domingo, 27 de setembro de 2026

Sem anistia - filmes que confrontam a impunidade e a injustiça

COMPARTILHE
Historiadora formada pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), tradutora, criadora da página @behindherglasses_ no Instagram e escritora sobre arte, cultura e história

Em muitos casos, as piores violências não desaparecem: apenas trocam de nome, de tom ou de rosto. Golpes viram “movimentos”, torturadores convertem-se em “agentes do Estado” e a justiça toma o nome de “pacificação”. Sintomas do esquecimento como política de Estado.

Mas o cinema, quando não serve ao esquecimento, pode servir à memória. Ao longo das últimas décadas, diretores em diversas partes do mundo filmaram histórias inspiradas naquilo que os tribunais recusaram julgar, o que arquivos esconderam e o que a imprensa calou. 

Um dos mais importantes papéis da arte é o da recusa da naturalização do apagamento e da cristalização – estilizada, que seja, mas útil – da memória histórica. O de mostrar, com formas e tons diversos, como a verdade pode ser sistematicamente ocultada, e como enfrentá-la exige mais do que boa vontade: exige enfrentamento direto com a estrutura da impunidade.

Reúnem-se aqui alguns desses filmes. Obras que desmontam versões oficiais, expõem os mecanismos do poder e que, cada uma a seu modo, respondem com rigor a uma pergunta incômoda, mas necessária: o que acontece quando não há consequência?

A História Oficial (1985), dir. Luis Puenzo. 

Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o longa argentino é um dos primeiros a abordar os desaparecimentos forçados sob a ditadura militar na Argentina. A trama acompanha uma professora de história que, após a redemocratização, começa a desconfiar da origem de sua filha adotiva – e se vê confrontada com as verdades que a elite escolheu ignorar. O filme toca em feridas abertas: crianças roubadas, silêncios cúmplices, a construção de narrativas oficiais para mascarar crimes de Estado. Uma obra essencial sobre responsabilidade individual em tempos de horror coletivo.

Uma Cidade Sem Passado (Das schreckliche Mädchen, 1990), dir. Michael Verhoeven.

Baseado em fatos reais, o filme acompanha Sonja, uma jovem estudante alemã que, ao decidir escrever um trabalho escolar sobre o nazismo em sua cidade natal, descobre um pacto coletivo de silêncio, negação e omissão. O filme, que alterna entre o tom satírico e o documental, revela como o esquecimento pode ser política ativa, e como a recusa em confrontar o passado molda o presente. A personagem insiste em perguntar e paga um alto preço. Obra obrigatória em cursos de História ao redor do mundo, sobre memória, resistência e o que significa romper o consenso da conveniência.

Argentina, 1985 (2022), dir. Santiago Mitre. 

Baseado em eventos reais, o filme acompanha os promotores Julio Strassera e LuisMoreno Ocampo durante o Julgamento das Juntas, o primeiro grande processo civil contra militares responsáveis por crimes durante uma ditadura na América Latina. Com precisão dramática e enorme rigor histórico, o longa retrata o que significa enfrentar estruturas de poder que há pouco pareciam inquestionáveis, e faz isso sem heroísmo vazio: Strassera não é apresentado como santo, mas como um homem que, diante do momento, decide não recuar. Um filme sobre coragem política, responsabilidade institucional e o preço de romper pactos de silêncio.

Z (1969), dir. Costa-Gavras.

Inspirado no assassinato do político grego Grigoris Lambrakis, o filme é um marco do thriller político moderno. “Z” começa com um crime — um atentado contra um deputado progressista — e se transforma em um retrato corrosivo das engrenagens que protegem os culpados. A letra do título é o símbolo de uma esperança proibida: “Ele vive”. Com montagem afiada e indignação fria, Costa-Gavras denuncia o conluio entre militares, polícia, justiça e mídia para impedir que a verdade venha à tona. Um filme sobre o poder do Estado enquanto máquina de encobrimento. Ainda atual.

Ainda Estou Aqui (2025), dir. Walter Salles.

O vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2025 é um filme íntimo e dilacerante, onde Salles revisita a trajetória da família de Rubens Paiva, político torturado e morto durante a ditadura militar brasileira. O foco, porém, não está nas ações políticas ou no folclore das biografias, mas nos efeitos do tempo, do sofrimento, da memória e da falta de legitimação da perda – que até muito recentemente não tinha sido reconhecida, particularmente porque o corpo, como tantos outros, nunca foi encontrado. O filme é marcado por silêncios que pesam mais do que discursos e revela as marcas que regimes de exceção deixam mesmo após a redemocratização. Não há pornografia de sofrimento – não é um filme sobre tortura, sangue e horrores do cárcere – mas sim a permanência do trauma, e a consciência de que o passado não se desfaz por decreto.

O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (2006), dir. Cao Hamburger.

Mais do que uma fábula de infância sob a ditadura militar brasileira, este é um filme sobre ausências e sobre a forma como elas moldam afetos, identidades, memórias e histórias. Mauro, um garoto deixado às pressas pelos pais perseguidos políticos, é acolhido por uma comunidade judaica no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, em plena Copa do Mundo de 1970. A repressão é pano de fundo, mas sua presença é constante no silêncio, nas portas fechadas, nas respostas evasivas. Um retrato sutil, e por isso mesmo potente, de um país vivendo sob vigilância e medo, visto pelos olhos de uma criança.

Desaparecido – Um Grande Mistério (Missing, 1982), dir. Costa-Gavras.

Ambientado durante os primeiros dias da ditadura de Pinochet, o filme acompanha a busca desesperada de um pai americano por seu filho desaparecido no Chile. Baseado em uma história real, o longa denuncia a cumplicidade do governo dos EUA com regimes autoritários na América Latina, e o faz com contundência raramente vista no cinema hollywoodiano. Costa-Gavras constrói um thriller político de precisão implacável, em que cada gesto burocrático se revela cúmplice de uma engrenagem de violência. É um filme sobre os desaparecidos, mas também sobre os que viram, sabiam e deixaram acontecer.

Garage Olimpo (1999), dir. Marco Bechis.

Ambientado durante a ditadura militar argentina, o filme é centrado em Maria, uma jovem militante sequestrada e levada para um dos centros clandestinos de tortura de Buenos Aires — o sinistro “Garage Olimpo”, que de fato existiu. Ali, ela é submetida a sessões de tortura comandadas por alguém que, até dias antes, era seu conhecido. O filme é cru, direto e perturbador; evita heroísmos e se recusa a transformar o horror em espetáculo. É sobre a naturalização do terror, a banalidade dos algozes e o silêncio das cidades onde tudo isso acontecia à vista de todos.

No (2012), dir. Pablo Larraín.

A campanha pelo “não” no plebiscito chileno de 1988, que perguntava se Pinochet deveria continuar no poder, é o pano de fundo desta dramatização fascinante do poder da linguagem publicitária na política. Larraín não entrega um filme sobre resistência clássica, mas sobre o uso das próprias ferramentas do sistema (marketing, imagem, discurso) contra ele. Gael García Bernal interpreta o publicitário responsável por uma campanha que transformou o “não” em esperança – e, enfim, vitória. Ao fundo, paira a pergunta: o que é preciso sacrificar para vencer? E o que se perde quando se ganha?

COMPARTILHE