segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Otoni Mesquita – a esperança morre por último, mas morre

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Poeta, jornalista e membro da Academia Amazonense de Letras.

Aqui, do meu observatório, instalado em um conjunto residencial que possui todas as ruas com nome de matadores de índios e negros e desgarrados filhos de Eva em geral, não me causou nenhum impacto a tentativa de assassínio moral contra a pessoa do professor-doutor da Universidade Federal do Amazonas, artista plástico e testemunha ocular da história, Otoni Mesquita, perpetrada sob a proteção dolosa da rede de fumaça que aprisionou a cidade em um forno de micro-ondas, nas últimas semanas.

Estranhei, sim, que tivessem esperado tanto tempo para mirar nesse peregrino que distribui aos viventes das ruas físicas e becos sem saída virtuais a riqueza do seu conhecimento acadêmico e cientifico (se não for redundante a expressão).

Otoni é um restaurador da verdade que existe sob o nosso falso testemunho urbano. A defesa que fez da sua peregrinação ao sítio arqueológico das Lajes, que nunca chamou atenção de ninguém, aqui nas ilhargas de Manaus, devolveria à fila do Enem aquele promotor de Justiça, que desfilou de toga no plenário de um Tribunal do Júri, como se estivesse fantasiado para uma festa do Halloween, a atentar contra a dignidade de uma advogada, sob o olhar bovino de um juiz de futebol de várzea, completamente desinteressado pelo jogo de chutes na canela, diante de si.

Que tipo de promoção de Justiça as várzeas extemporâneas da seca histórica expõem, neste momento? As que existiam sob as águas… e os tapetes, claro.

A defesa de Otoni Mesquita, feita por ele mesmo, acolhida por este portal – e aplaudida por uma audiência sobrevivente da pandemia de ignorância que varre o planeta – é uma lição de civilidade.

Da civilidade que ele estava tentando desvendar nos testemunhos milenares impressos nas Lajes, quando foi agredido por essa exuberante ignorância que se institucionaliza também em Manaus, com a velocidade de um post nas redes sociais.

A fumaça, que ninguém sabe de onde vem, de que incêndios provocados por quem – eventualmente por combustão espontânea da floresta úmida, a evitar sanções dos códigos penal e ambiental – é a metáfora que mais aproxima a capital amazonense da sua realidade: a história do seu auto apagamento.

Certa intelligentsia da cidade decidiu não deixar pistas da sua presença na Amazônia, como se a fumaça não fosse uma concretude – palpável, sim; tão palpável que arde nos olhos e nos pulmões.

Por isso, a história dos 354+ anos da sua narrativa escrita em português da Contra Reforma, e não nos paredões do rio Negro, deixa muito a desejar a leitores do tipo Otoni Mesquita, acostumados a outras incursões em regiões nunca de antes navegadas.

Quanto à participação, não solicitada, desse jovem setentão em um imbróglio fora de propósito, como este das Lajes, deve-se aos derradeiros vagidos de uma geração que vive sua última idade – uns dizem ser a terceira, a quarta… o que não muda nada. Uma geração do tempo em que o rio tinha água para o peixe respirar. A esperança, dizem também, é a última que morre. Mas morre. Todos sabemos… e não mudamos (em) nada.

*O conteúdo é de responsabilidade do autor e não expressa, necessariamente, a opinião do RealTime1.

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