocupação e milhares de soldados apontam suas armas e ameaçam uma invasão em um território protegido é particularmente tocante nos dias de hoje.

Ainda venenoso

O Super-Homem continua envenenando as crianças. Ao menos, esses são os termos utilizados pelos conservadores furiosos, colunistas indignados, influencers histéricos – nazistas irados? Em 1940, o regime nazista tinha medo de um personagem criado por dois jovens judeus. Hoje, a direita americana — e, por extensão, seus entusiastas mundo afora — sente o mesmo calafrio. E por muito menos – ao contrário dos quadrinhos dos anos 40, a versão de Gunn não cita nomes. O Kal-El de 2025 (ainda) não arrastou Trump, Musk, Netanyahu e Cia. pelo pescoço para um julgamento em Geneva, como fez com Hitler e Stálin em 1940, num quadrinho chamado “Como Super-Homem acabaria com a guerra”. A identificação é totalmente simbólica – e, convenhamos, bilionários sociopatas, políticos autoritários e “gênios” megalomaníacos são o arroz-com-feijão dos “malvados” de quadrinhos de herói de qualquer forma. O Homem de Aço não está mais “woke” – nós só temos supervilões de verdade comandando o mundo agora.

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