quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Produtividade a qualquer custo? O impacto das exigências emocionais no trabalho e na vida

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Psicóloga, sócia fundadora, diretora executiva e responsável técnica da Permah Consultoria e Psicologia.

Vivemos em uma era em que o valor de uma pessoa, muitas vezes, é medido por quanto ela entrega e não por como ela se sente. A lógica da alta performance tomou conta das organizações, das redes sociais e, silenciosamente, das nossas identidades.

O problema é que, nessa busca por resultados, esquecemos de uma parte essencial do processo: o custo emocional. Porque sim produtividade também cobra fatura. E ela pode ser alta.

O que são exigências emocionais?

O termo vem sendo amplamente estudado na psicologia organizacional e diz respeito à energia psíquica que investimos para regular emoções, manter a imagem profissional e sustentar relacionamentos no trabalho, mesmo quando estamos cansados, ansiosos ou abalados.

São demandas subjetivas que não aparecem nos relatórios de desempenho, mas drenam nossa saúde mental dia após dia.

Exemplos:

  • Sorrir mesmo quando está tudo desmoronando por dentro.
  • Escutar demandas difíceis sem poder expressar frustração.
  • Evitar conflitos a todo custo para não parecer “problemático”.
  • Dar conta de múltiplas tarefas enquanto se sente emocionalmente sobrecarregado.


A sobrecarga emocional silenciosa

A pesquisadora Christina Maslach, referência global em burnout, afirma que a exigência emocional é um dos gatilhos mais potentes para o esgotamento profissional. E essa exigência não se limita ao ambiente corporativo: ela transborda para a vida pessoal.

Mulheres, especialmente, enfrentam uma dupla cobrança — performar bem no trabalho e manter o equilíbrio emocional em casa. E muitas vezes, ainda são vistas como “emocionalmente instáveis” quando expressam exaustão.

O corpo sente

A neurociência confirma: conter emoções continuamente ativa o sistema de estresse. Isso leva à liberação crônica de cortisol, aumenta a inflamação sistêmica e está associado a quadros de:

  • Insônia
  • Ansiedade
  • Irritabilidade constante
  • Falta de memória e concentração
  • Enfraquecimento do sistema imunológico


No consultório, essa dor tem nome

Vejo diariamente pessoas que se sentem “culpadas por não renderem como antes”, sem perceberem que estão apenas tentando sobreviver num sistema que cobra sem oferecer espaço de cuidado.

São profissionais que dizem:

“Não posso parar agora.”
“Tenho medo de ser visto como fraco.”
“Se eu não aguentar, quem vai aguentar por mim?”

Esse tipo de discurso revela um ideal de invulnerabilidade que adoece — e que, muitas vezes, é reforçado culturalmente.

O que podemos (e precisamos) mudar?

1. Reconhecer o impacto das emoções no desempenho
Organizações saudáveis valorizam pessoas, não apenas resultados. Isso passa por criar espaços de escuta, regulação emocional e prevenção.

2. Lideranças como espelhos emocionais
Líderes que validam emoções, reconhecem limites e cuidam da saúde emocional do time inspiram ambientes mais humanos e sustentáveis.

3. Cuidar de si é parte da entrega
Ninguém sustenta alta performance sem pausa, sem afeto, sem descanso. Cuidar da saúde emocional não é fragilidade, é inteligência preventiva.


Reflexão final:

Quantas vezes você sacrificou o seu bem-estar para “entregar mais”? Até quando vai ignorar os sinais de que o corpo insiste em dar? Talvez seja hora de rever o que realmente é produtividade — e o que é só sobrevivência disfarçada de eficiência.

*O conteúdo é de responsabilidade do autor e não expressa, necessariamente, a opinião do RealTime1.

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