Falar sobre mulheres que fizeram história no Brasil, em um breve artigo, foi tarefa difícil, principalmente decidir sobre quais falar com uma gama imensa de mulheres maravilhosas. Relembro mulheres significativas de diferentes áreas na história de nossa sociedade, do período colonial até os dias de hoje, dando visibilidade às menos conhecidas e trazendo algumas famosas que admiro. Tenho como referência as historiadoras: Maria Odila, Maria Beatriz Nascimento, Mary Del Priori e Paulo Rezzutti.
No início da colonização brasileira, as mulheres originárias dessa terra foram chamadas de índias devido ao fato de Cristóvão Colombo ter pensado que tinha chegado às Índias, quando na verdade estava nas Américas. Visíveis e invisíveis muitas dessas mulheres combateram junto aos homens nativos contra o domínio português, escravizadas, catequisadas, mas sem registros sobre suas histórias. As que ficaram mais conhecidas foram as que se casaram com homens brancos, entre elas: Bartira, indígena Tupiniquim batizada como Isabel Dias, filha do Cacique Tibiriçá que se casou com o português João Ramalho no século XVI, dando origem a uma das primeiras famílias de mamelucos do Brasil.
Entre as indígenas que lutaram contra os brancos colonizadores, sabemos de Ingaí Caeté que viveu no litoral de Pernambuco e morreu por volta de 1535, após ser aprisionada e na tentativa de ser estuprada, fugiu e se suicidou. Tabira, filha do cacique Tabajára Uirá Ubi, a princesa do Arco-Verde, ficou famosa por sua habilidade com o arco e flecha.
Além das mulheres originárias dessa terra, mulheres negras foram trazidas à força das terras africanas para serem escravizadas no Brasil, Aqualtune é uma delas, princesa Congolesa escravizada, que conseguiu se tornar líder Quilombola à frente do Quilombo dos Palmares, mãe do líder Ganga Zumba e avó de Zumbi dos Palmares, companheiro de Dandara, também liderança feminina no Quilombo. Tereza de Benguela governou o Quilombo do Piolho povoado por negros e indígenas no Mato Grosso. Quando os brancos invadiram o Quilombo, Tereza se suicidou para não ser escravizada. Outra líder negra foi Maria Felipa que nasceu na Ilha de Itaparica e liderou um numeroso grupo composto por mulheres negras e indígenas contra os portugueses no século XIX.
Ainda no século XIX, a baiana Maria Quitéria, órfão de mãe, foi criada pelo pai e aprendeu a montar, atirar e caçar, coisas não habituais para uma mulher na época. Em 6 de setembro de 1822, instalou-se a junta provisória do governo baiano contrário aos portugueses na região onde seu pai possuía fazenda. Enviados da junta foram às fazendas pedir auxílio de homens e munições para enfrentarem os portugueses. Maria, disse ao pai que queria se alistar, pois sabia montar e atirar, mas foi proibida. Porém, com a ajuda da irmã, cortou o cabelo, vestiu-se como homem, fugiu de casa e, se apresentou ao exército usando o nome de: “soldado Medeiros”, atuando na ala da artilharia. Seu pai conseguiu encontrá-la, mas não conseguiu que ela saísse do exército. Venceram, e foi recebida no Rio de Janeiro pelo Imperador Dom Pedro I, e por ele condecorada com a Imperial Ordem do Cruzeiro do Sul.
D. Leopoldina, foi figura importantíssima em nossa história, diminuída e desprezada, aguentou calada as traições públicas do marido D. Pedro I. Primeira mulher a participar da política brasileira em nível nacional e a governar diretamente o Brasil. Além de ser uma das principais articuladoras entre os grupos favoráveis à Independência, ela substituiu D. Pedro I, em sua ausência, primeiro como Princesa regente, depois já como Imperatriz regente. Educada para governar e dedicada aos estudos de ciências naturais, obtendo cada vez mais conhecimento sobre a fauna e a flora brasileira, difundindo-o, apoiando a criação de instituições científicas no Brasil. Muito antes do “Fico” de D. Pedro I, D. Leopoldina já havia tomado a decisão de ficar no Brasil. Ela percebeu que se saíssem do Brasil, perderiam o país para a casa de Bragança, convencendo o marido a permanecer, então a Independência foi proclamada em 1822.
Depois de D. Leopoldina, tivemos sua neta, a Princesa Isabel que foi a primeira mulher a assumir um lugar no senado, causando indignação por parte dos senadores. Desrespeitada por ser mulher, os políticos diziam que ela não sabia governar, que era burra, teimosa e nervosa. Na verdade Isabel havia sido educada para governar desde criança e sabia muito sobre política. Para difamá-la os homens diziam que quem dava as ordens por trás dela era seu marido francês, o Conde D’Eu, detestado pelos republicanos por ser um príncipe estrangeiro. A princesa foi regente do Império em três ocasiões, em que numa delas assinou a Lei Aurea declarando a extinção da escravidão no Brasil. A abolição gerou muitas controvérsias, de um lado, o fato de a Princesa não instituir nenhuma política pública de reparação histórica, e, de outro, o descontentamento por parte dos fazendeiros que perderam seus escravos e queriam ser ressarcidos pelo governo, acordo que Isabel não aceitou. Vítima de golpe militar, Isabel, junto com a monarquia brasileira, foi expulsa do País em 1889.
No período final do Império, surgiram mulheres feministas e abolicionistas, uma delas foi a educadora Nisia Floresta, que muito antes de Paulo Freire, já falava sobre uma educação libertadora e lutava pela implementação e garantia dos direitos das mulheres, em 1832 escreveu seu primeiro livro “Direito das Mulheres e Injustiça dos homens”.
Outra feminista e abolicionista, foi Chiquinha Gonzaga, que enfrentou diversas barreiras para se tornar a primeira maestrina do Brasil. Criticada pela sociedade da época por ter se separado, pois era absurdo uma mulher desquitada trabalhar, mesmo no mundo boêmio e musical, onde os músicos reconheciam sua criatividade e técnica. Chiquinha lutou pela defesa dos direitos autorais ao fundar junto com os colegas, a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT), concretizando o que considerava justo: receber uma parcela do que era arrecadado quando a música era levada à cena. Abraçou a causa abolicionista, vendendo suas partituras para arrecadar dinheiro para comprar alforrias, como no caso do músico escravo Zé da Flauta. Primeira mulher a escrever uma música de protesto contra o presidente Floriano Peixoto, conseguiu escapar da prisão por seu grande número de apoiadores.
Após a abolição, mulheres negras ganharam destaque no cenário musical, Tia Ciata foi uma das grandes damas da comunidade negra, mulher independente, sambista, mãe de santo e curandeira, considerada por muitos uma das figuras mais influentes para o surgimento do samba carioca. Em sua casa na Praça Onze, local de encontro de sambistas quando a prática ainda era proibida por lei, foi criado o primeiro samba gravado em disco: “Pelo telefone”.
Mulheres visionárias, como Tarsila do Amaral, que se divorciou após ter sido traída e decidiu se dedicar a arte, um escândalo na sociedade. Por sorte, teve apoio do pai, ajudando-a financeiramente, nada comum na época. Em 1913, Tarsila foi morar em São Paulo, iniciando os estudos em artes. Em 1917, conheceu a artista Anita Malfatti e suas obras, a partir de então Anita passou a influenciá-la, e Tarsila decidiu estudar em Paris. Após a Semana de Arte Moderna, Tarsila voltou ao Brasil, onde conheceu Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia, e junto com Anita, fundaram o Grupo dos Cinco. Oswald e Tarsila passaram a se relacionar e elevar cada vez mais o modernismo e o movimento antropófago no Brasil, valorizando a temática nacional. Assim, Tarsila se tornou a maior pintura do período, destacando-se com sua obra “Abaporu”. Tarsilinha, sua sobrinha, que cuida de seu legado, diz que a obra “Abaporu” seria um autorretrato feito por Tarsila diante de um espelho colocado no chão, por isso os pés da figura se destacam. O relacionamento entre Tarsila e Oswald terminou após ele se apaixonar por Patrícia Galvão, Pagu, feminista militante política no Partido Comunista Brasileiro, onde sofreu preconceito por ser mulher, foi a primeira presa política do país no século XX. Além disso, a primeira mulher a desenhar quadrinhos, e, uma das responsáveis pela introdução de sementes de soja na agricultura brasileira.
O reconhecimento internacional faz parte das mulheres do Brasil. Mesmo tendo nascido em Portugal, Carmen Miranda se considerava brasileira. Vivia na Lapa no Rio de Janeiro e frequentava as rodas de samba, cantando e compondo marchinhas de carnaval cantadas até hoje. Famosa pela música, logo foi chamada para o cinema, transformando-se na maior e mais bem paga celebridade da época, carismática, criava seus próprios figurinos e sapatos. Foi convidada para se apresentar na Broadway, se encaixava perfeitamente na política da boa vizinhança, iniciativa do presidente Franklin Rooseveltbuscando aproximação entre os Estados Unidos e os países latino-americanos. A propaganda do ditador Getúlio Vargas se aproveitou para vender a imagem de Carmen como difusora da nossa cultura fora do Brasil. Nos EUA fez muito sucesso, uma das atrizes mais bem pagas de Hollywood, seu talento foi explorado de forma intensa, e ela acabou se rendendo ao uso de anfetaminas e barbitúricos, o que aos poucos debilitou sua saúde. Sua última aparição foi em 1955 em um show em que ela teve tontura e caiu, logo se levantou e seguiu com o show, quando chegou em casa foi dormir e não acordou mais.
Entre cantoras que fizeram crítica à ditadura militar de 1964, temos Elis Regina, que participou de uma série de movimentos de renovação política e cultural brasileira, com voz ativa na campanha pela anistia de exilados brasileiros. Sua carreira foi marcada por uma postura engajada, interpretando canções como “O Bêbado e a Equilibrista”, considerada o hino da anistia ao aclamar a volta de personalidades brasileiras. Lutou pelos direitos dos músicos e artistas, participando de reuniões políticas em Brasília, se tornando presidente da Associação de Intérpretes e de Músicos.
Mulheres importantes na ciência, como Bertha Lutz uma das principais ativistas feministas, bióloga e educadora brasileira do século XX, a primeira mulher chefe do departamento de Botânica do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Na medicina, Nise da Silveira, mundialmente reconhecida por sua contribuição na psiquiatria ao revolucionar o tratamento mental no Brasil por meio da arte, afetividade, liberdade de expressão e internação de pacientes com animais de estimação. Chegou a trocar cartas com o psiquiatra alemão Carl Jung sobre estudos a respeito da esquizofrenia. Lutou incansavelmente contra os métodos manicomiais da época que incluíam eletrochoques, lobotomia, coma insulínico, o que para ela debilitava ainda mais os pacientes. Seu trabalho foi modelo para a renovação de movimentos psiquiátricos em outros países como na Europa.
Lélia González, pioneira do feminismo negro no Brasil, ativista, professora e antropóloga brasileira, é referência nos estudos de gênero, raça e classe na América Latina. Foi uma das primeiras mulheres a se dedicar as pesquisas sobre Cultura Negra no Brasil e fundadora do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras do Rio de Janeiro e do Movimento Negro Unificado, tendo como pauta a luta contra o racismo e sexismo.
No âmbito religioso, evidencio Irmã Dulce, que foi canonizada santa pela Igreja Católica em 2019, “Santa Dulce dos Pobres”, ela se destacou por suas obras de caridade e de assistência aos pobres e necessitados, que desenvolvia desde muito jovem, quando morava com seus pais ela já acolhia doentes em sua casa.
Aludo Cora Coralina, um exemplo de que nunca é tarde para realizarmos nossos sonhos, mulher humilde, trabalhava como doceira e teve seu primeiro livro publicado aos 76 anos “Poemas dos Becos e Estórias Mais”, viveu sua vida no interior de Goiás, sem influência de grandes vanguardas, escrevia sobre o cotidiano interiorano destacando sua simplicidade e beleza. Outro destaque na literatura que nos faz acreditar que sonhos são possíveis, é a escritora afro-brasileira Conceição Evaristo, mulher de família pobre, a segunda de dez filhos, saiu da favela do Pendura Saia em Belo Horizonte, e se tornou destaque com uma carreira acadêmica consolidada, com foco em literatura comparada, além disso, escreveu literatura dos mais diversos gêneros: ensaio, romance, poesia e conto, publicados no Brasil e fora dele.
Mulher indígena na atualidade, vou reverenciar a maior liderança Amazônida que vem ganhando destaque no Brasil e no mundo, Vanda Witoto, ministrando palestras sobre a floresta Amazônica e seu empreendedorismo sustentável. Ativista pelos direitos das mulheres indígenas e ambientais, ficou conhecida internacionalmente durante a pandemia do coronavírus, tornando-se símbolo na luta contra a Covid-19, foi a primeira mulher indígena a se vacinar, e como técnica de enfermagem ajudou salvando vidas em sua comunidade Parque das Tribos, território indígena urbano socialmente vulnerável em Manaus. Fundadora do Instituto Witoto, uma organização liderada por mulheres, que atua pelo fortalecimento das identidades dos povos indígenas e promoção do acesso aos seus direitos fundamentais através de projetos sociais. Além disso, é empreendedora da marca Derequine (formiga brava) com a produção de acessórios feitos com materiais naturais (as biojóias), roupas e bolsas com tecidos sustentáveis e pintadas com grafismos indígenas que contam a história de seu povo, feitos à mão, o que torna as peças exclusivas.
Chegamos em Dilma Roussef, primeira e única presidenta do Brasil, mulher injustiçada por uma corja de homens corruptos da política. Economista, foi chefe do Ministério de Minas e Energia e posteriormente da Casa Civil durante o governo Lula. Devido a sua grande competência, gerando crescimento significativo nas áreas em que atuou, foi indicada para a eleição como presidente em 2010, vencendo, o que se repetiu em 2014. Diziam que quem governava por trás dela era o Lula. Chamada de louca, teimosa e nervosa, com muitas entrevistas difundidas fora de contexto, endossando essas críticas. Uma mulher que sobreviveu à ditadura, foi torturada diversas vezes, mas não entregou seus companheiros, pois mantinha sua postura ética. Não aceitou o esquema de corrupção dos homens da política, então foi armado para que ela fosse considerada a corrupta. Com fake News e apoio popular de uma direita extremista que crescia no Brasil conseguiram o impeachment de Dilma, derrubando-a, mas ela não se deixou vencer, mais tarde conseguiu ser absolvida das acusações, infelizmente perdemos uma grande líder.
E quem matou Marielle Franco? Descobriram mesmo? O que essa mulher silenciada para sempre sabia de tão importante a ponto de ser assassinada brutalmente? Será verdade o que dizem?! Feminista, socióloga, ativista dos direitos humanos, denunciava os abusos militares nas comunidades carentes do Rio de Janeiro, sem medo dos truculentos militares lutou até o fim de seus dias por uma sociedade brasileira mais justa, e enquanto pôde nunca se calou. Marielle e todas as mulheres aqui referenciadas não serão esquecidas! Vamos desvendando a verdade e derrubando a história escrita por homens poderosos que decidem o que e como contar.
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