quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Os vereadores, esses desconhecidos...

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Gilson Gil é sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam)

Quase toda a atenção, hoje em dia, está concentrada nos candidatos a prefeito. Todos de olho em quem xinga ou quem é laranja de qual outro postulante, entre outras curiosidades.

Porém, há outro cargo em disputa e que é central na vida das cidades, ou deveria ser, pelo menos: o posto de vereador.

Eles são importantes para fiscalizar o Executivo, propor investimentos, destinar emendas, encaminhar demandas e criar leis para ordenar o município.

Pelo que as pesquisas para prefeito indicam, teremos uma Câmara “conservadora”, pois os partidos com mais candidatos e potencial de votos de legenda seriam aqueles mais à direita, teoricamente, no espectro político.

Além disso, há outra variável: pela primeira vez na história municipal, todos os 41 vereadores concorrem à reeleição. Todos eles com seus auxílios intactos, assim como seus subsídios oriundos da atividade. São sérios concorrentes, que partem já na dianteira.

No entanto, mais do que falar em novos x velhos ou progressistas x conservadores, utilizando-me da retórica realista maquiavélica, gostaria de pensar sobre o que eles serão de fato, após assumirem a cadeira.

A lógica esquerda x direita se apaga rapidamente, assim como a de conservador x progressista.

A maior clivagem é, na realidade, situação x oposição. A identidade partidária ou ideológica rapidamente se esfumaça. Mais importante do que se definir pelo partido ou pelos ideais políticos, é estar, ou não, do lado do prefeito eleito.

Tão simplória é a definição partidária que, dos 41 eleitos em 2020, somente 5 permaneceram no mesmo partido. E isso não fez a Câmara parar, pois, acima de tudo, o que realmente importa, para eles, é estar na situação ou na oposição.

Para o prefeito eleito, tanto faz o partido ou a ideologia dos eleitos. Ele, certamente, chamará os 41 vencedores e negociará pessoalmente, ou por emissários, com eles. Um cargo, uma secretaria, um contrato, um aluguel de escola ou algo similar vale muito nessa hora. Bancadas se formam, a partir de alguns cargos ociosos em uma secretaria menos visada.

A ideologia presente é, então, a situacionista, ou oposicionista, conforme o acerto dar certo, ou errado.

É esse o motor que move, na realidade, a Câmara, na maior parte de seus atos. Vemos poucos, ou nenhum, debates sobre alternativas econômicas ao Polo Industrial ou sobre a arborização precária da cidade, por exemplo.

Em um momento no qual os parlamentos se tornam mais ativos e passam a propor leis mais positivas, ou seja, leis que mexem com a sociedade, deixando de ter aquele papel decorativo de entregar medalhas ou nomear ruas, é preciso que olhemos isso. O Congresso nacional tem índices elevados de proposições afirmativas, desde meados do mandato de Dilma 2. Aliás, esta é uma realidade nova que o Lula 3 está enfrentando e tentando se adaptar: um Congresso ativo e impositivo.

Aqui, tirando as emendas, vemos outro cenário. Temos uma Câmara pouco impositiva, que apenas chancela os desígnios do Executivo, sem nem olhar o que faz, ou age de forma reativa, negando tudo, apenas porque veio do prefeito.

Já é estranho que tenhamos poucos, ou quase nenhum, candidato que represente organicamente um setor organizado da sociedade local. Falo do PIM, dos sindicatos (patronais e de trabalhadores), do funcionalismo público, do comércio, do setor primário, da indústria local, dos estudantes, das pessoas LGBTQIA+, dos ecologistas ou indígenas, por exemplo.

A maior parte dos eleitos acaba vindo de igrejas, famílias de políticos, ex-secretários ou pessoas de dentro da máquina oficial. Seus vínculos com demandas organizadas é mínimo. No fundo, são parlamentares de si mesmos, cuja intenção inicial acaba sendo negociar cargos para definir se será pró ou contra o prefeito.

Meu intuito aqui não é desprestigiar os vereadores. Pelo contrário, é mostrar como, atualmente, no plano nacional, os legisladores cresceram de atribuições e estão incomodando, no bom sentido, os membros do Executivo.

Infelizmente, posso dizer, aqui, isso não ocorre. Tirando o incômodo dessa negociação eterna por cargos e favores, o prefeito não é demandado por nossos vereadores. Nenhum grande debate sobre a mobilidade urbana em Manaus ou a segurança pública passa pela Câmara. Ela aceita, tranquilamente, que seu papel será o de aprovar, ou não, o que o prefeito enviar.

É pouco, muito pouco para que 41 eleitos passem 4 anos recebendo recursos públicos e se passem por representantes do “povo” …É mais do que hora de o eleitor rever suas ideias e dos próprios candidatos mudarem de atitude.

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