O que ainda se pode fazer com Roma? O que o audiovisual ainda pode extrair de novo, ou ao menos de funcional, do corpo exausto do mais influente império da História como fantasia visual? Inúmeras produções magníficas (e outras muitas não tão boas assim) sobre o tema já agraciaram o cinema: Ben-Hur, de 1959, contando a história da criação do cristianismo e cheio de escravos, beduínos e quadrigas no Circo Máximo, é sem sombra de dúvida um dos mais icônicos filmes já feitos; A Queda do Império Romano, de 1964, com um elenco brilhante composto por Stephen Boyd, Alec Guiness, Sophia Loren, James Mason, Omar Shariff e um Christopher Plummer fantástico no papel de Cômodo, é um épico de imensas proporções; Gladiador, seu sucessor espiritual do ano 2000, com sua trilha sonora e falas reconhecíveis no mundo inteiro, é o épico imbatível de sua geração, contra o qual todos os filmes do gênero são hoje comparados. Na televisão, a HBO encontrou imenso sucesso com Roma, uma série de duas temporadas e excelentes críticas que, em 2005, já prenunciava a era da televisão épica, enquanto Spartacus, de 2010, também encontrou seu lugar e conquistou aprovação crítica na Starz.
No ano passado, Gladiador II tentou voltar ao tema – sem sucesso. Embora tenha feito algum sucesso inicial, o filme é esquecível e foi largamente decepcionante para fãs do icônico original. Não é surpreendente que já quase não se fale dele: apostar que a nostalgia de paleta sépia, câmeras lentas, discursos graves e uma coleção de clichês pouco relacionados jogados numa tela em rápida sucessão e sem preocupação com conexões que façam sentido pode ser suficiente para esconder a falta de substância de um roteiro mal pensado foi uma estratégia menos que brilhante. Eis a glória de Roma. Vocês não estão entretidos?
Mas há esperança para os que esperam, e esse ano outra produção – inspirada no mesmo livro que deu origem a Gladiador, Those About to Die, de Daniel P. Mannix, publicado em 1958 – chegou ao streaming. A série Those About to Die – traduzida no Brasil como Aqueles Prestes a Morrer, agora disponível no Prime Video – é um colírio muito bem-vindo para quem ainda não conseguiu esquecer aqueles macacos mutantes vindos direto do nono círculo do inferno do CGI que lutaram contra Paul Mescal ano passado, e uma excelente opção para quem anda com saudade da excelente Roma da HBO.
O criador é Roland Emmerich, conhecido por destruir o planeta de tempos em tempos no cinema, e que aqui opera num tom muito mais disciplinado do que seria de esperar – e que lhe cai muito bem. Não há tsunamis nem explosões (há a explosão do Vesúvio, mas ela é bastante contida, em termos cinematográficos), mas há colapsos. E há Anthony Hopkins como um Vespasiano apático (no melhor dos sentidos – Hopkins é sempre brilhante) e um elenco excelente de personagens reais (o imperador Tito, o futuro imperador Domiciano, a rainha Berenice da Judéia) e ficcionais (Tennax, um tipo de gângster ambicioso, mas com bom coração, subindo na vida de maneira rápida e perigosa; três irmãos espanhóis criadores de cavalos que sonham em correr no Circo Máximo; uma miríade de aristocratas romanos, representados firmemente pela traiçoeira Antônia; Cala, uma mulher forte e inteligente tentando comprar a liberdade de suas filhas escravizadas, Aura e Jula, e de seu filho transformado em Gladiador, Kwame, cuja ascensão para a fama na arena é rápida e cheia de reviravoltas) interpretado por um elenco igualmente excelente de atores muito bem escolhidos para seus papéis.
A série não tem protagonistas no sentido convencional, funcionando mais como um Game of Thrones versão romana, cheia de pequenos núcleos de personagens que se interconectam, e essa ausência é menos ousadia do que consequência lógica. Não há figura moral a ser redimida, não há gladiador em busca de vingança suprema, não há arco heroico em andamento. Há um sistema, um ecossistema de corpos, classes, cifras, ambição, violência e brutalidade que mantém em funcionamento um grande projeto: Roma como a casa da ambição, o lugar onde tudo é possível.
Ambição e possibilidades, de fato, são o tema da série, mas não de forma romantizada. A ideia geral é que todos os personagens querem – ou pelo menos acabam querendo – chegar em lugares muito mais elevados do que aqueles de onde saíram, de uma maneira ou de outra. Vespasiano, vindo de uma família de criadores de mulas, se tornou imperador; agora seu filho Tito precisa consolidar a dinastia, enquanto seu outro filho, Domiciano, não se contenta em ser o irmão secundário e quer poder e respeito a qualquer preço. Tennax, que veio da pobreza abjeta, sobe na vida através de negócios escusos e está tentando comprar seu caminho para a aristocracia – uma representação dos novos ricos que começam a questionar a ordem patrícia. Os três irmãos espanhóis, simples criadores de cavalos, perseguem fama e sucesso nas pistas do Circo Máximo, enquanto Kwame, antes um caçador de leões numa tribo africana, se torna a nova sensação do recém-inaugurado Coliseu. As irmãs Aura e Jula querem descobrir as oportunidades que Roma pode oferecer a duas garotas das províncias mais longínquas desse vasto império, enquanto sua mãe, Cala, rapidamente se torna o braço direito de Tenax, controlando seu imenso negócio de apostas. Em Roma, a série postula, todos podem ser o que quiserem – mas o preço a se pagar é alto e sangrento, e pessoas serão pisoteadas pelo caminho.
Em Those About to Die, Roma é apresentada como um projeto logístico, não como um ideal. O Coliseu — que é o centro literal e simbólico da série, cuja primeira temporada é centrada em sua criação e inauguração — aparece menos como arena de glória do que como engrenagem de uma economia política que se sustenta sobre espetáculo, cadáveres e, sobretudo, sobre a população de Roma. O foco nesse aspecto – no poder das massas e na necessidade de aplacá-las, e sobretudo na ascensão de membros do “populacho” romano a posições de poder e influência nas mais diversas esferas, enquanto a aristocracia tradicional cai – é um elemento fundamental da construção do seriado. Cada episódio escava mais um pouco o subterrâneo do Império, mas não para buscar metáforas ocultas – é esse o ponto, e ele é visível.
A estrutura é fragmentada, os núcleos se sobrepõem e se entrelaçam aos poucos, sem hierarquia. Há famílias aristocráticas em guerra informal por contratos e influência, há gladiadores comprados e revendidos como ativos, há imigrantes africanos que importam novas formas de aposta, negócios e violência e imigrantes espanhóis que trazem consigo cavalos e técnicas de corrida, há o submundo dos agenciadores, dos treinadores, dos curadores de morte. A série poderia cair na dispersão, e em certos momentos quase cai, mas sustenta sua coerência pela consistência de seu olhar: não há redenção a caminho, só adaptação, ambição e uma vontade desesperada de sair por cima e chegar ao topo, muitas vezes cavando o caminho com as próprias unhas.
O que mais chama atenção, porém, é o modo como Those About to Die lida com o próprio conceito de espetáculo. A série não está muito interessada na glória do combate. As cenas de luta e corrida não são particularmente frequentes, sobretudo tendo em vista a temática da obra, e são rápidas e nunca particularmente gloriosas quando aparecem. A trilha sonora – muito boa, por sinal; composição de Andrea Farri, que se destaca em peças como Citizens of Rome e Caput Mundi –, que é tradicionalmente um dos principais elementos de cenas de Coliseu ou Circo Máximo, reserva seus momentos épicos não para qualquer cena de batalha, mas para momentos de espetáculo político – como a entrada do imperador em seu camarote. O camarote da família real, por sinal, é um dos principais focos de toda cena de luta, e a dimensão política das corridas e batalhas é com frequência digna de mais ênfase que as tais corridas e batalhas. Os ferimentos são visíveis, feios e desagradáveis (eu nunca mais preciso ver três minutos de cena focadas em um osso exposto. Realmente não preciso). Não há câmera lenta em combate, nem coreografias ritualísticas. As mortes são rápidas, feias, desorganizadas. As lutas lembram brigas de rua. As pessoas sobrevivem às lutas – uma jovem comenta que seu primo é gladiador há três anos, tendo se voluntariado, e que prefere a vida com comida, abrigo e o respeito de seus pares do que a pobreza em que vivia antes. A arena é de fato arena política, cenário de ambições – da realeza e da população – e lugar para oportunidades, não questão de honra.
Essa decisão formal é também uma decisão ideológica. A violência em Those About to Die é uma função política, econômica e social: é o motor de um ecossistema de apostas, concessões, contratos, treinamentos, castigos e promoções. Apesar de, em teoria, ser um grande evento – é a inauguração do Anfiteatro Flaviano! –, elas acontecem todo dia por cem dias (foi o caso na vida real, também). Isso dá mais de três meses. Não é exatamente um grande momento de excepcionalidade. Inclusive, o imperador está sempre por lá. Não se trata necessariamente de mostrar que Roma era brutal – embora a série faça questão de que você saiba disso –, mas de retratar a brutalidade como tecnologia de governo: a política está toda embutida nos contratos dos jogos, na logística dos torneios, na engenharia das arquibancadas.
Anthony Hopkins interpreta um Vespasiano idoso, cansado, mas muito inteligente, e capaz de olhar com justiça e frieza para ambos os filhos. Seu imperador é alguém que já entendeu que tudo é processo, e que o poder efetivo – provavelmente, se alguém fosse perguntar, a palavra favorita do verdadeiro imperador Vespasiano, um general com imensa capacidade administrativa e uma questão com impostos (se algum dia na vida você já ouviu a palavra italiana para “banheiro público” – dica, é vespasiano, plural vespasiani -, saiba que é porque ele mandou taxar a urina) e que mesmo assim conseguiu ser imensamente popular em vida – reside menos em ter controle total de tudo, e mais em ter uma máquina tão funcional que a delegação é possível e que a saída de cena do imperador – para se tornar deus, uma forma interessante que Vespasiano tinha de se referir à própria morte – e transição de poder possa acontecer sem que nada pare de funcionar. Sua atuação é econômica, seca, deliberadamente esvaziada de emoção. Vespasiano quer garantir que a máquina continue em movimento. É uma performance silenciosa sobre um tipo muito específico de autoridade: a que já venceu, e por isso pode se dar ao luxo de não parecer grandiosa.
Mas a série não gira em torno dele, embora seu nome seja um grande ponto de venda. O interesse está nos intermediários: os que constroem a manutenção diária da ordem. O administrador dos jogos. O agente de gladiadores. A sacerdotisa que tenta negociar suas margens de poder. O senador que aposta no coliseu. Os amantes, homens e mulheres, da família real. Os escravos, os mensageiros, as crianças órfãs que correm pelas ruas. Those About to Die tem interesse nos operadores; gente que aprendeu a se mover num mundo onde o que importa é a posição que você ocupa na cadeia de transferência de dano.
Há momentos em que a série parece se perder de si. Alguns episódios intermediários arrastam subtramas que demoram a se conectar; certas decisões de roteiro soam menos como efeito narrativo do que como tentativas de esticar arcos, e ter tantos personagens às vezes faz com que alguns pareçam um tanto quanto desnecessários – eu ficaria feliz em cortar um irmão espanhol aqui, uma aristocrata empobrecida ali, uma das meninas escravizadas acolá, talvez um vilão ou corredor que morre pelo meio, e não acho que a série mudaria muito por isso. Há redundâncias. Há personagens que aparecem e somem. Duas ou três linhas narrativas em particular não tiveram grande impacto e foram escritas de maneira claramente apressada, e claramente visando dar algo para certos personagens fazerem e adicionar conflito.
Uma crítica que faço em particular é a relutância da série em dar mais espaço ao drama da família real. É compreensível, por um lado – Those About to Die tenta deixar sua atenção em personagens “comuns” o quanto pode, e isso combina muito bem com o ethos da série – mas há muita coisa para ser explorada na dinastia flaviana, com Tito, imperador tão bem-amado por seu povo que foi imortalizado na história através do apelido de “alegria e deleite da raça humana”, e Domiciano, ambicioso e devasso, mas um político extremamente competente que sucedeu seu irmão, e a série não se aproveita dessas facetas tanto quanto poderia, especialmente tendo Tom Hughes e Jojo Macari, dois atores que fazem tão bem seus papéis, interpretando os irmãos.
As tais linhas narrativas supérfluas, e até um pouco mal feitas, que visivelmente tinham a intenção de manter o foco do conflito nos personagens das camadas mais baixas da hierarquia romana, poderiam facilmente ter sido cortadas em função de mais atenção às questões imperiais, sem que seus excelentes personagens do “submundo” de Roma se tornassem menos importantes por isso. Passou-se muito rápido pela erupção do Vesúvio, fato importantíssimo do governo de Tito, por exemplo – mais foco nisso, ou no relacionamento conturbado dos dois irmãos, teria sido mais efetivo, especialmente se devemos nos importar com a eventual morte de Tito (cujo reinado foi curtíssimo, de menos de três anos) mais para a frente.
Visualmente, a série faz escolhas inteligentes. O design de produção evita tanto o CGI ostensivo quanto a cenografia de museu. Roma é apresentada como densa, suja, desorganizada, polifônica. As ruas têm cheiro. Os mercados são labirínticos. Os interiores são escuros, de pedra e madeira, com luz natural filtrada. Os cenários são reconhecíveis, não são muitos, e talvez exatamente por isso possam ter sido tão bem feitos em um orçamento de televisão – embora este seja robusto: a série é a mais cara série independente europeia já produzida.
O figurino, muito bem feito, é historicamente adequado, tem cores – se eu for forçada a assistir outro filme de Roma em que tudo e todos usam branco, marrom e bege… – e texturas, e, acima de tudo, tem uma grande vantagem que está faltando nas produções de época de hoje: todos parecem ter vivido dentro das próprias roupas (exceto talvez Tito e Vespasiano, mas, veja bem, são dois imperadores). Um dos grandes problemas dos departamentos de figurino atuais é que todas as roupas parecem ter acabado de sair da caixa: isso empobrece visualmente uma série ou filme ao ponto de, sem qualquer outra ajuda, arrastar a percepção de valor visual para baixo de tal forma que a produção inteira fica com cara de barata (inclusive, de muito mais barata do que foi) e infantil. Mais um ponto para excelente uso de orçamento: ninguém poderia acusar Those About to Die desse pecado particular.
A série acerta ainda em algo que muitos épicos contemporâneos evitam: a recusa da nostalgia. Não há em Those About to Die qualquer sugestão de que o Império era melhor antes, ou de que havia uma moralidade perdida a ser recuperada. Não há ideal romano. Não há saudade da república, nem desejo de reforma saudosista para o período mais justo antes desse momento em particular no império – pelo contrário, a ideia geral é que os Flávios, ascendendo do povo, são bastante razoáveis em comparação aos seus predecessores mais nobres da dinastia dos Júlios – como Domiciano enfatiza em um discurso sobre metais – e que o caminho de esperança está no futuro, e não num retorno ao passado. Nesse sentido, Those About to Die oferece um retrato de Roma mais próximo da lógica de uma corporação do que de uma civilização. É uma empresa de controle social com fachada de grandeza e engrenagens que precisam ser muito bem conectadas. E se isso soa familiar, é porque a série não está interessada em Roma como passado. Está interessada em Roma como estrutura e, portanto, como presente.
Se você, como eu, ama Gladiador, aviso: o espírito dos dois não poderia ser mais diferente. Entretanto, Those About to Die ainda vale a pena ser assistida, mesmo por aqueles que, mais uma vez, como eu, gostam do heroísmo e da honra de Maximus, simplesmente por ser boa. É uma boa série, com um bom roteiro, e que, como Gladiador, traz uma perspectiva interessante, com personagens interessantes, bons figurinos, bons visuais e uma história bem pensada, sobre um período interessantíssimo da história humana e as pessoas que viviam nele. Haverá muitas coisas familiares – o pretendente a imperador político e ambicioso que se opõe ao soldado mais digno, a amizade entre gladiadores, a vontade de reunir a família e voltar para casa, as lutas contra animais selvagens na arena, e até mesmo aquele hábito de Maximus de pegar areia do chão – que com certeza você poderá identificar e aproveitar.
Não existe repetição de Gladiador – há certos filmes que não podem ser reproduzidos em espírito. Portanto, Those About to Die oferece algo diferente. Para quem se frustrou com Gladiador II, que tenta desesperadamente ser seu antecessor, e falha, o contraste é quase didático. Aqui, a proposta é o oposto: não há curso a corrigir, porque não há curso, só fluxo. Os homens, quando muito, aprendem a nadar nele. Ou afundam.