Em “Meu Coração A Descoberto”, Charles Baudelaire, aquele controverso e por vezes venenoso francês, escreveu que “não se deve pensar que o diabo tenta apenas os homens de gênio. Ele decerto despreza os imbecis, mas não desdenha seu adjutório. Muito pelo contrário, é neles que deposita as maiores esperanças.”Os parágrafos seguintes são um ataque virulento contra George Sand, que Baudelaire considera uma “besta quadrada” e na cabeça de quem gostaria de jogar um hissope. Agora, eu admito que não li suficiente George Sand para ter uma opinião à respeito dela, então não posso dizer se concordo ou discordo do direcionamento específico dessas linhas. Mas o espírito geral é cirúrgico.
É tentador pensar que o grotesco seja inofensivo, que a estupidez, quando suficientemente óbvia, se anule por si só, que a mediocridade seja, no fundo, uma forma de inércia –ridícula, talvez patética, mas incapaz de causar grande estrago. A História, no entanto, sempre parece decidida a contrariar essa impressão. Repetidamente, é da somatória de burrice, ressentimento e autoconfiança que brotam as figuras mais destrutivas da vida pública. Podemos temer os gênios do mal, mas esse é um problema menor; eles são, afinal, raros. O erro está em subestimar os idiotas convictos, os entusiastas da própria ignorância. Homens e mulheres que, sabendo pouco e entendendo menos ainda, se agarram à convicção de que suas intuições, seus afetos e suas certezas – todas elas adquiridas por osmose ou WhatsApp – valem mais que qualquer saber acumulado. Pior que o ignorante, é o ignorante seguro de si. E esses são tragicamente comuns.
Há algo de profundamente desonesto na ideia, tão em voga, de que o problema dos nossos tempos é uma “falta de líderes à altura”. Isso sugere que o buraco é circunstancial, como se estivéssemos apenas passando por uma entressafra infeliz, aguardando que surja o próximo estadista de respeito – aquele que finalmente nos salvará da mediocridade instalada. O mundo inteiro parece estar constantemente tentando encontrar sua própria versão desse ser mitológico. Certamente, no processo, uma miríade de criaturas bizarras já foi elevada à tal posição, nos quatro cantos do mundo. Acho que podemos concordar que não tem dado muito certo.
É uma ilusão conveniente, pois o problema de um governo democrático (ou que começou democrático, de qualquer forma) raramente reside em seus chefes. A verdade é que os líderes atuais não estão desconectados do espírito de sua época. Eles não destoam de seu eleitorado; são, ao contrário, sua mais pura expressão. A figura do homem público que brada slogans fáceis, desfila ignorâncias com orgulho e “humilha” (no sentido TikTok da palavra) especialistas como se fossem inimigos da nação não é uma aberração, mas um sintoma. E, mais que isso, é uma escolha.
O fascismo clássico – ou, se quisermos ser generosos, o autoritarismo do século XX – ao menos tinha a decência de ser bem penteado. Os ditadores de outrora eram homens letrados, ou ao menos obcecados em parecer assim. Mussolini escrevia ensaios sobre filosofia política. Hitler era um orador formidável, e lia obsessivamente. Franco, com sua expressão imutável de quem já nasceu mumificado, cultivava um ar de glacial estratégia. Mesmo os reacionários mais grotescos daquela época pareciam, de algum modo, comprometidos com a ideia de um certo estilo (não é à toa que metade dos grandes criativos e pensadores da época tenham em algum momento mergulhado um dedo, ou dez, nos deceptivos encantos do nazi-fascismo). Havia, na construção simbólica desses homens, uma tentativa – ainda que tosca, ensanguentada e, sobretudo, falsa – de parecerem maiores do que a vulgaridade de seus projetos.
O que se vê hoje, ao contrário, é a caricatura despudorada. O político que não sabe conjugar um verbo, que fala qualquer besteira que lhe vem à cabeça, que faz anúncios oficiais via Twitter (alguém chama aquilo de X?), que diz se orgulhar de nunca ter lido um livro. O economista do meme, o presidente que posta vídeos de IA, o deputado do TikTok. O truísmo tosco substituiu a ideologia, e o vulgar, grosseiro, é agora o autêntico. A ignorância passou a ser vendida como proximidade com “o povo”. Isso é prova de que “o povo” caiu no próprio conceito, pois um século atrás, o populista médio partia do desejo do homem comum de ser percebido como se enxergava: tão capaz e digno de ser ouvido quanto o homem da elite. O homem comum queria ser respeitado. Hoje, ele procura o membro da elite que melhor se aproxime da caricatura mais idiotizada do mais baixo denominador comum daquilo que ele percebe como a própria vulgaridade e se agarra à ele. O que interessa num chefe de Estado é que ele não tenha filtro (contanto que as palavras que saem pela boca não-filtrada dele sejam exatamente aquelas que eu penso, mas não tinha coragem de dizer, por que no fundo sei que são atrocidades – é isso mesmo que me faz gostar delas, na verdade –, até alguém com certo nível de legitimidade institucional tê-las tornado aceitáveis, é claro).
A estupidez se tornou não só tolerável, mas desejável. Ela acompanha uma dose (não) salutar de ressentimentos artificiais e um alvo comum, e toma forma, que por vezes acaba eleita para alguma coisa, nas figuras patéticas de bufões perigosos sem plano, projeto ou lógica além da perpetuação do próprio ruído. Baudelaire, mais cruel e mais livre para sê-lo do que a maior parte de nós jamais poderá aspirar a ser, estava certo: O diabo deposita suas maiores esperanças não nos monstros intelectuais, mas nos tolos encantados com o som de suas próprias vozes. Eles são mais numerosos, mais fáceis de manipular, mais crentes de sua missão. E, o mais importante, são melhores vetores. O mal inteligente precisa esconder-se, mas o mal estúpido pode ser dito em voz alta, com bonés personalizados. Quanto mais absurdo, mais ressoa. A lógica da estupidez é autocentrada: não admite correção, não aceita nuances, não sabe distinguir entre fato e opinião. Propaga-se rápido. Destrói muito pelo caminho.
O que talvez torne tudo mais grave é que, “na nossa vez de sermos fascistas”, essa gente parece saber que é estúpida – e simplesmente não se importa. Aliás, transformou isso em capital político: um sujeito que admite não entender nada, mas jura que vai “resolver tudo com coragem e patriotismo” (a versão adulta de “com fé, confiança e um pouquinho de pó de pirlimpimpim” do Peter Pan – “todas as crianças crescem”, exceto algumas, sabe como é) não está se desculpando por sua ignorância, mas exaltando-a. Está dizendo que saber é irrelevante, que estudar é frescura, que pensar demais é coisa de covarde (ou coisa que o valha, o vocabulário ali é outro). E, ao fazer isso, se aproxima de um eleitorado que compartilha da mesma desconfiança diante da complexidade do mundo. O que importa é a sensação de pertencimento. É a reafirmação do grupo. O resto – dados, lógica, história, ciência – é detalhe.
A besta quadrada (palavras de Baudelaire, não minhas) que confia no próprio bom senso é, talvez, a personagem política mais perigosa do nosso tempo, sendo em igual medida limitada e missionária, convencida de que sua mediocridade é virtude, e de que a vulgaridade é a voz do povo, do país, de Deus. Arrasta consigo milhões que veem nela o reflexo perfeito de sua própria impotência raivosa. É o verdadeiro adjutório dos imbecis: não os estúpidos isolados, mas os estúpidos organizados (ou que tentam, enfim), unidos por uma identidade comum – a convicção de que saber menos é ser mais livre.
Em nenhum outro momento da história recente a burrice foi tão performada em público com tanto orgulho. E não se trata apenas de ignorância, mas de uma escolha deliberada por ela, que se manifesta não apenas nos políticos, mas na sociedade que os aplaude – e que desconfia de professores, odeia jornalistas, considera especialistas inimigos e acha que “a vida ensina mais que qualquer faculdade” (o que é muito bem verdade em muitos sentidos, com certeza, mas eu garanto que se o médico prestes a iniciar sua cirurgia dissesse isso enquanto aplicam sua anestesia, você não ficaria feliz. Não sei você mas, para mim, a localização de um fígado não é exatamente questão de opinião), que rejeita toda e qualquer autoridade que não seja baseada em força bruta ou carisma histriônico, que transforma qualquer tentativa de qualificação intelectual em elitismo. O mais trágico, ou irônico, enfim, é que as questões que enfrentamos hoje – climáticas, econômicas, geopolíticas, sanitárias – são de uma sofisticação técnica inédita. E, no entanto, é precisamente agora que a política é dominada por figuras que mal compreendem o funcionamento básico de um Estado, e se orgulham disso. É o espetáculo da vulgaridade.
Na continuação positivamente venenosa de sua colocação, Baudelaire diz que “George Sand […] é, sobretudo e além de tudo, uma besta quadrada; mas está possuída. Foi o diabo que persuadiu a confiar no seu bom senso e coração, a fim de que persuadisse as demais bestas quadradas a confiar nos seus próprios. Não consigo pensar nessa estúpida criatura sem certo frêmito de horror. Se a encontrasse, não conseguiria me impedir de atirar um hissope naquela cabeça. George Sand é uma dessas velhas ingênuas que não querem nunca sair de cena.”
Eu me identifico com Baudelaire. Não sei qual o problema dele com George Sand, mas eu também tenho vontade de atirar um hissope em certas cabeças. Se o diabo não sair, pelo menos pode ser que algo volte ao lugar.