E já fará 40 anos.
O ano de 1986 ficaria marcado pela ocorrência de um fato ilustre, a passagem do Cometa de Halley. O cometa, descoberto pela astrônomo britânico Edmond Halley, costuma dar seus ares em nosso planeta a cada 76 anos.
Ao final dos últimos dias de 1985, as notícias de seu retorno por estas bandas agitava o mundo inteiro e, principalmente, nosso país. Não eram raras as entrevistas especiais sobre o famoso corpo celeste. Em uma delas, Caetano Veloso, ao lado de sua mãe, Dona Canô, que nascera em 1907, três anos antes da última passagem do cometa, em 1910, ouviu a seguinte pergunta: “Como vocês esperam ver o Cometa de Halley?” Dona Canô não titubeou e respondeu: ‘Vivos’.
Em Fortaleza, meu avô paterno, Felipe, também nascido, assim como Dona Canô, em 1907, durante conversa com meu tio Evandro, afirmou que não iria ver o cometa. Por já ser quase octagenário, presumindo algo obscuro naquela afirmação, meu tio logo o retrucou: ”Que é isso Seo Felipe, o senhor vai viver muito ainda”. Meu avô foi rápido na resposta: “Mas quem está falando que eu não vou estar vivo durante a sua passagem? Só não irei ver o cometa porque costumo dormir cedo, e ele deve passar muito tarde. Estarei ‘vivíssimo’”. Meu tio suspirou aliviado.
Ambos viveram intensamente 1986, no caso do meu avô, seu ano derradeiro. Se tornou imortal em 1º de junho de 1987. Se uniu a um paraense que tantos anos atrás já tinha o céu como lar, Osvaldo, meu avô materno. O encontro destes dois, certamente, foi regada por uma saborosa cajuína. Tinham muitas coisas em comum, a mais importante delas o amor por duas doces alencarinas, Noelzinda e Ruth. Juntos, meus avós.
O fim de um ano sempre representou para mim o momento de me reunir com meus avós. Morando em São Paulo, durante anos juntamente com meus pais, José Renato e Maura, e irmãos, Alexandra, Fábio e Adriano, a viagem para Fortaleza, cerca de 3.000 km, costumava ser feita de carro. Muitas aventuras foram vividas durante estes tempos.
A chegada normalmente era à noite. Passávamos primeiro pelo bairro do Mondubim, e abraçávamos os Carvalho Fernandes, Osvaldo, Ruth e os seus. A seguir, logo ao lado, o Sítio Floresta, lar dos Sátiro Santiago, Felipe e Noelzinda e mais uma ‘ruma’ de gente. Passar o final do ano junto aos avós sempre foi o presente maior.
O resumo do ano que está próximo de seu final pareceu seguir o mesmo roteiro de nossas viagens de carro entre São Paulo e Fortaleza. Ao olharmos para trás tanta estrada foi deixada, muitos buracos e obstáculos vencidos. Algumas avarias foram sofridas e, até mesmo, pneus foram definitivamente perdidos. Ainda assim, muitas conquistas foram alcançadas, todas elas muito comemoradas, tais como aquelas cidades onde chegávamos ao final de cada dia. Por fim em seu término, a vitória maior foi alcançada. Chegamos vivos para contar a história em que pese perdas que muitas vezes passamos a carregar definitivamente em nossos corações. Sim as perdas fizeram parte e, por mais paradoxal possa parecer, elas, do jeito Dele, nos fizeram mais fortes.
Com o passar do tempo, as viagens de carro passaram a ser apenas lembranças. Muitas coisas mudaram. Meus avós, já faz algum tempo, estão juntos no andar de cima. Assim também com tantos outros amigos e parentes queridos. Todos eles permanecem plenos, pois, como sempre dizia ‘certo alguém’: “… as pessoas só morrem quando seus valores e lembranças deixam de ser abraçados.”
Se para alguns, o ano novo significa apenas uma mudança de unidade, para aqueles que queremos persistir na construção e perpetuação de um caminho de amor, trata-se de mais uma oportunidade que se inicia a todo novo dia. Desejo para você, seus familiares, entes e amigos, o melhor Natal que sua crença permita ter e um ano de 2026 de amor, sonhos, saúde e realizações plenas.