O teatro prega peças em quem o pratica. É de sua natureza ser uma arte imprevisível, imponderável, indisciplinada. Em festivais, então, essa probabilidade de ele tirar o chão dos próprios artistas é bem maior, porque as produções estão “jogando fora de casa”, por assim dizer, fora de suas temporadas regulamentares e tudo é montado para uma apresentação única, na maioria das vezes. Os artistas do teatro entram em cena sabendo que algo pode surpreendê-los, a rasteira pode vir, a comédia de erros pode se instalar, por mais que tudo tenha sido muito bem organizado e produzido previamente.
Ao final da apresentação de sábado, dia 18, da peça Canto do Medo, como parte da programação do “Festival Sesi Cultura Infância – Uma Visão de Futuro”, em Manaus, a atriz e autora do espetáculo Clarice Cardell(grupo La Casa Incierta, de Brasília), uma das maiores especialistas do Brasil no teatro pensado para a primeira infância, foi checar com público e crítica (no caso, eu) se alguém percebeu as falhas ocorridas. Ninguém notou. “O espetáculo, como ele realmente é, hoje não aconteceu”, dizia ela, ainda impactada pelo pânico que a assolou durante a apresentação – a trilha, segundo ela relatou, faltou inúmeras vezes (por lapsos da programação de computador).
Uma peça sobre o medo fez sua atriz quase surtar…de medo. Até gritou um ‘Socorro!”, que não está no texto original. É ou não é o teatro pregando suas peças? O desafio da atriz foi enorme, mas lições se tiram dos tropeços, talentos se confirmam nas adversidades. Clarice brilhou. Aliou tarimba, sensibilidade, jogo de cintura, inteligência cênica e se virou como pôde, entregando à plateia o melhor que conseguiu. Não foi pouco – já que ninguém percebeu. Claro, a temática era o medo – então o ar lívido da atriz entrou de gaiato no pacote. Até combinou.
Teatro para bebês, como é o caso de Canto do Medo, é uma modalidade que engatinha, literalmente, no mundo. Surgiu não há muito tempo e quem adere a ele ainda tenta descobrir suas manhas e seus dengos. A maioria dos grupos vai pela linha sensorial: estimula o público com cores, sons, texturas, expressão corporal. Canto do Medovai além, porque a estudiosa Clarice Cardell encara o teatro para a primeira infância como algo que precisa de um conceito embutido, uma intenção mais ampla do que só ficar focado no estímulo dos sentidos. Para ela e já para boa parte de quem vai a fundo nessa modalidade, esse teatro deve apresentar um propósito mais ousado e concreto, porque bebês de 0 a 3 anos são muito mais capazes de entender linguagens e provocações do que a gente grande imagina. Clarice, aqui, quis mergulhar no medo, sem freios – e chamou para dirigi-la outra grande desse gênero, Sandra Vargas, do Grupo Sobrevento, de São Paulo. Acertaram, julgo eu.
Enquanto o público vai se acomodando na sala, ouve-se Boi da Cara Preta, em versão instrumental. Sutileza que entendedores entenderão. Metida plasticamente em um amplo vestido azul, a atriz está sentada no palco ninando um pedaço de pano. Inteligentemente, o primeiro medo a aportar na cena é o medo materno. “Eu tive medo quando você chegou”, diz ela. Pronto. Com essa esperteza, a peça já trouxe para dentro de si todas as mamães da plateia, afinal criança não vai sozinha ao teatro – e saber incluir os adultos na história é sempre bem importante.
Canto do Medo tem belos momentos de teatro de objetos e, sobretudo, de teatro de sombras – duas técnicas que jogam a favor da temática, instaurando os climas certos, brincando com o escuro e o sombrio. Lobo, cobra, monstro, aranha, barata, solidão, abandono – medos que as crianças têm, medos que os adultos têm. Tudo isso é explorado com sons provocativos, por que não? Uivos, batidas, percussões – há até uma bateria em cena, por exemplo. Lupa Marques é auxílio luxuoso em cena, cuidando da música e da trilha ao vivo e fazendo as vezes do pai de pijama.
Quem está embaixo da minha cama? Está muito escuro! Tem alguém aí? São frases que Clarice lança no ar, absolutamente familiares à plateia mirim. A identificação é imediata e funcional. Teatro e empatia de mãos dadas. O roteiro do espetáculo (sua dramaturgia) escolheu alternar medo e leveza, ou seja, fatias da vida de qualquer criança. Clarice canta e brinca lindamente, passeia docemente um barco pelas ondas de seu vestido-mar, sente cócegas, gargalha e expressa alívio ao fim de um pesadelo. São cenas de muita ternura, carregadas de afeto. O olhar da atriz captura a plateia. O teatro pode dar medo, pode amedrontar as crianças, afinal esse é um sentimento que elas conhecem desde muito cedo, mas acolhê-las com outras cenas mais suaves é um abraço cuidadoso do espetáculo com seu público de fraldas.
E, ao final, aparece claramente a tese pretendida: nomear o medo faz diluir a solidão, nomear o monstro, o mar, a escuridão, o lobo, o trovão… Dê os nomes do que oamedronta, que assim o medo some. Nomear a ausência para tolerar a separação. Isso está na letra da tocante canção de encerramento. As crianças presentes são levadas a dizer esses nomes, nomear seus medos, além de surgirem também vozes pré-gravadas no playback. Muito bom gosto e delicadeza, nada de lições despejadas, morais vomitadas. O poético permeando o conceitual. Uma peça que, enfim, começa a desvendar mais objetivamente para o público o que é afinal fazer teatro para bebês, retirando dessa arte tudo o que possa ser confundido com uma mera manifestação lúdico-recreativa. É mais, muito mais do que isso. Canto do Medo deixa claro.